WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Com a violência do ICE azedando a popularidade do governo e republicanos perdendo eleições em lugares chave do país, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começou a falar em nacionalizar as eleições isto é, tirá-las do controle de estados, condados e municípios e colocá-las sob comando do governo federal.
O movimento, inédito nos EUA, é visto como um novo sinal de erosão das bases da democracia americana. “[A ameaça] de Trump é preocupante e assustadora”, diz Thomas Whalen, professor de história moderna da Universidade de Boston.
Trump falou em transferir para o governo federal o controle sobre as votações de meio de mandato em ao menos 15 estados sem detalhar quais. O motivo, mais uma vez sem provas, seriam suspeitas de fraude eleitoral.
Como de costume, a Casa Branca tentou minimizar a declaração. A porta-voz Karoline Leavitt disse que o presidente apenas defende eleições “justas” e quer impedir que pessoas sem cidadania votem. Ela citou, assim como o presidente, que Califórnia e Nova York autorizam que não cidadãos votem de acordo com o regulamento de votos dos estados, a retórica de Leavitt é falsa.
Whalen analisa que a confusão entre o que Trump diz e aquilo que seu gabinete tenta calibrar é uma tática política. “Eles lançam uma enxurrada de temas ao mesmo tempo. Há muitas distorções, e isso faz parte de uma estratégia”, diz. “Franklin Roosevelt entendia o rádio, John F. Kennedy entendia a televisão. Trump entende as redes sociais e a lógica da atenção curta.”
Para Whalen, a nova proposta de nacionalização rompe com princípios centrais do sistema eleitoral dos EUA. “A Constituição é muito clara: são os estados que conduzem as eleições. O que Trump sugere é radical e segue a lógica de um Estado autoritário”, afirma. Com o desenrolar do começo do ano, os próximos meses de campanha eleitoral devem ser marcados por mais violência por parte do governo, segundo ele.
A preocupação com a fala se soma a outras medidas do presidente. No fim de janeiro, houve uma ação do FBI, a polícia federal americana, em um escritório eleitoral da Geórgia para uma investigação relacionada à eleição de 2020 Trump afirma reiteradamente que foi roubado no estado nas últimas eleições e teria ganho, mas não há indícios que comprovem a hipótese.
Segundo o professor, os efeitos desse tipo de discurso de Trump e de ações federais podem ser indiretos, mas profundos. “O presidente está dizendo que cabe a ele decidir se uma eleição é justa ou não”, diz. “Quando ele envia o ICE e a Guarda Nacional para estados governados por democratas, isso passa a ser normalizado.”
Para ele, as ameaças de Trump podem até afastar a sociedade das urnas. “No dia da eleição, mesmo cidadãos americanos podem deixar de votar, sobretudo em comunidades minoritárias e entre pessoas não brancas. Isso reduz as margens dos candidatos democratas.”
Nas últimas semanas, o governo parece ensaiar recuos após queda na popularidade, ao mesmo tempo que escândalos não param de surgir, como o mais recente relacionado a um vídeo racista postado por Trump que retrata o ex-presidente Barack Obama e sua esposa, Michelle Obama, como macacos.
Em janeiro, após a morte de dois cidadãos americanos durante uma operação de imigração em Minnesota, o governo agiu para contornar a crise. O comandante da operação, Gregory Bovino, foi demitido, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que pode ter se precipitado ao chamar uma das vítimas, Alex Pretti, de “terrorista” e “agitador”, e cerca de 700 agentes federais deixaram o estado.
Os recuos, porém, ainda não deram sinais de melhoria na popularidade, e a aprovação de Trump segue em queda nas últimas semanas. Agora, sua taxa de aprovação chegou a 41%, segundo o monitoramento do New York Times. Críticas à condução do governo, especialmente à política migratória e ao cenário econômico, já começam a se refletir nas urnas.
Minnesota, alvo recorrente de Trump, realizou eleições especiais para a Câmara estadual. O pleito resultou na vitória das democratas Meg Luger-Nikolai e Shelley Buck. Com a saída de dois deputados democratas no ano passado, os republicanos haviam assumido uma vantagem mínima. Agora, a Câmara estadual está dividida igualmente entre os dois partidos, com 67 cadeiras para cada lado.
Em Nova Jersey, uma eleição especial para a Câmara dos Representantes também foi marcada pelo debate migratório. Embora o assento seja considerado seguro para os democratas, a disputa passou a ser tratada como um termômetro das prioridades do eleitorado para as eleições de novembro.
No Texas, tradicional reduto republicano, o democrata Taylor Rehmet derrotou Leigh Wambsganss, candidata apoiada por Trump. Após o resultado, o ex-presidente minimizou a derrota e afirmou que se tratava de uma eleição “muito local”, sem relação com sua influência nacional.
É nesse contexto de tensão institucional e endurecimento do discurso que ganha força o debate sobre a chamada nacionalização das eleições. Robert Shapiro, cientista político da Universidade Columbia, afirma que estudos baseados na análise de milhões de votos identificaram apenas alguns poucos casos de não cidadãos votando.
“Estamos falando de números minúsculos, de dezenas de casos em alguns estados”, diz. “Além disso, não há como saber em quem essas pessoas votaram. Elas poderiam inclusive ter votado em Trump.”