Sob pressão de Trump, Modi e Putin buscam acolhida de Xi em cúpula asiática

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TIANJIN, CHINA (FOLHAPRESS) – Na chegada à cidade portuária de Tianjin, a cem quilômetros de Pequim, o cenário parece de “lockdown”, dos tempos de pandemia. Ruas inteiras fechadas por barreiras, policiais agrupados nos cruzamentos, à espera dos líderes Xi Jinping, da China, Narendra Modi, da Índia, e Vladimir Putin, da Rússia.

Com agendas tratadas como secretas, os três vão se encontrar neste domingo (31) e segunda (1º) na cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), criada em 2001 para articular as relações de segurança na Ásia, sobretudo combate ao terrorismo. Modi, que até meses atrás ainda buscava se aproximar do presidente americano Donald Trump, volta à China após sete anos de ausência.

Falando a jornalistas no Japão, dois dias antes de vir a Tianjin, o primeiro-ministro indiano afirmou que “relações bilaterais previsíveis e amistosas entre Índia e China, as duas maiores nações da Terra, podem ter um impacto positivo na paz e prosperidade regionais e globais”.

Ele evitou destacar as tarifas americanas de 50% sobre produtos da Índia, mas elas são o pano de fundo de quase todas as avaliações do que levou ao encontro com Xi.

“A guerra tarifária de Trump está aproximando países como a Índia e o Brasil da órbita da China”, diz o analista político chinês Wang Xiangwei, professor da Universidade Batista em Hong Kong e Shenzhen.

“No contexto do confronto crescente entre Pequim e Washington, a cúpula de tamanho recorde em Tianjin é um dos sinais decisivos, junto com o Brics, da liderança da China como potência global em ascensão.”

A trinca dos principais líderes se completa com Putin, pressionado por Trump a negociar a paz com a Ucrânia e amplamente isolado pela diplomacia ocidental. Na China, estará em território amigo, ao lado de um Xi com quem firmou uma estratégica parceria em segurança energética e econômica no ano passado, durante visita a Pequim.

No caso de Modi, a visita do premiê foi antecedida por uma série de movimentos de aproximação, procurando reverter o quadro próximo do colapso após o confronto na fronteira em 2020, que deixou mortos dos dois lados.

Depois de um encontro prévio organizado por Putin na cúpula do Brics em outubro passado, em Kazan, na Rússia, houve uma carta enviada em março pelo líder chinês à presidente da Índia, Droupadi Murmu, mas com mensagem para Modi. Tratava das primeiras pressões de Trump através das tarifas.

Posteriormente, estiveram na China o assessor de Segurança Nacional e o chanceler indiano; na via inversa, viajou à Índia o chanceler chinês.

Começaram a surgir respostas práticas, como a retomada dos vistos para turistas chineses pela Índia e a aproximação empresarial entre o bilionário Gautam Adani, ligado a Modi, e a montadora chinesa BYD. De sua parte, Pequim liberou a exportação de fertilizantes, terras raras e até máquinas de perfuração de túneis.

A aproximação, porém, deve ser vista com cautela. “China e Índia ainda podem ter diferenças acentuadas em questões territoriais e outras”, diz o analista Wang Xiangwei.

Para Zhang Sheng, pesquisador nas universidades Johns Hopkins (EUA) e Liaoning (China), o giro da Índia rumo à China pode ser abandonado a qualquer momento.

“Quando uma mulher orgulhosa briga com seu pretendente [EUA], ela pode flertar com outro não por interesse sincero, mas para pressionar o pretendente original e melhorar sua posição de negociação”, afirmou ele, na plataforma Substack.

A desconfiança bilateral prossegue. Uma semana atrás, o encontro entre os chanceleres Wang Yi e Subrahmanyam Jaishankar resultou em relatos divergentes das partes chinesa e indiana.

O segundo afirmou que, embora a Índia mantenha a posição de apoio a uma só China, o país “tem uma relação com Taiwan que se concentra em laços econômicos, tecnológicos e culturais”. A porta-voz da chancelaria chinesa, Mao Ning, comentou que isso foi “uma surpresa”, que causa “preocupação séria” e leva Pequim a “se opor firmemente”.

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