Sem trégua na guerra no Irã, grandes bancos revisam projeções para petróleo

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A guerra no Irã entrou em sua segunda semana, e as incertezas sobre a duração do conflito têm cobrado um preço cada vez mais alto nos mercados globais de energia.

Nas negociações desta segunda-feira (9), ainda noite de domingo no Brasil, o barril do petróleo Brent saltou de US$ 92 do fechamento de sexta-feira para quase US$ 120, na maior valorização diária desde que as negociações de contratos futuros da commodity começaram, em 1988.

Ainda que a cotação do barril de referência tenha arrefecido, rodando abaixo de US$ 100 durante boa parte do dia, e abaixo de US$ 90 após declarações de Donald Trump, o movimento provocou revisões sobre o preço do petróleo para os próximos meses.

Se até a semana passada as previsões rondavam US$ 80 a US$ 90, a escalada do conflito catapultou estimativas para patamares semelhantes aos de grandes choques no mercado de petróleo.

O Barclays e o JPMorgan Chase, por exemplo, afirmaram que o barril pode testar a casa de US$ 120 se o conflito persistir por mais algumas semanas. Para efeito de comparação, o Brent chegou à máxima de US$ 128 logo no início da guerra da Ucrânia, em março de 2022, o maior valor desde a crise financeira de 2008 (US$ 144 no pico).

“Esses números podem parecer muito altos, especialmente considerando o pessimismo generalizado em relação às perspectivas do mercado de petróleo para este ano, mas reiteramos que os fundamentos são mais sólidos e os riscos são maiores do que no conflito entre Rússia e Ucrânia, quando vimos esses níveis se materializarem”, afirma o Barclays.

No cenário mais pessimista, o Barclays vê o Brent em torno de US$ 150 por barril antes do final do mês. Esse patamar também foi aventado por Saad al-Kaabi, ministro de Energia do Catar, no fim de semana.

“Se esta guerra continuar por algumas semanas, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em todo o mundo será impactado. O preço da energia de todos vai subir. Haverá escassez de alguns produtos e haverá uma reação em cadeia de fábricas que não conseguem fornecer”, afirmou ele em entrevista ao Financial Times.

A visão do Goldman Sachs é semelhante. O banco ainda mantém o cenário base de US$ 80 o barril até o fim de março e de US$ 70 no segundo trimestre, mas admite que revisará projeções caso não veja evidências de normalização do tráfego do estreito de Hormuz, por onde passam 20% de todo o petróleo e gás do mundo.

O mercado, porém, enfrenta sessões tão voláteis que impedem que operadores e analistas tenham visibilidade clara sobre a tendência da commodity. Nesta segunda, por exemplo, o preço do barril derreteu para US$ 85 depois que o presidente Donald Trump afirmou que a guerra contra o Irã está “praticamente concluída”.

A volatilidade, segundo Adriana Ricci, chefe de operações da SHS Investimentos, acontece porque “o mercado de petróleo reage antes de a escassez acontecer”.

A reação, explica ela, deriva de uma combinação de fatores geopolíticos. Além das investidas bélicas dos Estados Unidos e de Israel, há riscos sobre a logística energética no estreito de Hormuz e incertezas sobre a política interna do Irã após a escolha de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, como novo aiatolá do regime.

“Em momentos assim, é fato que o petróleo costuma incorporar um prêmio de risco sobre o futuro. Parte dessa alta reflete fundamentos [como riscos militares e prêmios de seguradoras na região do estreito], mas parte vem de uma dinâmica especulativa na qual operadores e fundos costumam antecipar movimentos de escassez.”

O cenário pode mudar caso algumas das maiores economias do mundo liberem estoques emergenciais de petróleo –mas não drasticamente. O BTG Pactual, em relatório, afirmou que acompanhará a reunião entre ministros de Energia do G7, nesta terça-feira (10), que discutirá a liberação de reservas.

“Caso o G7 avance com uma liberação de 300 a 400 milhões de barris, a medida teria como objetivo ganhar tempo”, diz a nota. O banco, porém, prevê que as cotações irão permanecer em trajetória de alta, citando ataques a refinarias e paralisações de produções como fatores de pressão adicionais ao fechamento do estreito.

Tadeu Arantes, chefe de alocação da Ghia Multi Family Office, compartilha da visão de que os estoques emergenciais do G7 poderão ser um alívio temporário para um problema maior.

Esse problema, diz ele, segue sendo o tempo em que o estreito de Hormuz ficará fechado. Até que se tenha clareza sobre a duração do fechamento, os especialistas preveem ainda mais volatilidade nos mercados.

“Como alocadores, sempre reforçamos que é muito difícil prever cenários quando tem uma guerra no meio. Temos que olhar para trás e entender como os ativos se comportaram em conflitos semelhantes”, diz Arantes.

“Historicamente, temos esse estresse inicial de aversão a risco, com petróleo, dólar e ouro em alta e bolsas em baixa. Mas, na janela de seis a 12 meses depois do início do conflito, temos uma recuperação quase total dessas perdas.”

Ele pontua, também, que os fundamentos sobre a commodity ainda apontam para um excesso de oferta –não à toa, o barril estava abaixo da média histórica até o início da guerra, em torno de US$ 60–, mas o fechamento do estreito se sobrepõe aos fundamentos neste momento.

Por isso, diz ele, a chave para todas as respostas passa pela pergunta: “Por quanto tempo o estreito vai ficar fechado?”.

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