WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Quando chegou à mansão de Jeffrey Epstein, em Manhattan, no estado de Nova York, Marina Lacerda tinha 14 anos, já havia sido vítima de abusos sexuais do padrasto e vivia uma situação financeira apertada com a mãe e a irmã.
Chegou ao casarão, segundo ela, como dezenas de outras adolescentes: por meio de uma amiga que lhe disse que poderia ganhar dinheiro fácil apenas fazendo massagens para o então financista, que mais tarde seria condenado por exploração sexual de menores.
Na casa, lembra de ter entrado em uma sala com fotos de autoridades. À época, ainda adolescente, diz que desconhecia boa parte dos nomes. Recorda-se, porém, de retratos de Epstein ao lado do atual presidente dos EUA, Donald Trump, e do ex-presidente Bill Clinton. Logo no início, a interação foi cordial com o financista, mas isso durou poucos minutos, e ela logo se viu em uma situação de vulnerabilidade e exploração.
Hoje, aos 37 anos, Marina se engaja em defesa das vítimas de Epstein e pede que cúmplices sejam responsabilizados. Durante entrevista à Folha, usava uma camiseta que criticava os arquivos censurados pelo Departamento de Justiça dos EUA. “A verdade é que… as vítimas de Epstein ainda estão no aguardo”, era a frase estampada, interrompida por borrões.
Vinte anos depois dos abusos, Marina é mãe de uma menina de 12 anos e afirma que a experiência de violência molda a forma como cria a filha, com vigilância constante, perguntas frequentes e conversas diretas sobre limites e exposição.
Para a filha dormir fora, confia em poucas amigas; acompanha as idas ao shopping e sempre verifica se a menina recebeu presentes de terceiros. “Sou dura com a minha filha mesmo, sou chata. Não é que eu penso que vai acontecer com ela [o que aconteceu comigo]. Ela tem uma vida de adolescente normal. Não vou colocar minha filha no lugar que fui colocada. O mundo é muito perigoso.”
Marina, que vive há três décadas nos Estados Unidos, observa que muitos pais de jovens que migram sozinhos preferem não questionar a origem do dinheiro que recebem. “Os pais não questionam. Sabe por quê? Porque já sabem”, critica, referindo-se a famílias que acabam deixando adolescentes vulneráveis à exploração.
No seu caso, lembra que, quando chegou à mansão de Epstein, já havia sido exposta a diferentes abusos e não imaginava o que estava por vir. “Já tinha sido apresentada ao sexo, ao mundo de começar a fazer dinheiro, uma responsabilidade que foi minha, sem eu querer”, disse.
Os abusos seguiram por anos até que ela completou 17 anos e acredita que não despertava mais desejo em Epstein, que sempre pedia por adolescentes mais novas. Hoje, ela luta para que o caso seja esclarecido e as vítimas tenham um desfecho.
Marina se queixa de que, até hoje, milhares de documentos relacionados a casos de abuso sexual envolvendo Jeffrey Epstein ainda não foram tornados públicos. “Temos que nos concentrar nos 3 milhões que já temos agora. Entre eles, há perpetradores que ainda não foram responsabilizados, que não foram levados à Justiça”, afirma.
Marina reforça a urgência de apuração: alguns nomes poderosos aparecem repetidamente nos arquivos, incluindo o do presidente Donald Trump. “Esperamos 20 anos por justiça, enquanto sobreviventes com 56 anos aguardam respostas de crimes cometidos quando tinham 18. São três décadas de impunidade”, diz. “Vamos esperar quanto tempo mais? Mais 20 anos, como esperaram as sobreviventes?”
Ela cita que a secretária de Justiça, Pam Bondi, afirmou em audiência nesta semana que as investigações já começaram, mas sem detalhar quem está sendo investigado, onde ou quando. “Precisamos saber disso. Outros países estão responsabilizando monarquias, e nós não estamos fazendo nada nos Estados Unidos”, critica.