Acesso à energia supera localização e redefine mapa global para construção de data centers, diz JLL

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Disponibilidade de energia renovável e infraestrutura coloca o Brasil em uma posição relevante
(Noah Berger / Reuters / Folhapress)
  • Setor deve quase dobrar até 2030, com 100 GW adicionais e superciclo de até US$ 3 trilhões em investimentos globais
  • Com matriz renovável e conexão mais rápida, Brasil pode captar US$ 33 bi até 2030 com nova lógica de energia decisiva
Por Anna Scudeller

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O avanço da inteligência artificial não está apenas dobrando a capacidade global de data centers — está mudando o critério que define onde eles serão construídos. Segundo o relatório 2026 Data Center Outlook, da JLL, o acesso à energia elétrica em larga escala, com fornecimento estável, conexão rápida à rede e preferência por fontes renováveis, passou a superar fatores como localização e custo do terreno na decisão de novos projetos. Nesse cenário, a capacidade instalada no mundo deve saltar de 103 gigawatts para 200 GW até 2030, em ritmo médio de 14% ao ano, inaugurando um “superciclo” de investimentos que pode alcançar US$ 3 trilhões na década.

A busca por novos espaços, segundo a JLL, não é mais hipotética, é real. E a IA é o principal motor dessa expansão. O estudo indica que a tecnologia representava 25% das cargas de trabalho globais em data centers em 2025. Para 2030, a expectativa é de alcançar 50%. Espera-se também uma mudança estrutural a partir de 2027. As cargas de inferência, quando modelos já treinados passam a ser usados em aplicações reais, devem superar as de treinamento. Essa alteração implica na maior distribuição geográfica da infraestrutura, com mais hubs regionais e instalações próximas aos usuários finais a fim de reduzir latência. 

No mercado de semicondutores, a transformação também é profunda. A participação de chips voltados a IA deve subir de 20% para 50% da receita total do setor até 2030. GPUs especializadas, que podem custar entre US$ 15 mil e US$ 30 mil por unidade, substituem CPUs tradicionais em larga escala, enquanto chips personalizados devem responder por cerca de 15% do mercado.

ENERGIA LIMPA E BRASIL – Infraestruturas do tipo voltadas à IA exigem densidades elétricas até dez vezes maiores que as tradicionais, em que os racks podem ultrapassar 100 kW e aumentar a necessidade de refrigeração líquida. Além disso, ativos preparados para a tecnologia podem esperar crescimento de até 60% nos aluguéis. Nesse momento, o principal critério para a escolha de novos projetos de data centers se torna o acesso à energia, não mais localização e custo. Em mercados consolidados, o prazo médio para conexão à rede elétrica supera quatro anos.

A escassez de capacidade energética tem levado operadores a investir em geração própria (behind-the-meter), contratos privados de fornecimento e sistemas de armazenamento em baterias (BESS). O preço médio global de sistemas de baterias deve cair abaixo de US$ 90 por kWh em 2026, ampliando sua viabilidade econômica. Assim, o Brasil surge com vantagem competitiva. Com matriz majoritariamente renovável, o país atende à crescente demanda de grandes empresas por energia limpa. Ademais, o prazo para obtenção de conexão elétrica, entre 1,5 e 2 anos, é considerado curto em comparação com outros mercados globais.

Segundo a consultoria, o Brasil pode captar aproximadamente US$ 33 bilhões em investimentos até 2030. Aproximadamente um terço desse valor deve ser voltado ao desenvolvimento imobiliário, e o restante à infraestrutura de TI e equipamentos. Sudeste e Nordeste são as regiões mais atrativas para novos projetos. De acordo com Bruno Porto, gerente de negócios imobiliários de Industrial, Logística e Data Center da JLL Brasil, a combinação de demanda por IA, disponibilidade de energia renovável e infraestrutura “coloca o Brasil em uma posição relevante no mapa global de data centers”.

Mas há entraves. O relatório cita a implementação efetiva da medida provisória ReData, que busca modernizar a infraestrutura digital nacional, como um passo fundamental para promover segurança jurídica e previsibilidade aos investidores. A JLL chama atenção também ao fato de que algumas regiões ainda demandam reforços em infraestrutura básica, com impacto em cronogramas e custos. Questões regulatórias, licenciamento ambiental e integração com a rede elétrica permanecem no radar.

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