[SÉRIE Vozes da Economia] Sartori, da Austin Rating: "Brasil é o país mais beneficiado pelo acordo Mercosul-UE"

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Sartori: "Vejo o país bem posicionado no comércio exterior, e 2025 deixou isso claro"
(Divulgação)
  • Tratado cria mercado de US$ 22 trilhões e pressiona exportadores a modernizar padrões ambientais e sanitários praticados no Brasil
  • Sobre o temor relativo à perda de competitividade da indústria local, ele diz ser mito: "Nem o Brasil nem a UE são os mesmos de 1990"
Por Bruno Cirillo

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) reativou em parte da indústria brasileira o temor de nova abertura comercial abrupta, como a dos anos 1990. Para o economista Rodolpho Sartori, da Austin Rating, o paralelo ignora que o mundo – e o próprio Brasil – mudou. Segundo ele, a indústria europeia perdeu centralidade global e o país já passou por um processo gradual de integração comercial nas últimas décadas, o que reduz o risco de um choque traumático. “O Brasil é mais aberto hoje, e a União Europeia não tem mais a indústrial de antes”, afirmou. Na avaliação do economista, o tratado tende a beneficiar sobretudo o agronegócio e a posicionar o Brasil como principal vencedor dentro do bloco.

O tratado integra um mercado de cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado de aproximadamente US$ 22 trilhões, formando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, segundo estimativas. Na avaliação de Sartori, cuja entrevista integra a série Vozes da Economia, os ganhos imediatos tendem a se concentrar no agronegócio brasileiro, responsável por 38,8% das exportações do país. Ao mesmo tempo, os exportadores terão de se adaptar a padrões sanitários e ambientais mais rigorosos exigidos pela UE – um desafio que, segundo o economista, funciona como estímulo à modernização produtiva. “É algo desafiador, mas ao mesmo tempo uma oportunidade de inovação.”

O acordo, negociado desde 1999 e aprovado em uma primeira versão em 2019, foi relançado neste ano com atualizações que incluem padrões regulatórios, rastreabilidade de produtos e exigências de bem-estar animal. A União Europeia é hoje o segundo maior parceiro comercial do Brasil, responsável por embarques estimados em cerca de US$ 100 bilhões por ano, enquanto as importações de produtos europeus somaram US$ 50,3 bilhões em 2025, com destaque para máquinas industriais, farmacêuticos e automóveis. A implementação definitiva do acordo, porém, deve atrasar: duas semanas após a aprovação política, o Parlamento Europeu enviou o texto à Corte de Justiça da União Europeia para revisão jurídica. Em nota, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) afirmou que a medida “adia benefícios econômicos concretos e limita a resposta conjunta às incertezas geopolíticas”. Apesar disso, não há perspectiva de cancelamento do acordo.


AGÊNCIA DC NEWS – O acordo entre o Mercosul e a União Europeia ainda faz sentido para o Brasil?
RODOLPHO SARTORI – O acordo faz muito sentido e é positivo. Você consegue integrar praticamente 720 milhões de pessoas e um PIB acumulado entre Mercosul e União Europeia por volta de US$ 22 trilhões. Não é algo irrelevante. De saída, faz sentido.

AGÊNCIA DC NEWS – E quais setores realmente ganham?
RODOLPHO SARTORI – Ganham setores ligados ao agronegócio e à agroindústria, dos menos aos mais sofisticados. Mas o principal vencedor de todo esse processo é o agronegócio.

AGÊNCIA DC NEWS – As exigências ambientais são barreiras ou estímulo à modernização?
RODOLPHO SARTORI – São os dois. Barreiras sanitárias e ambientais foram uma inovação nesse acordo. Geralmente, tratados não consideram tanto essas questões. Desta vez vieram à tona de forma clara e são desafiadoras. A UE tem um quadro de restrições forte e bem desenhado para garantir qualidade e segurança.

AGÊNCIA DC NEWS – Isso pode ser um problema ao Brasil?
RODOLPHO SARTORI – É algo robusto, mas também uma oportunidade de inovação. É trabalhoso, sim, mas um passo importante em setores onde o Brasil já é dominante. Isso não vai tornar o agro menos competitivo. Pelo contrário, é um estímulo.

AGÊNCIA DC NEWS – O empresário está preparado para competir em vários setores ou apenas exportar commodities?
RODOLPHO SARTORI – Esse é um ponto em que economistas discordam. Para ilustrar, baseio-me em dois estudos: um da FGV, recente, sobre impactos regionais, e outro do Ipea, de 2023, com visão macro dos potenciais do acordo. Alguns setores vão sofrer mais. A indústria tende a ser um pouco mais afetada. Se será o mesmo baque dos anos 1990, imagino que não.

AGÊNCIA DC NEWS – Por que não?
RODOLPHO SARTORI – O Brasil já é mais aberto e a UE não tem mais a mesma força industrial. Parte da indústria brasileira já sofreu no passado e hoje enfrenta concorrência chinesa. Ainda assim, há visões pessimistas que deixam isso de lado. O impacto das importações europeias tende a ocorrer em alguns setores, mas talvez não seja tão forte quanto se imagina.

AGÊNCIA DC NEWS – Num cenário de aumento da demanda, quanto indústria e agro precisarão investir?
RODOLPHO SARTORI – Ainda é difícil estimar valores porque o acordo é gradual. As empresas terão tempo para se ajustar. O pico das quedas tarifárias ocorrerá após dez anos. Não é como se no próximo ano fosse necessário investir muito para atender nova demanda. Será um processo gradual. Do lado europeu, a abertura tende a ser mais rápida porque o agro é menos sensível que a indústria. Vai haver mais investimento, mas não tão intenso no começo. A redução de tarifas e cotas ocorrerá de forma progressiva.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais países e setores se beneficiarão primeiro?
RODOLPHO SARTORI – O país que tende a ser mais beneficiado é o Brasil. O processo será longo, por volta de dez anos, com queda gradual de tarifas. Nos produtos europeus vendidos ao Brasil, a redução chega a cerca de 95%. No Mercosul, varia entre 91% e 92%. O prazo total pode chegar a 16 anos.

AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil está preparado para um choque externo?
RODOLPHO SARTORI – O Brasil está bem posicionado no comércio exterior. Nesse acordo, pode ser o principal beneficiado. É também uma resposta a tempos incertos. Mesmo sem acordo, o país já tinha presença relevante no mercado externo. Apesar de exportar produtos menos complexos, há grande diversidade de itens da agroindústria. Com nosso maior parceiro comercial, a China, a relação é sólida há anos. Com os Estados Unidos, exportamos produtos amplamente consumidos. O ano de 2025 mostrou que estamos bem posicionados [recorde nas transações internacionais, apesar de o Brasil representar mais de 2% do PIB global e cerca de 1,8% das transações comerciais internacionais].

AGÊNCIA DC NEWS – Quais são os principais riscos?
RODOLPHO SARTORI – O cenário internacional recente é incerto. Ainda há risco de novas tarifas, conflitos ou tensões entre países que podem afetar o Brasil indiretamente. Mesmo assim, vejo o país bem posicionado no comércio exterior, e 2025 deixou isso claro.

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