[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O ritmo de migração de consumidores para o mercado livre de energia diminuiu em 2025, mas o setor já concentra 43% da carga – esse total era de 25% dez anos antes. E chegará a 70% ou 75% até 2035, calcula o CEO da Envoy Energy, Alexandre Viana. “As grandes indústrias todas já migraram”, disse. “Vão ficar no mercado regulado apenas os consumidores de baixa renda.” Agora, é a vez de varejistas e mesmo pessoas físicas. As atividades de serviços e comércio já se destacaram nos dois últimos anos, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). O perfil dos novos participantes do mercado livre, informa a entidade, “é composto, majoritariamente, por empresas de pequeno e médio porte”.
No ano passado, conforme os dados da CCEE, 21,7 mil novas unidades consumidoras aderiram ao mercado livre, levando o total a 84,5 mil. Houve queda de 19,1% em relação ao ano anterior (26,8 mil migrações), mas se a comparação for feita com 2023 (7,4 mil), o número cresce 193%. Naquele ano, 85% eram não varejistas. Agora, 81% são varejistas. Serviços e comércio respondem, em 2025, por 6,6 mil e 4,1 mil, respectivamente. Também houve queda na comparação com 2024 (7,1 mil adesões nos serviços e 6,4 mil no comércio) e alta considerável ante 2023 (1,9 mil e 2,4 mil). Também vem aumentando a participação de pessoas físicas: de nove em 2023 para 342 no ano seguinte e 370 em 2025. Os dados, segundo a CCEE, “reforçam a capilaridade do ambiente livre e sua consolidação entre empresas de diferentes portes e perfis de consumo”.
Viana atribui a menor quantidade de adesões no ano passado ao fim do desconto de 50% na chamada tarifa-fio (para distribuição e transmissão) – agora, fica entre 25% e 30%. “Com isso, a gente espera que o ritmo de migração vai ser um pouco mais lento”, afirmou o CEO. Mas o Brasil é um mercado relevante e com potencial de crescimento. Segundo Viana, de 200 mil consumidores que podem entrar para o mercado livre hoje, o público crescerá para 7 milhões a partir do final de 2027 e para 92 milhões em 2028. Em algumas regiões (Texas) ou países (Japão, parte da Austrália, Europa) o mercado já é 100% livre. “Podem surgir combos. A maior vantagem vai ser esse ecossistema de serviços.”

QUEM PAGA? – A opção pelo mercado livre continua atrativa, mas exige planejamento, estrutura e “gestão de inteligência”, observa a advogada e professora Solange David. “A grande questão hoje é resolver uma equação econômico-financeira”, afirmou. “No mercado regulado, quando você recebe sua conta, está tudo embutido. É tarifa. No mercado livre, é preço.” Ela observa que o consumidor pode encontrar diferentes preços e condições: “O risco não é passado para o sistema. É totalmente de quem contrata”. Ela dá o exemplo do Texas, nos Estados Unidos, onde o mercado é “puro-sangue”, aberto. Uma nevasca ocorrida em 2021 multiplicou o valor das contas. Enquanto o mercado regulado é mais previsível, no livre o usuário paga, além do preço da energia, a tarifa de uso do sistema e possíveis encargos. “Uma torre cai e você tem que colocar outra. Só que o sistema é interligado. Quem paga? Todo mundo.”
Essa abertura está prevista na Lei 15.269, do marco regulatório do setor elétrico, sancionada em novembro do ano passado, após aprovação de medida provisória no Congresso. A lei vai permitir que todos os consumidores escolham seu fornecedor – até 2027 para consumidores industriais e comerciais de baixa tensão e até 2028 para residenciais. Atualmente, o mercado livre reúne 85,4 mil unidades consumidoras. A CCEE prevê acréscimo de pelo menos 9,2 mil no primeiro semestre deste ano. A pedido da AGÊNCIA DC NEWS, a entidade elaborou dados que mostram o setor de supermercados respondendo por aproximadamente 38% das unidades consumidoras do comércio. Os dez maiores subsetores concentram mais de 70%: incluem mini, super e hipermercados, atacarejos e postos de combustível.
“O setor de varejo e atacado alimentício tem feito uma forte movimentação para migrar ao ACL [Ambiente de Contratação Livre]”, afirmou a CCEE. “Isso demonstra necessidade de controle de custos (incluindo energia elétrica) como parte fundamental do negócio”. A atividade de supermercados e similares “precisa de fornecimento constante 24 horas por dia, devido ao uso de câmaras frias e açougues”. No estado de São Paulo ficam 30% das unidades consumidoras de supermercados.
No Relatório de Sustentabilidade mais recente (publicado em 2025), o Grupo Pão de Açúcar (GPA) informou que atingiu em 2024 a meta de 100% do consumo de média tensão “proveniente de fontes renováveis, encerrando o ano com 224 lojas abastecidas pelo Mercado Livre”. Duas lojas – Pão de Açúcar em Sorocaba (SP) e Minuto Pão de Açúcar em Campinas (SP) têm usinas solares instaladas nas coberturas. Também em 2024, o GPA assinou contrato com a EDP Brasil para abastecer com energia solar 40 unidades do Minuto em São Paulo. Segundo a empresa, mesmo com diversas ações o consumo de energia cresceu 7,7% em relação ao ano anterior. Isso se explica “pela abertura e reinauguração de lojas com elevado nível de serviços e pelas altas temperaturas registradas”. O tema segue no radar da companhia, que fala em “continuidadas ações de identificação das lojas mais ofensoras” e “ampliação da busca por soluções de energia renovável para as lojas de baixa tensão”. Procurado por meio da assessoria para falar sobre a redução de custos obtida com a transição, o GPA não quis se manifestar.