Vendas do comércio têm maior queda para maio desde 2001
Expectativa é de desaceleração gradativa do ritmo de queda no segundo semestre, segundo Alencar Burti, presidente da ACSP e da Facesp

As vendas do comércio varejista caíram 1,0% em maio ante abril, na série com ajuste sazonal, informou, nesta terça-feira (12/7), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na comparação com maio de 2015, sem ajuste sazonal, as vendas do varejo tiveram baixa de 9,0% em maio de 2016. Nesse confronto, as projeções iam de declínio de 4,95% a 8,00%, com mediana negativa de 6,30%.
“Maio deve ser o pior mês para o comércio brasileiro em 12 meses: até agora foi uma queda livre. Nossa expectativa é de desaceleração gradativa do ritmo de queda no segundo semestre, em direção a um equilíbrio. Mas o resultado acumulado de 2016 ainda ficará no campo negativo”, afirma Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação da Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).
Ele lembra que o resultado negativo de maio se deve ao desemprego alto, ao crédito mais caro e de difícil acesso e à falta de confiança do consumidor.
“Conforme avance a implementação efetiva do ajuste fiscal - mesmo que gradativa – os juros serão reduzidos e a retomada da confiança dos empresários e dos cidadãos vai ocorrer”.
O presidente da ACSP complementa que a mobilidade de datas móveis pode ter contribuído para os números de maio. Em 2016, o feriado prolongado de Corpus Christi caiu em maio, prejudicando o comércio. No ano passado, essa data comemorativa foi em junho.
Para Burti, junho pode ser um pouco melhor para o varejo por conta do frio intenso em algumas regiões, que deve ter impulsionado alguns setores.
Em maio, segundo o IBGE, as vendas do varejo restrito acumulam retração de 7,3% no ano e recuo de 6,5% em 12 meses.
Quanto ao varejo ampliado, que inclui as atividades de material de construção e de veículos, as vendas caíram 0,4% em maio ante abril, na série com ajuste sazonal.
O resultado veio abaixo do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pelo AE Projeções, que esperavam crescimento de 0,10% a 2,70%, com mediana positiva de 1,20%.
Na comparação com maio de 2015, sem ajuste, as vendas do varejo ampliado tiveram baixa de 10,2% em maio de 2016. Nesse confronto, as projeções variavam de retração de 8,70% a 5,90%, com mediana negativa de 7,60%.
Até maio, as vendas do comércio varejista ampliado acumulam queda de 9,5% no ano e recuo de 9,7% e 12 meses.
SÉRIE HISTÓRICA
A queda de 9,0% nas vendas do varejo restrito em maio ante o mesmo período do ano anterior foi o pior resultado para o mês desde o início da série histórica da Pesquisa Mensal de Comércio, iniciada em janeiro de 2000, informou o IBGE.
No conceito ampliado, que inclui os segmentos de veículos e material de construção, o recuo de 10,2% no volume vendido foi o segundo mais negativo da série histórica, atrás apenas da taxa de -10,4% registrada em maio do ano passado.
"Mas as vendas recuam 10,2% em cima de uma base já bastante baixa, de queda de 10,4%", afirmou Isabella Nunes, gerente na Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE.
REVISÃO
O IBGE revisou o resultado das vendas no varejo em abril ante março, que passou de alta de 0,5% para 0,3%.
O resultado do varejo ampliado (que inclui veículos e material de construção) também foi revisto para o período, saindo de -1,4% para -1,5%.
ANÁLISE
Os dados relativos às vendas de maio e abril reforçam a visão sobre a profundidade da crise pela qual passa a economia e aponta para demora da recuperação das vendas apesar de, na margem, haver estabilização de alguns indicadores antecedentes, disse Marcela Kawauti, economista-chefe da SPC Brasil.
"O mercado esperava uma pequena alta", disse Marcela. "Gosto de olhar os acumulados, que retiram os efeitos sazonais, mas eles também estão ruins."
O único item positivo das vendas de maio é o de artigos farmacêuticos, observou a economista da SPC Brasil. "O resto está caindo muito forte, inclusive os itens de preços menores", disse ao destacar os grupos Vestuário, com queda de 11,4%; móveis e eletrodomésticos, com queda de 15,4%, livros, revistas e jornais, com recuo de 14%, e materiais de escritórios, caindo 12%.
De acordo com a economista, o varejo vai continua negativo e deve fechar o ano em queda. "Embora a economia como um todo deva começar a se estabilizar no segundo semestre, as vendas devem continuar em queda. Só vão se estabilizar quando o mercado de trabalho começar a contratar. E o mercado de trabalho é sempre o último a reagir aos estímulos econômicos, tanto para cima como para baixo", disse.
Outro destaque negativo veio do setor de supermercados, que dá a maior contribuição para as vendas quando se cruza a variação com a participação, contribuiu com 2,7 pontos porcentuais na queda das vendas restritas em maio. "As vendas ficaram estagnadas, não caíram tanto, mas a participação deste grupo para o indicador é muito grande", afimrou Marcela. "Isso mostra o quanto estamos no fundo do poço.".
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Atualizado às 16h10

