SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em aparente reviravolta na relação bilateral quase uma semana após o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela, no último dia 3, Washington e Caracas aumentaram nesta sexta-feira (9) os contatos diplomáticos, ainda que de forma limitada, e já avaliam a reabertura de embaixadas nos dois países.
O regime venezuelano, agora comandado por Delcy Rodríguez, anunciou em comunicado o início do que chamou de “processo exploratório de natureza diplomática” para retomar as relações com Washington, que têm o histórico de décadas de turbulência e que tinham sido rompidas em 2019.
Os EUA, por sua vez, enviaram ao país sul-americano uma delegação liderada por John McNamara, encarregado de negócios americanos na Colômbia, para fazer uma avaliação de uma “possível volta gradual das operações diplomáticas”, também de acordo com nota divulgada pelo governo.
Segundo o chanceler venezuelano, Yván Gil, o regime decidiu abrir um canal de diálogos preliminares com Washington em que as partes vão discutir o restabelecimento de representações nos países. Em sinal de cautela, Gil disse que os diálogos têm o objetivo de avaliar as condições para a retomada formal das relações bilaterais.
O regime venezuelano ainda confirmou a chegada da delegação dos EUA a Caracas e acrescentou que enviará uma representação oficial a Washington como parte desse processo inicial de aproximação.
As movimentações marcam uma inflexão numa relação marcada por tensões que antecedem a chegada de Nicolás Maduro ao poder. Seu antecessor, Hugo Chávez, acusava com frequência Washington de conspirar contra seu governo. Um dos episódios mais simbólicos do confronto retórico entre Chávez e os EUA ocorreu em 2006, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas. “O diabo esteve aqui ontem”, disse o então líder venezuelano ao subir à tribuna após o presidente americano, George W. Bush.
Em 2019, Maduro, ditador capturado na incursão de sábado, anunciou o fechamento da embaixada venezuelana em Washington após romper de vez relações com o governo de Donald Trump, à época em seu primeiro mandato, por reconhecer o líder parlamentar, o opositor Juan Guaidó, como presidente interino.
Washington reagiu de forma simétrica. Os EUA fecharam a embaixada em Caracas depois de não reconhecer a primeira reeleição de Maduro, em 2018. A segunda, em 2024, também foi rejeitada e classificada de fraudulenta, inclusive por observadores internacionais, o que aprofundou a crise bilateral.
Com Delcy, vista pelos EUA como uma líder capaz de conduzir um processo de estabilização da economia venezuelana, os dois lados agora ensaiam a retomada das relações. Do lado americano, funcionários do Departamento de Estado afirmaram que farão avaliações técnicas e logísticas como etapa inicial para aprofundar o diálogo entre Washington e Caracas.
De acordo com a agência de notícias AFP, a reaproximação inclui negociações para impulsionar a indústria petrolífera venezuelana, setor estratégico em um país que detém as maiores reservas de petróleo do mundo, mas cuja infraestrutura está deteriorada.
Trump recebeu na Casa Branca dirigentes de multinacionais petrolíferas, incluindo a espanhola Repsol, para discutir o futuro do setor na Venezuela. Segundo o americano, as empresas avaliam investimentos de até US$ 100 bilhões para impulsionar a exploração petrolífera, hoje em cerca de 1 milhão de barris por dia, menos de um terço do volume registrado no auge da produção. A americana Exxon, no entanto, afirmou em nota que não prevê aportar capital enquanto não houver um governo estável e um regime fiscal claro.
O republicano disse que Washington administrará a Venezuela até uma transição e que o regime entregará de 30 a 50 milhões de barris de petróleo aos EUA. Na quarta (7), ele afirmou que a supervisão americana sobre o país pode durar mais tempo e que os líderes chavistas têm aceitado tudo o que a Casa Branca julga necessário. Já Delcy afirma que não há agente externo governando Caracas.
Diplomatas ouvidos pela AFP afirmam que Washington não tomou uma decisão sobre a reabertura da embaixada. Segundo as autoridades, que não entraram em detalhes, questões diversas continuam em análise, embora os EUA estejam preparados para retomar a representação assim que Trump autorizar.
Desde o fechamento da embaixada na Venezuela, as operações americanas relacionadas ao país passaram a ser conduzidas a partir da embaixada na Colômbia, que também funcionou sem um embaixador titular durante esse período.
Maduro foi capturado em 3 de janeiro, durante uma incursão militar em Caracas, e levado com a esposa, Cilia Flores, a Nova York, onde responde a um processo por narcotráfico. Segundo o chanceler Yván Gil, as “consequências derivadas da agressão e do sequestro” de Maduro farão parte da agenda de trabalho das conversas diplomáticas.
Na quinta (8), a Venezuela libertou prisioneiros políticos. Horas depois, nesta sexta, Trump disse que suspendeu novos ataques contra o país porque, em suas palavras, Washington e Caracas estão “trabalhando bem juntos”.