200 mil bananas descascadas à mão todo dia: Paraibuna, 50 anos, espera crescer 25% em 2026
Setor de Descasque da fábrica: 1 tonelada de bananas por funcionário todos os dias
(Andre Lessa/Agência DC News)
Criada em 1975 no interior paulista, empresa é administrada pela segunda e terceira geração familiar. Da fábrica saem 24 tipos de produtos
Bananas vêm de quatro regiões, em São Paulo e Minas Gerais. No ano passado, foram vendidas 17 milhões de unidades
Por Vitor NuzziCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] É preciso atravessar o Centro, incluindo a Paróquia Santo Antônio, para chegar a uma rua estreita e sem saída. Onde, à primeira vista, não se imagina existir uma fábrica. Foi lá que, em meados dos anos 1970, o alfaiate Célio Geraldo da Silva decidiu mudar de ramo. Na verdade, foi forçado a alterar sua rota, porque as pessoas já não procuravam roupas sob encomenda – iam comprar em lojas de departamento. Vindos de Poços de Caldas, seu Célio buscou uma saída à mineira: fazer doces. Com uma colher de pau e um tacho, começou a produzir no barracão ao lado de casa. Pegava a bicicleta Barra Forte e ia para a beira da Rodovia Tamoios vender. E produzir. E vender. Estava nascendo a Bananinha Paraibuna, que aos 50 anos é sinônimo de doce: da fábrica, com 135 funcionários, saem 24 tipos de produtos. A ampliação do portfólio é parte permanente do planejamento. Em 2025, o ano de cinquentenário, foram 17 milhões de unidades vendidas. Desde 2020, o faturamento triplicou – chegou a R$ 45 milhões no ano passado. E a empresa espera crescer 25% em 2026, o que daria pouco mais de R$ 56 milhões.
Vila desde 1832 e município a partir de 30 de abril de 1857, Paraibuna cresceu, principalmente, a partir do ciclo do café em São Paulo, ainda no século 19. Do café a atividade econômica migrou para o leite. A situação começou a mudar com a construção da Represa de Paraibuna – com água dos rios Paraibuna e Paraitinga –, nos anos 1970, que alagou parte das terras. Célio veio de Minas Gerais atraído pelas obras da represa. Tinha 22 anos em 1970. Sua companheira, Jacyra Paiola (paranaense de Cianorte), 19. Tiveram quatro filhos: Jane, hoje com 64 anos, Válter (63), Marcos (57) e Rute (47). Três batem ponto todos os dias na fábrica – Marcos, que é médico, vai lá uma vez por semana. E sete dos oito netos de Célio e Jacyra trabalham lá: Miriam, Débora (filhos de Jane), Lucas, Nathalia (de Válter), Letícia, Júlia (de Marcos) e Guilherme (Rute). A exceção é Leonardo, filho de Rute e também médico. Assim, a segunda e a terceira gerações da família levam adiante o empreendimento iniciado por Célio em 1975. O barracão ficava ali mesmo. De uma área de 8 m², a Paraibuna ocupa agora 4 mil m².
E a Tamoios (nome dado apenas em 1978) também foi ampliada. Rodovia cuja construção começou ainda na década de 1930, ela se tornou a principal via entre São José dos Campos, no Vale do Paraíba, até o Litoral Norte. O que beneficiou Paraibuna, que fica a 125 quilômetros de São Paulo, a 40 de São José e a 50 de Caraguatatuba. A produtora de bananinhas e derivados é uma das principais empregadoras do município (18 mil habitantes), ao lado da Mac Jee, fabricante de material bélico. Em 2021, a cidade de Paraibuna foi declarada Estância Turística do estado (a legislação estadual foi atualizada no ano passado).
A atividade na Bananinha Paraibuna começa à noite, quando chegam os caminhões transportando as frutas. Sempre banana nanica, que se adaptou melhor à produção. E muitas bananas. De 15 a 20 toneladas por dia, segundo a gerente de Relacionamentos da empresa, Júlia Paiola, 30 anos, irmã de Letícia, a CMO da Paraibuna. Mineira de Itajubá e formada em Psicologia, Júlia mora na cidade desde os 4. Ela conta que as bananas vêm de quatro regiões: Espírito Santo, Serra da Mantiqueira, sul de Minas e Vale do Ribeira. Os caminhões estacionam na porta, os motoristas dormem e logo cedo descarregam a mercadoria. Dezenas de caixas são colocadas em uma das áreas da fábrica, e separadas com o dia da semana em que se transformarão em doces. Aqui, uma seção merece destaque à parte.
Área de corte: linha diet da Paraibuna responde por 60% das vendas (Andre Lessa/Agência DC News)
LINHA DIET – É o Setor de Descasque, onde trabalham aproximadamente 20 pessoas, no andar térreo (no de cima, corte e embalagem). Que descascam até 20 toneladas de bananas por dia. À mão. Cada uma pesa, em média, de 100 a 110 gramas. Se for 100, são 200 mil bananas por dia. Uma tonelada por funcionário – ou 10 mil bananas. Impressiona a velocidade com que cada um faz a operação. Com frequência, descascam duas de uma vez. Se a jornada for de seis horas, seriam quase 1,7 mil bananas descascadas por hora e por empregado. Daria 28 por minuto, ou uma a cada 2 segundos. As bananas vão para os tachos e viram uma pasta que depois irá para o corte. As cascas são destinadas a alimentação de gado. Segundo Júlia, 60% das vendas vêm da linha diet. Criada nos anos 1980 – claro, por Célio, que tinha um casal de vizinhos diabéticos e que não podiam consumir muito açúcar. Não são apenas bananinhas que saem da linha de produção – outro carro-chefe da casa são as paçoquinhas diet.
A Paraibuna comemorou sua primeira exportação direta em 2022. As vendas ao exterior representam de 2% a 3% do total. “Este ano fechamos com Chile e Portugal”, disse Júlia. “A gente já exportava para Estados Unidos, Japão e Reino Unido.” A empresa está em negociação com os Emirados Árabes Unidos. O e-commerce responde por 6% a 10% das vendas. Os herdeiros de Paraibuna enfatizam que mantêm a produção da mesma forma, apenas com fruta e açúcar, sem conservantes. “São 50 anos fazendo dessa forma. A gente se garante pela qualidade e pela tradição”, disse Júlia. Fiéis à receita e ao avô Célio, que morreu em 2017 tentando planejar um doce à moda árabe. “Se tem uma coisa que define o meu avô, é determinação.” (Dona Jacyra partiu em 2024.)
E os projetos continuam. Em 2022, surge o Favoritos, mix de produtos vendidos na mesma embalagem. Dois anos atrás, foi a vez do licenciamento da marca da Turma da Mônica – bananada com ou sem açúcar, bananada coberta com chocolate vegano. A empresa também aposta no público fitness e naquele consumidor mais preocupado com alimentação saudável, “incluindo pessoas que procuram alimentos veganos e alimentos kosher”. No Natal do ano passado, foi relançado o Banetone, parceria com a padaria Bendito Seja, de São José dos Campos. A empresa mantém ainda parceria com o selo eureciclo, reestruturando sua logística reversa: de uma compensação inicial de 22% das embalagens, chega hoje, segundo informa, a 200%.
Assim, se a vida agora parece promissora, a Paraibuna já teve momentos em que o fechamento parecia inevitável. Em 2001, uma enchente atingiu a fábrica em cheio – a água chegou a 1,8 metro. “Perdemos toda a produção”, disse Júlia. Também houve o período da pandemia. “Conseguimos passar sem demitir nenhum funcionário.” E com lembranças mais alegres: “Um funcionário casou aqui, entre as caixas de bananas”.
Quase pronto: bananinhas (com ou sem açúcar) vão para os pontos de venda (Andre Lessa/Agência DC News)