[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e pressão sobre os preços de combustíveis já repercutem no mercado financeiro. A ponto de alguns analistas já considerarem possível um cenário de manutenção da taxa básica de juros (Selic), na reunião do Copom que começa nesta terça (17) e termina quarta-feira (18), embora as apostas ainda sejam majoritárias pelo corte (que não acontece há dois anos). “O fluxo de dados e notícias desde a última reunião do Copom piorou o cenário para a inflação”, afirmou a XP Investimentos, que agora projeta manutenção da Selic em 15% a ano.
Além de os preços do petróleo subirem, a atividade doméstica se mantém aquecida. “As medidas de núcleo do IPCA subiram e as expectativas inflacionárias parecem se estabilizar acima da meta”, afirmaram, em relatório, o economista-chefe da corretora, Caio Megale, e os economistas Rodolfo Margato e Alexandre Maluf. Para ele, “o grau de incerteza em torno das estimativas do Copom está acima do usual”.
Além disso, o cenário previsto na mais recente ata do Copom, referente à reunião de janeiro, não se confirmou. A XP cita entre os “desvios” justamente o salto nos preços do petróleo: “Um relevante choque negativo de oferta sobre uma economia sem capacidade ociosa e com inflação acima da meta”. Assim, revisou sua projeção – de corte de meio ponto percentual para manutenção da taxa básica. “A nosso ver, há mudanças e incertezas suficientes no cenário para justificar uma abordagem mais cautelosa”, afirmou a corretora. Uma postura de “‘esperar para ver’, sem comprometer a credibilidade da autoridade monetária”. Assim, depois de março, a XP prevê quatro cortes seguidos de meio ponto, para 13%. Isso considerando “redução das tensões geopolíticas, com preços do petróleo voltando para níveis entre 70 e 80 dólares o barril”.
OFERTA – “Choque” é expressão também usada por Ulisses Ruiz de Gamboa, do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (IEGV-ACSP). Com o mercado dividido entre corte de 0,25 ou 0,50 ponto percentual, ele não desconsidera a possibilidade de manutenção da Selic. “Essa guerra no Oriente Médio termina provocando o que chama, em economia, de choque de oferta”, afirmou Ruiz de Gamboa. “O diesel já aumentou bastante. E diesel é transporte rodoviário, principal matriz de transporte no Brasil.” Ele ainda considera mais provável um corte menos intenso (0,25 p.p.)
“Para os modelos do Banco Central, [a guerra] é um choque negativo de oferta”, disse Ricardo Meirelles de Faria, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e economista-chefe da Linus Galena Consultoria Econômica. “Insumos importantes, como petróleo e fertilizantes, ficam mais escassos e caros, e vai bater no IPCA.” Ele projeta corte de 0,25 agora e Selic a 13% no final de 2026 – “um ponto a mais do que eu esperava antes da guerra”. Com Selic elevada e inflação contida nos últimos meses, os juros reais ficaram “elevadíssimos”, o que justificaria o início do ciclo de afrouxamento. “Mas não há dúvida que o ciclo encurtou pelo cenário mais difícil e incerto.”
No Focus (boletim do Banco Central) desta semana, a projeção para o IPCA deste ano subiu de 3,9% para 4,1%, lembrou o economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Os efeitos da guerra implicarão uma maior inflação mundial, com efeitos no Brasil”, disse Lacerda, citando, além do preço do petróleo, o encarecimento de custos de transporte e logística. Ao mesmo tempo, o Brasil tem atualmente taxa real de juros acima de 10%, “uma das maiores do mundo”. Ele considera mais provável uma redução de 0,25 ponto agora, “embora houvesse espaço para uma queda maior”, porque já havia “precificação” do mercado. Por outro lado, acrescentou, empresas e famílias estão endividadas – e boa parte inadimplentes. “Daí a importância de sinalização de queda da Selic ao longo do ano.”
RADAR – O CEO do Asset Bank, Gustavo Assis, observa que o cenário externo influencia diretamente o comportamento do câmbio, das expectativas de inflação e do fluxo de capital para países emergentes – e, portanto, entra no radar da reunião do Copom. “Se o ambiente externo continuar mais volátil, é natural que o Banco Central adote uma postura mais cautelosa”, afirmou. “A autoridade monetária tende a priorizar estabilidade e previsibilidade antes de qualquer movimento mais firme de flexibilização.” O que é esperado pelo mercado de crédito e investidores: “Isso mantém um ambiente em que a análise de risco e a alocação de capital seguem guiadas por fundamentos.”
Quando o ambiente externo se torna mais incerto, o espaço para movimentos mais rápidos de flexibilização monetária tende a diminuir, observou o CEO da Azumi Investimentos, Edgar Araújo. O que faz, segundo ele, aumentar o nível de cautela do BC. “Além disso, o próprio Focus mostra que as expectativas de inflação ainda seguem acima da meta em horizontes relevantes”. Ainda que haja um processo de desinflação em curso, o BC “precisa garantir que essa trajetória seja consistente e sustentável antes de iniciar um ciclo de cortes de juros”.
Quando há mais volatilidade global, como agora, qualquer movimento prematuro pode gerar “reprecificação de risco”, pressionando o câmbio e a inflação. “Por isso, não é improvável que o Copom opte por manter uma postura mais conservadora nas próximas reuniões”, disse Araújo. “Caso o cenário internacional permaneça instável ou surjam novos choques externos, o comitê pode, sim, reconsiderar o timing.” A prioridade do Banco Central “continua sendo preservar a credibilidade da política monetária e assegurar que as expectativas de inflação estejam firmemente ancoradas” antes de qualquer mudança mais significativa na taxa de juros.
Por sua vez, o CEO da B7 Business School, Fábio Louzada, também fala em possível postura “mais cautelosa” do Banco Central e em preservação da credibilidade da política monetária antes de uma flexibilização “mais clara” dos juros. “Isso não significa necessariamente uma mudança estrutural no cenário, mas pode indicar um ritmo mais gradual ou um possível adiamento.”
A Selic está em 15% ao ano desde junho de 2025. Foram sete altas seguidas na taxa até atingir o nível atual. Naquele mês, o IPCA somava 5,35% em 12 meses. Fechou o ano em 4,26%. Em fevereiro, dado mais recente, está acumulado em 3,81%.