SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Se Donald Trump sugere uma direção a cada dia para sua guerra contra o Irã, o mesmo não pode ser dito de Pete Hegseth. O secretário de Defesa dos Estados Unidos fez do conflito a culminação de uma cruzada pessoal, encarnando fantasias da extrema direita americana.
No caso, o termo cruzada não é casual. A própria pele do marombado Hegseth, um major da reserva da Guarda Nacional de carreira inexpressiva tornado o favorito de Trump na Fox News, serve de mapa ideológico para o conflito.
Ele começa por uma vistosa cruz de Jerusalém tatuada no peitoral do secretário. Símbolo do reino estabelecido pela Primeira Cruzada (1096-1099), ela remonta à época em que cristãos saíram da Europa por ordem da Igreja Católica para conquistar territórios dos muçulmanos no Oriente Médio atual.
Logo ao lado, o bíceps direito traz mais dois símbolos de seu pensamento: o latim castiço “Deus vult” e “Kafir”, escrito em árabe.
A primeira frase, “Deus quer”, é um grito de guerra das cruzadas que foi romanceado no século 19 por autores sedentos de sentido para a formação de Estados-nações na Europa.
O brado foi adotado por grupos radicais de direita mundo afora no Brasil, ganhou fama com a dita ala ideológica do governo de Jair Bolsonaro (PL), com o então chanceler Ernesto Araújo e o ex-assessor e hoje presidiário Filipe Martins à frente.
Já “Kafir” é infiel, forma derrogatória de chamar não muçulmanos em países islâmicos. A provocação pueril é clara. Há ainda outros símbolos cristãos e associados ao nativismo americano na pele do secretário.
A cruz de Jerusalém já lhe garantiu o rótulo de extremista quando se voluntariou para a segurança da posse do rival Joe Biden na Presidência, em 2021. Acabou vetado.
Um ano antes, Hegseth havia lançado o livro “Cruzada Americana”, no qual sugeria que toda a civilização ocidental devia sua existência aos guerreiros de mil anos atrás. No cargo, passou a pregar uma volta a valores belicistas e viu Trump renomear seu departamento como sendo de Guerra, ainda que o Congresso não tenha aprovado a alteração formal.
O ataque conjunto com Israel ao Irã completou a ascensão de Hegseth. “Nós vamos te caçar sem pedir perdão, sem hesitar e vamos te matar”, afirmou em entrevista na semana passada, na qual celebrou a “morte e destruição que vêm do céu”.
“A paz pela força, o ‘éthos’ do guerreiro, a unidade de propósitos não são slogans”, disse, recuperando pontos que vinha tentando impor às Forças Armadas e que o tornaram motivo de piada entre militares mais experientes.
O tom radical mesmo para o usualmente chauvinista meio fardado causou protestos, mas não deveria provocar surpresa. A obsessão do secretário com o supremacismo branco cristão e o ideário de reconquista da Terra Santa são notórios.
Eles vão além, namorando o milenarismo esposado pela direita religiosa. Em 2018, em um discurso no hotel King David de Jerusalém, ele afirmou que estava na hora de acreditar no “milagre da construção do terceiro templo”.
A imagem está no centro da relação privilegiada que Israel tem com os fundamentalistas cristãos mundo afora, como a profusão de bandeiras do Estado judeu em eventos bolsonaristas prova.
Segundo a interpretação particular desses grupos da Bíblia, Jesus Cristo só voltará à terra para o Apocalipse após a volta dos judeus à Terra Santa e com a construção do terceiro templo de Jerusalém os dois templos anteriores foram destruídos por babilônios e romanos, respectivamente, e a parede remanescente do segundo é o atual Muro das Lamentações.
Para esses fundamentalistas, o terceiro templo será primeiro ocupado pelo Anticristo, um governante cruel que imporá sua vontade às nações antes do retorno de Jesus. Violência e pulsão de morte permeiam essa visão de mundo, e Hegseth integra o culto às armas típico do segmento.
O clima é permissivo a tais teorias. Segundo relato feito no dia 3 passado pela ONG americana Liberdade Religiosa Militar, que trata do tema, só naquele quatro dia da guerra houve 200 chamadas de soldados se queixando de que comandantes diziam que o conflito era parte “do plano de Deus” para “acelerar a volta de Cristo” e o Armagedom.
Sucessivos governos em Israel dão corda a essas leituras, cientes que isso lhes garante um lobby eficaz em Washington o fato de que na narrativa os judeus serão forçados a se converter a Cristo ao fim fica para depois.
O DNA religioso de Hegseth também é visível na relação que ele tem com o pastor Doug Wilson, da Comunhão das Igrejas Evangélicas Reformadas, igreja que o secretário frequenta. Wilson, que já pregou no Pentágono, é defensor de um Estado teocrático em que mulheres teriam menos direitos até do que as iranianas ora sob bombas.
Tudo isso compõe um quadro coerente com as polêmicas em torno de Hegseth, que se destaca em um governo que desmantelou o controle das armas nucleares que podem tornar reais fantasias apocalípticas.
Na sua audiência de confirmação no cargo no Senado, foi confrontado com um rosário de acusações de agressões sexuais, abusos contra mulheres, preconceito contra muçulmanos e má conduta militar.
Só foi aprovado pelo Senado com o voto de minerva do vice de Trump, J. D. Vance, que preside a Casa e é expoente da ala mais amalucada do conservadorismo americano, aderente de visões milenaristas.