Rafael Lourenço, Yamaha: "Delivery, mobilidade urbana e renda em alta mantêm o mercado de motos aquecido"

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Lourenço: público agora é diversificado. Antes, era predominantemente jovem e masculino
(Divulgação)
  • Indústria brasileira se aproxima de 2 milhões de unidades. Produção cresce 114% em relação a 2026. A de veículos aumenta 12,5%
  • Há 55 anos no Brasil, Yamaha lança dois modelos eletrificados. "Enxergamos a eletrificação como tendência estratégica", diz gerente
Por Vitor Nuzzi

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A produção de motocicletas está em alta no Brasil. Apenas em novembro, foram fabricadas 165,7 mil unidades, 13,4% a mais do que em igual mês de 2024 – foi o melhor resultado para novembro desde 2011, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo). No ano, são 1,8 milhão (+13,9%), também no melhor resultado desde 2011, com predomínio das motos de menor cilindrada (78,2%), da categoria Street (50,6%) e flex (63%). O setor projeta produção de 1,9 milhão neste ano, o que representaria alta de 11,5% sobre 2024. As vendas já atingiram a marca de 2 milhões, aumento anual de 16,2%, e devem fechar 2025 em 2,1 milhões (+11,9%). Com novos players no mercado, a Yamaha mantém-se em segundo lugar, com 284,7 mil emplacamentos neste ano – 14,2% de participação, segundo a Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

Existe espaço para crescer mais, segundo o gerente de Relações Institucionais da Yamaha, Rafael Lourenço. “O mercado continua aquecido, impulsionado pelo delivery, pela mobilidade urbana e pelo aumento da renda”, afirmou. O ritmo já se aproxima das montadoras de veículos. Dez anos atrás, o Brasil produziu 2,4 milhões de autoveículos (Anfavea) e 888 mil motos (Abraciclo). Neste ano, enquanto a estimativa é de 1,9 milhão de motos, 114% a mais em relação a 2016, o setor automobilístico não deve atingir a projetada produção de 2,7 milhões de unidades, que representaria aumento de 12,5% no mesmo período.

No caso da Yamaha, que completou 70 anos de existência e 55 anos no mercado brasileiro, a empresa começa a se voltar para os eletrificados. Em 2025, lançou dois modelos. “Ambos voltados à mobilidade urbana”, disse Lourenço. “Enxergamos a eletrificação como uma tendência estratégica.” No setor automobilístico, esses modelos já representam 9% do mercado, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). No de motocicletas, a participação das eletrificadas ainda não chega a 0,5%, mas as vendas desse modelo cresceram 15% neste ano (7,7 mil emplacamentos, de acordo com a Fenabrave).

Escolhas do Editor

AGÊNCIA DC NEWS – A marca acaba de completar 55 anos no Brasil. Foi a primeira fabricante local de motocicletas. Na época, a empresa tinha apenas 15 anos de existência. Por que a opção pelo mercado brasileiro naquele período?
RAFAEL LOURENÇO – O Brasil, na época, representava um mercado estratégico com grande potencial de crescimento e demanda por soluções de mobilidade acessíveis. A Yamaha viu a oportunidade de se estabelecer como pioneira na produção local de motocicletas.

AGÊNCIA DC NEWS – Quem era o consumidor de moto nos primeiros anos? O perfil mudou? Quem dirige moto hoje em dia? Jovens? Homens, mulheres?
RAFAEL LOURENÇO – Nos primeiros anos, o consumidor era predominantemente jovem, masculino e buscava transporte econômico e ágil. Hoje, o perfil é mais diversificado, incluindo homens e mulheres de várias idades, profissionais de delivery e pessoas que usam a motocicleta tanto para mobilidade urbana quanto lazer.

AGÊNCIA DC NEWS – E em relação aos modelos produzidos e consumidos pelo motociclista brasileiro? O que mudou desde os tempos da RD-50?
RAFAEL LOURENÇO – A RD-50 era um modelo compacto e básico, focado em transporte. Hoje, a Yamaha oferece 28 modelos de motocicletas e scooters, além de veículos elétricos, híbrido e motos aquáticas, com opções de mobilidade urbana e lazer. Os produtos evoluíram acompanhando as demandas do mercado e a diversidade de consumidores.

AGÊNCIA DC NEWS – São aproximadamente 35 milhões de motocicletas em circulação no país, crescimento superior a 40% em dez anos. Como a Yamaha enxerga esse mercado?
RAFAEL LOURENÇO – O mercado é muito promissor.

AGÊNCIA DC NEWS – Existe espaço para crescer mais? RAFAEL LOURENÇO – Com crescimento superior a 40% nos últimos dez anos, expansão do delivery e da mobilidade urbana, ainda há espaço para crescimento, especialmente em cidades grandes, onde a moto se mostra uma alternativa econômica, ágil e sustentável em relação ao carro.

AGÊNCIA DC NEWS – Em termos de mobilidade, é possível imaginar mais motos e menos carros nas ruas?
RAFAEL LOURENÇO – Enquanto modal individual, as motocicletas têm papel importante na mobilidade urbana. Oferecem mobilidade eficiente, menor custo de aquisição e manutenção, além de contribuir para o fluxo mais rápido no trânsito. A tendência é que, à medida que a população busque soluções práticas, a moto continue ganhando espaço como alternativa de transporte.

AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil produz quase 2 milhões de motos/ano, segundo a Abraciclo. Essa produção pode crescer nos próximos anos?
RAFAEL LOURENÇO – Sim. O mercado continua aquecido, impulsionado pelo delivery, mobilidade urbana e aumento da renda.

AGÊNCIA DC NEWS – Em que medida a crescente atividade de delivery impulsionou o setor – e a Yamaha, especificamente?RAFAEL LOURENÇO – O aumento dos serviços de delivery, que se consolidou na pandemia, aumentou a demanda por motocicletas econômicas e confiáveis. A Yamaha acompanha essa tendência oferecendo produtos que atendem às necessidades de profissionais de delivery, com manutenção acessível, durabilidade e desempenho, fortalecendo sua participação em um segmento em expansão.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual a intenção da empresa ao criar a Yamalog, em 2017?
RAFAEL LOURENÇO – A Yamalog foi criada com o propósito de centralizar e otimizar toda a operação logística do Grupo Yamaha no Brasil, país de dimensões continentais, que abriga a única operação da marca no mundo dedicada especificamente a essa área. A intenção é garantir um fluxo logístico mais eficiente, integrando transporte, armazenagem e distribuição. Hoje, a Yamalog opera de forma robusta e estratégica, atendendo a diversos clientes além da operação da Yamaha.

AGÊNCIA DC NEWS – E como tem funcionado?
RAFAEL LOURENÇO – A empresa conta com 14 unidades operacionais, frota própria ampla e mais de 430 colaboradores. Seu funcionamento é baseado em soluções inteligentes e personalizadas, o que tem fortalecido a eficiência operacional, a agilidade das entregas e a qualidade da experiência oferecida pela Yamaha em todo o país.

AGÊNCIA DC NEWS – Como uma taxa Selic a 15% ao ano atinge a indústria? O financiamento foi afetado?
RAFAEL LOURENÇO – A Yamaha acompanha o cenário de perto e adapta suas estratégias comerciais e de financiamento para manter o acesso aos produtos, sem comprometer crescimento e sustentabilidade do negócio.

AGÊNCIA DC NEWS – Yamaha já tem scooters eletrificados. Como a empresa vê a eletrificação no segmento de duas rodas? No de quatro, a participação tem crescido.
RAFAEL LOURENÇO – Neste ano, a Yamaha lançou dois modelos eletrificados no Brasil: a Neo’s Connected, primeiro modelo elétrico da marca no país, e a Fluo 125 ABS Hybrid Connected, primeiro scooter com sistema híbrido leve, ambos voltados à mobilidade urbana. Em linha com seu compromisso de atingir a neutralidade de carbono até 2050, a Yamaha enxerga a eletrificação como uma tendência estratégica, oferecendo soluções mais sustentáveis e econômicas para o transporte urbano.

AGÊNCIA DC NEWS – Como a Yamaha passou de instrumentos musicais para motos?
RAFAEL LOURENÇO
– A Yamaha teve origem na tradicional fabricante japonesa de instrumentos musicais Nippon Gakki, fundada em 1887. A decisão de ingressar no mercado de motocicletas partiu de Genichi Kawakami, presidente da Nippon Gakki e fundador da Yamaha Motor, que acreditava ser papel da liderança buscar novas frentes de negócio e criar oportunidades de crescimento sustentável.

AGÊNCIA DC NEWS – Como isso aconteceu?
RAFAEL LOURENÇO –
Além de visão estratégica, a entrada no setor de mobilidade aproveitou equipamentos de usinagem que haviam sido utilizados na produção de hélices de aeronaves durante a Segunda Guerra Mundial, adaptando-os para tempos de paz. O mercado japonês estava em crescimento, com mudanças no sistema de licenciamento de veículos e aumento da demanda por motocicletas como meio de transporte, mas mesmo como iniciante, a Yamaha não se contentou em seguir padrões locais e mirou diretamente no mercado global, estabelecendo desde o início uma cultura de excelência.

AGÊNCIA DC NEWS – O modelo original teve qual ponto de partida?
RAFAEL LOURENÇO
– O primeiro modelo, a YA-1, de 125 cilindradas, foi desenvolvido a partir do projeto alemão RT125, mas com inovações próprias, como câmbio de quatro marchas, sistema de partida eficiente e soluções mecânicas inéditas, além de design diferenciado que transmitia modernidade e sofisticação. O sucesso foi imediato, e a YA-1 conquistou destaque nacional em competições apenas nove dias após o lançamento, consolidando a Yamaha como referência em tecnologia e qualidade.

AGÊNCIA DC NEWS –
RAFAEL LOURENÇO
– Setenta anos depois, a visão de Kawakami se provou transformadora, e a Yamaha Motor se tornou uma multinacional presente em mais de 200 países, com 54 mil colaboradores, mantendo o compromisso de inovar em mobilidade, tecnologia e sustentabilidade.

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