Valores pagos por Master a escritório de mulher de Moraes estão acima do mercado, dizem advogados

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Advogados especialistas nos serviços que o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirma ter prestado ao Banco Master consideram elevados os valores praticados.

Nesta segunda-feira (9), o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, que tem Viviane Barci de Moraes como sócia-coordenadora, detalhou as atividades dedicadas ao banco de Daniel Vorcaro entre fevereiro de 2024 e a liquidação da instituição financeira, em 18 de novembro de 2025.

Com uma equipe dedicada de 15 advogados, o escritório afirma ter contratado outros três escritórios especializados em consultoria para dar vazão ao processo de implementação de sistemas de compliance, com atividades como análise de documentos, reuniões presenciais e por meio de teleconferências, elaboração de políticas de ética e governança, entre outros.

O escritório mencionou, na nota, a existência de pelo menos 94 reuniões de trabalho. Também citou a realização de 36 pareceres e opiniões sobre temas previdenciários, contratuais, trabalhistas, entre outros. Além de atuar na análise de inquéritos policiais e ações penais.

O valor do contrato foi revelado pelo jornal O Globo: R$ 3,6 milhões mensais, com validade de 36 meses, a partir do início de 2024. Com isso, o acordo renderia, até o início de 2027, R$ 129 milhões ao escritório, caso o Master não tivesse sido liquidado pelo Banco Central.

Dado que o contrato foi encerrado no meio de novembro de 2025, o montante recebido pelo escritório foi algo entre R$ 76 milhões e R$ 80 milhões.

Especialistas ouvidos pela reportagem disseram que os valores praticados estão em desacordo com o que se pratica no mercado. Por outro lado, não há um teto para valores a serem cobrados por um escritório, seja na tabela de honorários da advocacia, seja no estatuto da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados não respondeu a um pedido de entrevista.

Especializada em governança corporativa, compliance e gestão de riscos, a advogada Patricia Punder chegou a ser nomeada como perita forense no caso envolvendo as Lojas Americanas, mas afirma ter renunciado diante da dificuldade de diálogo com as companhias que fizeram a auditoria da varejista.

Para ela, o trabalho de compliance, oferecido pelo escritório de Viviane, não justifica o valor dos honorários estimados. “Para implementar um processo de compliance inteiro para o Banco Master, com políticas, treinamento, risco-acesso, implementação de canal de denúncias e todas as devidas diligências, eu diria que não passaria de R$ 2 milhões”, estima ela.

“Se ela cobrasse, ao todo, de R$ 6 milhões a R$ 10 milhões, ela já teria saído no lucro. Para a implementação de compliance, um trabalho consultivo, o valor está elevado.”

Patricia afirma que já implementou projetos de compliance robustos para empresas de capital aberto e que nunca viu algo que chegasse a tais valores. Para ser perita forense no caso da Americanas, por exemplo, a advogada orçou o trabalho em cerca de R$ 20 milhões.

O economista Marcos Cintra, ligado ao PSD, auxilia em projetos de compliance pela FGV (Fundação Getulio Vargas). Ele argumenta que os valores tornados públicos são irreais. “O compliance hoje é uma atividade rotineira, fundamentalmente de acompanhamento, e que não exige um grande trabalho de pesquisa”, afirma.

O presidente do Instituto Empresa, Eduardo Silva, segue a mesma linha de raciocínio. “A formulação de políticas inovadoras de compliance e governança é bastante reduzida, uma vez que o setor é muito regulado e as normas já estão postas por órgãos reguladores, não justificando os valores supostamente cobrados”, diz ele.

“Mesmo extrapolando honorários da elite global da advocacia e consultoria, não se chegaria ao montante apontado, notadamente quando as mesmas normas propostas foram todas solenemente ignoradas pelo cliente.”

Três especialistas que preferiram não se identificar alegam nunca terem visto valores dessa magnitude para um trabalho consultivo.

No entanto, para o advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, os honorários se justificam diante da complexidade da empreitada envolvendo o Master. Para casos extraordinários, é uma prática comum a cobrança de valores acima dos praticados pela média do mercado, afirma ele.

“Embora os valores sejam, evidentemente, muito significativos, é um caso que merece ser cobrado algo desse porte”, disse ele. “É um belo contrato, sem sombra de dúvidas, mas é um cliente substancialmente, eu diria, complicado e poderoso, o que justifica [os valores envolvidos].”

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