[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A forte dependência brasileira sobre a exportação de commodities para a China tem garantido superávits comerciais robustos, mas também evidencia um risco estrutural para a economia local. Enquanto o Brasil concentra suas vendas externas em produtos primários como soja, minério de ferro e petróleo, a China acelera sua estratégia de especialização em tecnologia e produtos de maior valor agregado. Para o consultor internacional Theo Paul Santana, especialista em negócios com o país asiático, autor do livro O Brasileiro que Decifrou a China (lançado na última terça-feira, em São Paulo) e fundador da consultoria Destino China, essa assimetria revela uma fragilidade na relação comercial entre as duas economias. “É um superávit frágil”, disse em entrevista ao DC NEWS TALKS, o videocast da Agência DC NEWS.
A relevância comercial aparece nos números. Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e China subiu 8,2%. Alcançou US$ 171 bilhões, com cerca de US$ 100 bilhões em exportações brasileiras e US$ 71 bilhões em importações. Destino de aproximadamente 30% das exportações nacionais, segundo dados oficiais do governo brasileiro. Apesar do superávit, a pauta exportadora brasileira permanece concentrada em produtos primários.
A dependência brasileira da demanda chinesa por matérias-primas é outro um ponto de vulnerabilidade para a economia nacional e para o mundo. Vide o colapso durante a pandemia. Do ponto de vista das exportações, Santana disse que caso a China altere sua política de estoques estratégicos, os impactos podem ser imediatos no PIB. Ele lembra que algo semelhante já ocorreu no passado, quando a desaceleração do setor de construção chinês derrubou a demanda por minério de ferro. “Quando a China desacelerou a construção, o minério despencou”, disse.
EXPORTA TECNOLOGIA – Enquanto o Brasil não altera sua condição como parceiro comercial, a China acelera sua estratégia industrial voltada à produção e exportação de tecnologia. “A estratégia é sair do ‘made in China’ barato e exportar produtos com tecnologia embarcada”, disse. Esse movimento já reflete no próprio mercado brasileiro, com a entrada de empresas chinesas em setores estratégicos. No setor automotivo, por exemplo, montadoras ampliam investimentos e introduzem novas plantas industriais e tecnológicas, sobretudo em veículos elétricos. A expansão da BYD no Brasil ilustra essa nova etapa da presença chinesa, na qual a China passa a trazer não apenas produtos industriais, mas também inovação tecnológica, com investimento direto.
Segundo Santana, essa mudança não ocorreu por acaso, mas é resultado de planejamento econômico de longo prazo conduzido pelo Estado chinês. “A China faz planos de cinco anos, de 15 anos também. E trabalha em cima disso. Funciona”, afirmou. O país vem direcionando investimentos em infraestrutura, logística e desenvolvimento industrial, o que é bastante conhecido, e criando as bases para ampliar a competitividade das empresas nacionais no mercado global. Um ponto de atenção. Mercado interno. “A China tem olhado mais para o mercado interno, para ampliar o seu próprio mercado.”
PEQUENOS E MÉDIOS – Para o especialista, compreender o conjunto que envolve investimento, tecnologia aplicada, inteligência artificial e escala produtiva é essencial para empresários de diferentes setores, do varejo à energia e à indústria automotiva. “A China é sim para pequenos e médios empresários”, disse. “Quem não olhar para a China pode entrar em colapso”, afirmou. Confira a entrevista.