Raízen entra com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 65 bi

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Raízen protocolou nesta terça-feira (10) pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R% 65 bilhões. A empresa, uma joint venture entre Cosan e Shell, enfrenta há meses uma crise por causa do endividamento.

Na semana passada, a empresa já havia afirmado que, se necessário, pode iria pedir recuperação extrajudicial. A empresa havia dito que avaliava se iria receber uma injeção de capital de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell. A Aguassanta Investimentos, fundo da família de Rubens Ometto, controlador da Cosan, se propunha a colocar os outros R$ 500 millhões.

O caminho da empresa até o atual cenário financeiro aconteceu rapidamente e se deu por uma série de fatores.

Uma das maiores empresas de energia e bioenergia do mundo, a Raízen é uma joint venture que opera, desde 2011, a bandeira Shell no Brasil e na Argentina. Em agosto de 2021, quando realizou o segundo maior IPO (oferta pública inicial, em inglês) da bolsa brasileira, a companhia levantou R$ 6,9 bilhões e era avaliada em R$ 74,4 bilhões.

À época, a expectativa do mercado era alta no crescimento de biocombustíveis e energia limpa, atividade da qual a Raízen é dominante no país.

O modelo de negócio, no entanto, foi colocado à prêmio com dificuldades adversas, como condições climáticas e o aumento das queimadas. Em situações como essa, a safra de cana é diretamente impactada e a produção de açúcar e etanol é reduzida, pressionando as receitas e margens da companhia.

Além disso, com a Selic acima dos 10% ao ano, a partir de 2022, a operação da companhia ficou ainda mais complicada. Com juro caro, ficou difícil injetar dinheiro novo na operação através da captação no mercado.

O forte movimento de expansão também cobrou seu preço. A aquisição da Biosev, em 2021, por um total de R$ 6,5 bilhões era apontada pela companhia como importante para ampliar o parque industrial de cana-de-açúcar no país. O negócio, no entanto se mostrou pouco rentável e exigiu altos investimentos em maquinário para aperfeiçoar as plantas da Biosev.

O próprio ciclo do açúcar, que até 2021 estava aquecido, acabou revertido. Fora isso, apostas mais sustentáveis, como o SAF (combustível sustentável de aviação) e o etanol de segunda geração, não deram retorno financeiro esperado.

No terceiro trimestre da safra 2024/2025, por exemplo, a Raízen registrou prejuízo de R$ 2,5 bilhões ante lucro de R$ 793 milhões no mesmo período do ano anterior.

Para a safra de 2025/2026, a deterioração dos resultados foi ainda maior: no 2° trimestre houve prejuízo líquido de R$ 2,3 bilhões e a dívida líquida ultrapassou R$ 53 bilhões.

Como forma de reverter prejuízos, a companhia passou a vender ativos, plantas de energia e usinas. Em julho do ano passado, a companhia vendeu as usinas Santa Elisa, por R$ 1,04 bilhão, e Leme, por R$ 425 milhões (ambas adquiridas da Biosev anteriormente), a usina Continental, por R$ 750 milhões, repassou projetos solares (pouco mais de R$ 1 bilhão) e negocia refinarias na Argentina que podem render US$ 1 bilhão.

A joint-venture formada com a Femsa pelo controle da rede de mercadinhos de bairro Oxxo, cambaleou e no mês passado a Raízen saiu formalmente do negócio.

Em outubro, a Raízen tentou cessar rumores e negou ao mercado que estivesse considerando uma recuperação judicial. Segundo fato relevante, a posição de caixa era “robusta”, com R$ 15,7 bilhões em disponibilidades.

Ainda assim, no mesmo comunicado a companhia afirmava que os acionistas controladores discutiam alternativas de capitalização para fortalecimento da estrutura de capital e estratégia de longo prazo.

Já na virada do ano, a Bloomberg afirmou que Shell e Cosan discutiam uma injeção de capital de R$ 10 bilhões. O BTG Pactual, que nos últimos anos ampliou sua participação acionária na Cosan, entraria como um potencial parceiro.

No último dia 9, a companhia comunicou a contratação de consultores financeiros e jurídicos para desenvolver alternativas de fortalecimento de liquidez e otimizar estrutura de capital. Foram chamados para assessoramento legal e financeiro os escritórios Pinheiro Neto, Cleary Gottlieb e Rothschild.

As atualizações dos balanços trimestrais e a contratação de advogados levaram a uma revisão das agências de classificação, que passaram a enxergar risco elevado na operação devido à alta alavancagem e geração de caixa fraco.

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