Varejo cresce pelo 9º ano, mas perde força e volta ao ritmo de 2023. Este ano será mais fraco, diz economista
Renda ajuda a manter vendas em alta, mas juros atingem atividades mais dependentes de crédito
(Rafaela Araujo/Folhapress)
Vendas crescem 1,6% em 2025, menos da metade do ano anterior (4,1%). Medicamentos, móveis e equipamentos de escritório se destacaram
Segundo Ulisses Ruiz de Gamboa (IEGV-ACSP), emprego e renda sustentam consumo, mas juros e endividamento restringem as vendas
Por Vitor NuzziCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] O volume de vendas no comércio varejista cresceu pelo nono ano seguido. A alta de 1,6% no varejo restrito em 2025, no entanto, significa menos da metade da expansão do ano anterior (4,1%), com ritmo equivalente ao de 2023 (1,7%), segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE. Foi um crescimento “com amplitude menor” e “razoavelmente distribuído”, segundo o gerente da pesquisa, Cristiano Santos. Assim, o resultado foi puxado pelas atividades de produtos farmacêuticos, móveis&eletrodomésticos e equipamentos para escritório&informática. “Essa última fortemente influenciada pela desvalorização do dólar frente ao real”, afirmou Santos. “Isso ajudou nas vendas de produtos eletrônicos importados, como celulares e laptops.” O varejo ampliado ficou praticamente estável, em 0,1%, depois de 3,7% no ano anterior.
Para o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (IEGV-ACSP), o resultado foi positivo, dentro do esperado – a entidade projetava 1,5% – mas reflete a perda de ritmo da atividade econômica do país. “A desaceleração se deve aos juros altos e ao grande comprometimento de renda das famílias”, afirmou. Por outro lado, o emprego e a renda ajudaram a manter certo nível de consumo.
“Você tem duas forças”, disse Ruiz de Gamboa. “Emprego e renda continuaram sustentando o crescimento do consumo, de outro, juros e endividamento.” No caso do varejo ampliado, que tem setores mais dependentes de crédito, os dados já mostram retração: as vendas de veículos e peças caem 2,9% e as de material de construção recuam 0,2%. “São os setores mais afetados pela taxa de juros, os que mais sofrem.”
Em relação a 2026, o economista acredita que a tendência de redução de ritmo vai continuar. Mesmo que os juros passem a cair a partir de março, como se aposta (o Comitê de Política Monetária vai se reunir nos dias 17 e 18), os efeitos demoram a aparecer na economia. Ruiz de Gamboa projeta estabilidade para o varejo restrito e alguma retração para o ampliado.
REMÉDIOS – Segundo o IBGE, sete das 11 atividades pesquisadas tiveram alta no ano passado. Destaque para artigos farmacêuticos&médicos (incluindo perfumaria), com crescimento de 4,5%, móveis&eletrodomésticos (também 4,5%) e material de escritório&informática (4,1%). A atividade de tecidos, vestuário e calçados subiu 1,3% e a de hiper&supermercados e produtos alimentícios, 0,8% – ante 4,6% no ano anterior. O segmento de combustíveis e lubrificantes subiu 0,6%.
Ano
Varejo restrito (%)
Varejo ampliado (%)
2001
-1,6
–
2002
-0,7
–
2003
-3,7
–
2004
+9,2
+11,1
2005
+4,8
+3,1
2006
+6,2
+6,4
2007
+9,7
+13,6
2008
+9,1
+9,9
2009
+5,9
+6,8
2010
+10,9
+12,2
2011
+6,7
+6,6
2012
+8,4
+8,0
2013
+4,3
+3,6
2014
+2,2
-1,7
2015
-4,3
-8,6
2016
-6,2
-8,7
2017
+2,1
+4,0
2018
+2,3
+5,0
2019
+1,8
+3,9
2020
+1,2
-1,4
2021
+6,4
+4,5
2022
+1,0
-0,6
2023
+1,7
+2,3
2024
+4,1
+3,7
2025
+1,6
+0,1
Fonte: Pesquisa Mensal de Comércio (PMC)/IBGE
O Ibevar-FIA Business School, projeta “crescimento moderado” do comércio neste início de ano, “com desempenho desigual entre os segmentos que compõem o varejo restrito e o varejo ampliado”. A estimativa, para o restrito, é de 1,7% em 12 meses em fevereiro, desacelerando para 1,3% em abril. No ampliado, alta em fevereiro e retração em março e abril, “refletindo principalmente o desempenho negativo de segmentos mais sensíveis ao crédito e às condições financeiras”. O segmento de artigos farmacêuticos segue sendo destaque positivo, com variação acumulada de 6,7% em abril, “confirmando a resiliência do consumo essencial”. A atividade de hiper e supermercados deve sustentar alta de 0,3% a 1%. E a de veículos e peças continuará em queda, que pode chegar a 4%.
“Os resultados mostram um varejo que segue crescendo, mas de forma seletiva”, afirmou o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), Claudio Felisoni, também professor da FIA Business School. “O consumidor está mais cauteloso, priorizando gastos essenciais e adiando compras de maior valor.”