SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, isolado com Israel em sua guerra contra o Irã, ampliou a crise com aliados ao dizer nesta terça-feira (17) que não precisa e não deseja mais da ajuda da Otan ou de países como Japão e Austrália para criar uma força-tarefa no estreito de Hormuz, dominado pela teocracia.
“Devido ao fato de que nós tivemos tal sucesso militar, nós não mais ‘precisamos’, ou desejamos, assistência de países da Otan NÓS NUNCA QUISEMOS”, disse Trump em sua rede Truth (verdade, em inglês), em uma dupla mentira: a guerra contra a teocracia não acabou e ele havia pedido ajuda na mesma plataforma a aliados.
Na postagem, queixou-se também de Austrália, Japão e Coreia do Sul, que ou rejeitaram ou não se pronunciaram sobre o pedido.
“Eu não estou surpreso com a ação deles, contudo, porque eu sempre considerei a Otan, onde nós gastamos centenas de bilhões de dólares por anos protegendo esses mesmos países, como uma via de mão única. Nós os protegemos, mas eles não fazem nada por nós, em particular num momento de necessidade”, afirmou.
Mais tarde, na Casa Branca, ele elogiou o apoio das petromonarquias do golfo, que estão de todo modo sob fogo direto da retaliação iraniana por terem bases americanas em seu solo. Trump afirmou que a Otan “está cometendo um erro muito tolo” e voltou a dizer que ainda não está pronto para encerrar a guerra, mas que os EUA “vão deixar o conflito no futuro muito próximo”.
Desde o fim de semana, com o agravamento da crise econômica decorrente da guerra, Trump tentava terceirizar a ação no local. Primeiro, sugeriu que aliados europeus e asiáticos, além da China, deveriam enviar navios de guerra para a região.
Depois, ameaçou o futuro da aliança militar Otan pela falta do que chamou de “entusiasmo” dos europeus. A resposta na segunda foi fria. Diversos países, como Reino Unido, França e Alemanha, disseram não. A China nem se manifestou, e recebeu com frieza o pedido do americano para adiar um encontro previsto com Xi Jinping.
Ante o mal-estar, Trump protestou, dizendo por exemplo que estava “muito surpreso” com a posição britânica. “Esta guerra não é da Europa”, resumiu a chefe da diplomacia da União Europeia, a estoniana Kaja Kallas.
Com isso, o americano reabre a rusga com a aliança ocidental criada pelos EUA em 1949 para fazer frente aos soviéticos na Europa, hoje com 32 membros, 30 deles continentais.
No ano passado, ao voltar à Casa Branca, o republicano já havia repassado a conta da ajuda ocidental a Kiev contra os russos para os europeus, e forçou a aliança a aumentar de 2% para 5% do PIB a meta de gasto militar em dez anos.
Agora, depois da Guerra da Ucrânia, o conflito no Irã vira fonte de desavença. Líderes europeus, como o francês Emmanuel Macron, criticaram o lançamento da guerra sem consulta aos aliados, que agora Trump tenta desprezar. “Felizmente, eu dizimei as forças iranianas”, escreveu o americano.
Os números do americano são relativos. Os EUA não “colocam centenas de bilhões de dólares” anualmente na Otan, e sim cerca de US$ 600 milhões, o semelhante à fatia da Alemanha. O que é enorme é o orçamento de defesa americano, que equivale a cerca de 70% do total da aliança, mas ele não é dedicado só à defesa da Europa.
Nesta terça, Kallas voltou a falar sobre o assunto em uma entrevista à agência Reuters, e levantou a hipótese de ser feito um acordo em Hormuz semelhante ao costurado pela Turquia entre Rússia e Ucrânia no mar Negro, que permitiu por um tempo a exportação de grãos e fertilizantes dos dois países pela região.
MAIS UM NAVIO É ATINGIDO
Enquanto se complica com os aliados nominais, mais um navio que opera na região foi atingido por um projetil na região nesta terça. A embarcação para transporte de gás natural liquefeito pertence à estatal de petroleiros do Kuwait e estava a 42 km do porto emirati de Fujairah, que fica logo após a saída do estreito para o golfo de Omã.
Segundo a UKMTO, órgão de operações marítimas do Reino Unido, houve danos mínimos. Não se sabe se o navio Gas al-Ahmadiah foi alvejado ou atingido por destroços de um drone interceptado, sendo esta última a hipótese considerada mais provável por agências de notícias.
O incidente é o primeiro do tipo em cinco dias, após uma onda em que o Irã alvejou cerca de 15 embarcações tanto no golfo Pérsico como do lado externo do estreito por onde passam 20% do gás liquefeito e do petróleo do mundo.
Do outro lado do estreito, em Sarjah (Emirados), um navio ancorado relatou ter visto explosões próximas, segundo a empresa de segurança marítima britânica Ambrey.
A crise fez o preço das commodities disparar, com o petróleo atingindo a casa dos US$ 105 (R$ 546) o barril referencial Brent nesta segunda (16).
Desde o começo da guerra, o Irã já declarou Hormuz fechado, e agora negocia passagens individuais de navios de países não envolvidos no conflito. O primeiro a fazer a travessia foi um petroleiro paquistanês, do domingo (15) para a segunda.
Ao mesmo tempo, segue atacando a infraestrutura petrolífera da região. O terminal de Fujairah, que é ligado aos campos de produção de Abu Dhabi por um oleoduto que permite evitar o trânsito em Hormuz, está fechado devido a ataques com drones iranianos.
Trump, por sua vez, demonstra novamente a falta de planos claros para o conflito que começou com Israel no dia 28 de fevereiro contra o regime de Teerã. Inicialmente, ele havia dito que iria garantir escolta para petroleiros, mas sua Marinha o alertou que isso demoraria muito tempo e seria arriscado.
O Irã militarizou todo o estreito a partir de sua margem norte, que controla. Os EUA então passaram a atacar navios que colocam minas marítimas, tendo destruído segundo Trump 30 dessas embarcações. Mas a rota feita pelos navios autorizados por Teerã sugere que há armas posicionadas em parte do trajeto.
Depois, recorreu aos aliados e, sem resposta, agora diz que já está tudo resolvido.