Um remédio amargo, muitos efeitos colaterais

Em artigo, Angelo Frias Neto, presidente da Acipi, analisa decisão do Copom de elevar pela sexta vez consecutiva a taxa Selic

FACESP
11/Jun/2015
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O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, decidiu subir os juros básicos da economia de 13,25% para 13,75% ao ano, um novo aumento de 0,50 ponto percentual. Foi a sexta elevação consecutiva da taxa Selic, que atingiu o maior patamar desde agosto de 2006, ou seja, em quase nove anos - quando estava em 14,25% ao ano.

A decisão confirmou a expectativa da maior parte dos economistas do mercado financeiro. Com uma taxa mais alta de juros, o BC tenta controlar o crédito e o consumo, atuando assim para segurar a inflação. Mas será que era disso mesmo que estávamos precisando?

Será que, ao tornar o crédito e o investimento mais caros, optar por um remédio tão amargo em um momento já bastante delicado, não teremos um impacto ainda maior sobre o crescimento da economia brasileira e o emprego?

Não se discute aqui a necessidade de reverter as expectativas inflacionárias. Mas, a análise do cenário mostra que o remédio tinha que ser um pouco diferente. O BC na realidade não deveria elevar mais a Selic, uma vez que os efeitos dos aumentos anteriores ainda vão se fazer sentir mais fortemente na economia.

E por que não aumentar? A inflação que temos não é uma inflação provocada por demanda de mercado, e sim por desequilíbrio de contas públicas, com aumento constante do custeio obrigatório.

Hoje, o aperto monetário do governo está asfixiando não só a atividade econômica, mas também o consumo das famílias, que recuou 1,5% no último trimestre. Isso sem falar de outros estragos, como o fato de os juros elevados provocarem redução dos investimentos, queda da produção industrial e desarticulação de setores produtivos.

E os reflexos ainda serão sentidos no futuro, em função de investimentos que deixarão de ser realizados pelo setor privado, caso do aumento de desemprego, de 6,5% para 8%, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), que tem dados muito mais abrangentes que os informados pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME – restrito a 6 regiões metropolitanas).

A China com intuito de conseguir um crescimento do PIB de 7,00% esse ano – em 2014 foi de 7,4% - reduziu pela terceira vez consecutiva sua taxa básica de juros para 5,1%, para empréstimos, e 2,25% para remunerar depósitos.

Infelizmente, por aqui o resumo da história é outro. O governo corta o que não poderia e aumenta o que não deveria. As despesas da maquina publica, de custeio, foram mantidas, deixando uma instabilidade muito grande.

O mais eficaz, neste momento, seria a combinação das políticas fiscal (corte de gastos públicos) e monetária (juros básicos), que diminuiria o impacto do ajuste econômico sobre os produtores e os consumidores.

Precisamos, mais do que nunca, do esforço fiscal do governo para recuperar a confiança dos empresários e para diminuir a necessidade de novos aumentos dos juros. Esse modelo aliviaria o custo do ajuste para as empresas e os consumidores e permitiria a retomada gradual da produção. A Grã Bretanha tem retomado as políticas de privatizações como forma de acertar as contas públicas e estimular o crescimento do país.

Há bem pouco tempo, quando tivemos a explosão do estímulo ao crédito e ao consumo, economistas de fora do governo diziam que se tratava de um crescimento com prazo de validade, a menos que se buscasse combater os problemas de sempre, que ficaram menos aparentes diante da euforia do recém-conquistado poder aquisitivo: baixa produtividade, baixa qualificação da força de trabalho, excesso de burocracia, gargalos de infraestrutura, sistema tributário ruim.

E aqui estamos, mais uma vez, pagando a conta. Agilidade e reduções eficazes dos juros para facilitar o crescimento da economia, redução da dívida pública, estímulo à produção industrial – que se encontra estagnada –, aumento do consumo e geração de empregos de qualidade não podem mais esperar.

* Angelo Frias Neto é presidente da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba)

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