Trump avança no culto à própria personalidade com rosto estampado em prédios públicos

Uma image de notas de 20 reais

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Caminhar por Washington é ser constantemente relembrado que Donald Trump é presidente. Em toda a capital americana, há agora banners estendidos em frente a prédios públicos e nomes alterados pelo republicano para homenagear a si mesmo.

No Kennedy Center, por exemplo, que foi rebatizado para Trump-Kennedy Center, um homem andava de bicicleta em meio ao inverno em janeiro enquanto gritava: “Dane-se o Trump. Danem-se os republicanos”. Na frente do prédio, um grupo de artistas fez uma performance contra a truculência do ICE, polícia de imigração dos Estados Unidos, nos últimos dias.

Além do centro cultural, um dos mais famosos dos EUA, o nome do presidente foi incluído no Instituto da Paz —e Trump disse durante evento que essa foi uma surpresa do secretário de Estado, Marco Rubio— e banners com seu rosto foram instalados em três departamentos, o mais recente no Departamento de Justiça, que historicamente mantinha certa independência do chefe do Executivo.

A prática tem sido comparada ao culto à personalidade, usado em regimes ditatoriais como a Coreia do Norte, para reforçar a autoridade do líder e moldar a percepção do público.

“Ditadores querem controlar a mídia e a forma como sua imagem é apresentada”, diz Thomas Whalen, professor de história moderna da Universidade de Boston. “Trump tem feito isso não só com banners, mas também tentando pressionar [as emissoras de TV] via FCC [Comissão Federal de Comunicações] e processos judiciais, ameaçando licenças de transmissão. É tudo parte de uma estratégia geral.”

No novo banner, instalado nesta semana na pasta da Justiça, o rosto do republicano é acompanhado pela frase “Make America Safe Again” (Faça a América Segura Novamente). O caso chamou a atenção da imprensa americana pela crescente falta de imparcialidade da agência.

Além disso, em meio às críticas que o governo Trump recebe pela falta de transparência na condução da liberação dos arquivos ligados a Jeffrey Epstein, acusado de manter ampla rede de tráfico sexual, a secretária de Justiça Pam Bondi tem demonstrado pouca distância em relação ao chefe do Executivo. Em audiência recente no Congresso, não poupou elogios a Trump e chegou a afirmar que ele é o melhor presidente da história dos EUA.

É o mesmo Departamento de Justiça que, em fevereiro deste ano, processou a Universidade Harvard por recusar-se a entregar dados de admissão ao governo federal. A ação integra uma ofensiva mais ampla da administração Trump contra universidades de elite, conduzida sob o pretexto de combater o antissemitismo nos campus — especialmente após as manifestações pró-Palestina que eclodiram pelo país depois dos ataques do Hamas contra Israel em outubro de 2023.

Harvard, que já havia se comprometido a implementar medidas de proteção a estudantes judeus, sustenta que as ações do governo são, na verdade, uma retaliação inconstitucional à sua recusa de submeter-se ao controle ideológico da Casa Branca.

Para Thomas Whalen, ter o rosto ou o nome em algum edifício é uma honra concedida a um presidente depois que ele deixa o cargo, ou, no caso do presidente Kennedy, depois da morte —o democrata foi assassinado antes do término do mandato.

“Fazer isso enquanto ainda se está na Casa Branca é bastante audacioso, nunca foi tentado antes. Lembra ditadores que colocam suas imagens por toda parte, ou cultos à personalidade praticados por Stálin e Mao [Tse-Tung]”, diz ele, que lembra que Mao ainda tem seu rosto estampado na China. “Talvez esse seja o modo de Trump tentar garantir a eternidade; ele acha que, como Mao, poderá ‘viver para sempre’ na memória das pessoas. Ou que ele se tornará o Mao americano, estampado em camisetas de todos.”

Não à toa, as imagens de Trump em dois outros prédios estão pareadas com presidentes reconhecidos por mudanças políticas e reformas significativas. No Departamento de Agricultura, o rosto do presidente aparece em um grande banner ao lado de uma faixa em homenagem a Abraham Lincoln. O primeiro presidente republicano venceu a Guerra Civil que acabou com a escravidão nos EUA e foi responsável pela criação do departamento, que chamou de “departamento do povo” em 1862.

Trump já se comparou diversas vezes a Lincoln e mencionou que sua primeira gestão impactou positivamente a população negra e, em campanha, disse ter sido o melhor presidente para essa minoria desde o homem que aboliu a escravatura.

Já no Departamento do Trabalho, Trump aparece ao lado de Franklin Roosevelt, lembrado pelo New Deal e por políticas que priorizavam o cidadão comum após a Grande Depressão.

“É bizarro”, diz o escritor e historiador Kurt Andersen ao analisar a tendência de Trump se proliferando por Washington. Assim como Whalen, ele concorda que a prática foge das normas da política americana. Autor do livro “The Breakup”, um romance ambientado nos Estados Unidos de 2020, ele também cita que a atitude pode fazer parte de uma estratégia deliberada de gestão de atenção.

“O que acontece é que líderes seguem normas, não leis. E ele descobriu isso: percebeu que, se algo não é contra a lei, então ele pode fazer. Não importa o quanto a maioria das pessoas odeie. Ele pensa: ‘Vou desafiar isso. Talvez os tribunais me parem eventualmente, mas, enquanto isso, eu posso fazer’.”

Whalen, da Universidade de Boston, lamenta a tendência autoritária de Trump. “Lutamos para acabar com o culto à personalidade neste país. Esse era o objetivo da Revolução Americana”, diz ele. “Somos um país de leis, não de homens. Trump está revertendo isso, tornando todos os americanos súditos, não cidadãos.”

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