Roberto Gracioso, VP da ABIH-SP: “Instabilidade econômica e custo do dinheiro mexem no planejamento dos hotéis em 2026”

Uma image de notas de 20 reais
Roberto Gracioso, vice-presidente da ABIH-SP, diz que momento é de cautela e atenção com o caixa
(Divulgação / Alterada com IA)
  • Segundo o executivo, comissões, impostos e crédito caro consomem até 45% da diária e mantêm margens pressionadas para investimentos em 2026
  • Números da associação hoteleira indicam que a diária média sobe 14,46% e RevPar 10,56% em 2025, mas ocupação de 58,2% ainda não alcança 2019
Por Nathalia Lino

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A hotelaria paulista encerrou 2025 com sinais consistentes de recuperação operacional, mas entra em 2026 sob pressão financeira. Segundo a 67ª edição da pesquisa de Desempenho da Hotelaria do Estado de São Paulo (ABIH-SP), a diária média acumulada avançou 14,46% no ano passado sobre 2024 e o RevPar cresceu 10,56%, superando em termos reais o patamar de 2019, embora a taxa média de ocupação tenha ficado em 58,2%, ainda abaixo do pico pré-pandemia. O avanço dos indicadores, porém, se deu em cima de margens comprimidas pela erosão de tarifas nos canais de distribuição e pelo custo elevado do crédito, em um cenário de maior cautela empresarial. “A instabilidade econômica causada pelos bancos liquidados e o custo do dinheiro mexem nos planejamentos das empresas para 2026”, afirmou Roberto Gracioso, vice-presidente da ABIH-SP, em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS.

A sensibilidade do setor ao crédito ajuda a explicar essa cautela. Com demanda sazonal, estoque perecível — quarto vazio é receita perdida — e capacidade limitada de expansão no curto prazo, hotéis dependem de fluxo previsível e, em muitos casos, de antecipação de recebíveis e financiamento para sustentar capital de giro e investimentos. Em um ambiente de juros elevados, o acesso a crédito se torna fator decisivo para a modernização das propriedades e para eventuais planos de ampliação em 2026. Para ele, esse cenário torna muito mais “custoso e arriscado” movimentos financeiros de expansão nesse momento. 

A dificuldade de compor caixa e precisar buscar capital de giro, segundo Gracioso, reflete a situação atual das margens do setor. Segundo dados da ABIH-SP, os custos de distribuição tornaram-se um dos principais fatores de compressão da rentabilidade hoteleira. Em operações realizadas por plataformas digitais, comissões de portais, canais de gestão, taxas de cartão e impostos podem absorver até 45% do valor final da diária. “De uma tarifa de R$ 100, R$ 55 é receita bruta do hotel”, afirmou o executivo. Ainda assim, em perspectiva, o setor se saiu bem em 2025. “Se podemos dizer que a hotelaria recuperou? A resposta é sim”, disse ele. Questionado se a alta bastou para voltar aos níveis pré-pandemia, o tom vira um pouco. “Ainda não, mas o cenário é de estabilidade com a seta apontando para ligeiro crescimento.” Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – A relação despesas/receita ficou em torno de 65% em 2025. Esse patamar já é considerado o “novo normal” da hotelaria paulista?
ROBERTO GRACIOSO – Uma rentabilidade de 35% é dentro de uma margem saudável para a maioria dos segmentos. Apesar de, como citado na pesquisa, este é um dado nominal e não necessariamente leva em consideração fatores como EBITDA e outras deduções, considera-se na pesquisa a margem equivalente de rentabilidade do setor com base na porcentagem das despesas em relação às receitas – informado pelo hotel. Acreditamos que o termo “novo normal” ficou para trás, e sim podemos chamar de nova realidade, por conta de haver novos desafios – tanto de mercado quanto de administração geral.

AGÊNCIA DC NEWS – Mesmo com leve melhora recente, a rentabilidade segue comprimida. Onde está o maior gargalo econômico do setor: custos, impostos ou demanda?
ROBERTO GRACIOSO – A hotelaria hoje enfrenta alguns desafios característicos do negócio. Apesar de o valor nominal das diárias médias sempre apontarem para crescimento, a chamada “erosão de tarifa” ou custos de distribuição são hoje o grande vilão da rentabilidade hoteleira, a saber; A percepção de preço final alto pelo consumidor na verdade são repasses dos custos das etapas do processo de distribuição, ex: Em casos de e-commerce (chega a 50% da demanda): o portal da oferta (de 10 a 15%), o Canal que gerencia a distribuição (5%), a taxa da operadora do cartão (até 5%), emissão da nota (em torno de 20%), ou seja, 45% do preço final sofre a erosão da distribuição. De uma tarifa de R$ 100, de venda, R$ 55 é receita bruta do hotel para cobrir seus custos operacionais, mão de obra, infraestrutura, outros impostos e ainda auferir o chamado “lucro achatado”.

AGÊNCIA DC NEWS – A dificuldade de contratação de mão de obra aparece de forma recorrente. Esse problema é conjuntural ou estrutural para a hotelaria?
ROBERTO GRACIOSO – Existe um marco histórico sobre este tema que é a pandemia. Até início de 2020, a mão-de-obra do setor se moldou de forma histórica. Muitos funcionários, ainda que o turn over fosse alto, possuíam boas qualificações e experiência e, normalmente, saído de um hotel, já era aproveitado em outro.
Com o advento da pandemia, esta mão-de-obra “evaporou”. Enquanto grande parte dos hotéis não conseguiram suportar suas folhas de pagamento e tiveram que demitir em massa, essa massa produtiva via a necessidade de se alocar em outras atividades. Por exemplo: Uma camareira acabou trabalhando como diarista, um garçon fez um curso de barbeiro e abriu uma Barber Shop, um recepcionista comprou ou alugou um carro e foi ser motorista de aplicativo, moto entrega, … enfim, o setor de serviços explodiu até por conta do novo comportamento de confinamento da sociedade no momento.

AGÊNCIA DC NEWS – A taxa média de ocupação acumulada em 2025 ficou em 58,2%. O que esses números dizem sobre a capacidade de recuperação da hotelaria paulista no pós-pandemia?
ROBERTO GRACIOSO – Observando o acumulado do ano, o número apurado ficou praticamente igual ao ano de 2024. Em 2019 (pré pandemia) o acumulado do ano foi de 63,56% e no pós pandemia, excetuando 2020 e 21 que os acumulados chegaram a cair 37 p.p., a taxa acumulada anual manteve-se na casa de 58% (variação de 1 p.p.). Se podemos dizer que a hotelaria recuperou? A resposta é sim… Atingiu os mesmos indicadores pré pandemia? Ainda não, mas o cenário é de estabilidade com a seta apontando para ligeiro crescimento.

AGÊNCIA DC NEWS – A diária média cresceu no comparativo anual, mas a ocupação caiu de forma relevante em dezembro. Esse movimento indica ganho de preço com perda de volume? Até que ponto isso é sustentável?
ROBERTO GRACIOSO – Novamente, observando o acumulado do ano, a diária média cresceu 14,46% em relação a 2024. Este é um número que indica uma ótima recuperação de preços dos serviços hoteleiros. O grande objetivo da hotelaria é um RevPar equilibrado, pois ainda que oscile negativamente um dos indicadores, com o outro se mantendo, o indicador resultado do produto de ambos é que demonstra o equilíbrio e a recuperação. Altas e baixas de ocupação e diária média podem ocorrer, mas o que dá clareza e aponta para recuperação e estabilidade é o RevPar. Neste momento, analisando os últimos cinco anos, podemos dizer que o setor apresenta uma certa sustentabilidade, apontando para crescimento, ainda que talvez menor do que o ideal.

AGÊNCIA DC NEWS – O RevPar acumulado do ano ficou praticamente estável em relação ao pico de novembro. O setor chegou a um teto operacional em 2025 ou ainda havia espaço para crescer?
ROBERTO GRACIOSO – Analisando o gráfico do RevPar anual, mesmo com os outros indicadores apresentando oscilações, houve recuperação de 10,56% em relação a 2024. Se usarmos como referência 2019, em que a taxa de ocupação foi a melhor da série histórica [41,35% na análise nominal], o dado real [deduzindo a inflação no período], ainda apresentou elevação de aproximadamente 1 p.p.. Ou seja, o RevPar atingiu e até superou o melhor índice de referência da pesquisa que é o ano de 2019.

AGÊNCIA DC NEWS – Então é possível dizer que o setor se acomodou, novamente, no patamar-referência?
ROBERTO GRACIOSO – O setor, apesar de ter sim atingido o indicador proporcional a ano-referência, ainda não chegou no teto. Até porque, o teto é o resultado do comportamento do mercado. Se por um lado a ocupação se molda conforme as demandas das regiões e a oferta e recursos de deslocamento, os preços, promoções, distribuição, praças etc, são regidos pela demanda.

AGÊNCIA DC NEWS – A ABIH-SP cita possíveis desafios com a demanda este ano. Qual o principal risco?
ROBERTO GRACIOSO – O comportamento histórico do mercado hoteleiro aponta para este cenário. Ano de grandes eventos como: Copa do Mundo e eleição sinalizam tendência de oscilação na constância da movimentação da hotelaria. Enquanto a temporada de lazer – dezembro/janeiro possui a tendência de ser mais aquecida, o corporativo concentra suas atividades, de certa forma “desviando das datas dos eventos” – por exemplo: neste ano de 2026 observa-se no calendário de eventos da capital programação de grandes feiras e eventos nos meses de março a maio e de agosto a novembro, arrefecendo nos meses de junho e julho, e nas datas das eleições de outubro/novembro.

AGÊNCIA DC NEWS – E isso se soma aos desafios macroeconômicos…
ROBERTO GRACIOSO – Sim. Alguns fatores preocupam o mercado como um todo. Os impactos da instabilidade econômica causados pelos bancos liquidados e seus desdobramentos, o custo do dinheiro e os grandes eventos certamente mexeram nos planejamentos das empresas para 2026. Porém, há um comportamento regular dos números na pesquisa que indicam que os meses precisam fechar e a busca por crescimento é incessante por parte das empresas. Desta forma, ainda há espaço para uma boa expectativa, até por conta da observação dos grupos de hotéis que informam seus indicadores diariamente, uma mera percepção que janeiro/26 já aponta para crescimento.

AGÊNCIA DC NEWS – Mas para aproveitar o crescimento, é preciso investir. Como estão os planos dos empresários?
ROBERTO GRACIOSO – O Brasil tem hoje uma das maiores taxas de juros real do mundo, e isso impacta diretamente na indústria hoteleira. Os hotéis possuem algumas características peculiares do negócio que exigem muito planejamento em cada passo. São elas: 1. Sazonalidade – bruscas altas e baixas ocupações; 2. Estoque perecível – apartamento não ocupado vira estoque perdido; 3. Limitação espacial – Uma vez lotado, esgota a capacidade de aproveitamento de demanda; dentre outras.

AGÊNCIA DC NEWS – E como os hoteis lidam com essa volatilidade tão grande?
ROBERTO GRACIOSO – Em geral, com antecipação de recebíveis, financiamento para investimentos e outras ações de crédito. O problema é que, neste momento, está muito mais custoso e arriscado promover esse tipo de movimento, por conta do custo do dinheiro.

AGÊNCIA DC NEWS – Quando se olha a série histórica desde 2020, 2025 foi um ano de normalização ou ainda de ajuste estrutural da hotelaria paulista?
ROBERTO GRACIOSO – O histórico mostra claramente a resiliência do mercado por conta de ter atravessado pelo menos dois anos de uma crise abrupta e sem precedentes recentes. O setor – fortemente afetado pela pandemia – demonstrou uma forte
capacidade de regeneração e recuperação. Certamente foi um dos
últimos a conseguir recuperar, mas a custa de muito trabalho e união, aos poucos conseguiu reerguer.

AGÊNCIA DC NEWS – E como isso se reflete no setor hoje?
ROBERTO GRACIOSO – Muitas empresas precisaram remodelar seus planos de expansão e ainda estão operando no “modo sobrevivência”. Agora, aos poucos, vão retomando seus planejamentos e recuperando este delay. Muitos ainda estão no processo de reajuste estrutural. Estes ajustes não necessariamente são físicos – podendo ser de processos, tecnológicos, reposicionamento, etc.

AGÊNCIA DC NEWS – A pesquisa aponta os cruzeiros marítimos como concorrentes diretos dos hotéis. Esse impacto já é mensurável ou ainda está subestimado?
ROBERTO GRACIOSO – Sim. Apesar de não termos dados consolidados para efeito comparativo, A ABIH ouve muito os comentários gerais dos associados. Estes são devolutivas na própria pesquisa. Observe que citamos “um comentário que deve ficar no radar da ABIH-SP….”. Na verdade, o turismo marítimo sempre existiu e, de certa forma, sempre foi um concorrente dos hotéis. É também um setor que tem seus desafios e, apenas com uma percepção inicial, devem ser muito grandes, pois um navio equivale a vários e vários hotéis juntos. Como houve este comentário, é um indicador para que, dentro no nosso núcleo de pesquisa, buscarmos dados comparativos para avaliação dos impactos. O setor possui outros pontos de análise de concorrência, mas o mercado é assim, as lacunas aparecem a todo momento e a inventividade e senso de oportunidade é que moldam a economia como um todo – e isso na grande maioria dos setores.

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