[AGÊNCIA DC NEWS]. Apenas o 13º pavimento, o último antes do terraço, tem alguma ocupação. Ali funciona um pequeno escritório. Nos demais, só a laje está intacta. Todo o entulho foi removido. As divisórias foram retiradas, deixando áreas livres em todos os andares. Do lado de fora, a limpeza da fachada consumiu quatro meses. Assim tem sido o trabalho desde que o Sesc adquiriu o prédio da praça Ramos de Azevedo, em março de 2023, por R$ 71,5 milhões. Um prédio – projetado pelo arquiteto Elisário Bahiana, o mesmo do Viaduto do Chá – conservado na estrutura e na memória da cidade: durante 60 anos, de 1939 a 1999, ali funcionou o Mappin, marca icônica do varejo. Até ter a falência decretada, em julho de 1999, pelo juiz Luiz Beethoven Giffoni, da 18ª Vara Cível de São Paulo. Na época, a Justiça recebeu pelo menos 300 pedidos de falência.
Eduardo Giroldo, 67 anos, estava lá naquele 28 de julho. “Eram 3 horas da tarde quando o cara da massa falida [o advogado Alexandre Alberto Carmona, nomeado síndico pelo juiz] apareceu”, disse. “Falou para fechar as portas e ir todo mundo embora. Foi muito triste.” Ele lembra de ter ficado lá até 19h, arrumando suas coisas. Era o fim de 22 anos de trabalho – entrou em 1977, como conferente. De lá, foi para o Centro de Processamento de Dados (CPD), onde fechava a folha de pagamento. Quando o Mappin fechou, estava na área de recursos humanos. “Nunca mais vai existir uma empresa desse jeito”, afirmou.
De certa forma, o Mappin ainda existe. Não a loja física, de departamentos, conhecida pelas propagandas e campanhas na TV e por seus jingles (em especial o que lembrava do horário de atendimento, das 8 da manhã até meia-noite), pelas liquidações e pelos ascensoristas anunciando quais produtos havia em cada andar. Existe digitalmente. Em dezembro de 2009, dez anos depois da falência, a Lojas Marabraz comprou a marca. Passaram-se mais dez até a abertura do site, que continua no ar (www.mappin.com.br), mas enfrentou algumas oscilações. A Marabraz afirmou que “recentemente foram realizados ajustes” para melhoria da experiência do usuário no site, gestão de campanhas digitais, SEO e suporte técnico. “O desempenho da plataforma vem sendo analisado e a expectativa é alcançar boa performance em breve.” A empresa planeja outras ações para o Mappin: “Novos projetos relacionados à marca também estão em análise”.
Enquanto isso, o Sesc se prepara para reabrir o Edifício João Brícola, na praça Ramos. No início de julho, em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), anunciou o vencedor de concurso para a reforma do prédio, seus 14 pavimentos e 15,6 mil metros quadrados – o escritório MMBB, de São Paulo, fundado em 1991. Segundo Robson Luiz, gerente do Sesc, que dá expediente no 13º andar do edifício, o processo está em fase de contratação. Além do projeto arquitetônico em si, ele estima que serão necessários em torno de 25 projetos complementares para a obra. A fachada, que fica em área tombada, não pode ser mexida, mas “o interior do edifício vai ser todo modificado”.
O plano inclui reabertura parcial até o primeiro semestre do ano que vem, “mais para o final do semestre”. Serão liberados ao público o térreo, que o Sesc pretende transformar em área de convivência e espaço para exposições, e o primeiro andar, onde funcionará um café. A previsão é que o prédio será totalmente liberado entre 2030 e 2031. O nome já foi escolhido: Sesc Galeria. Uma homenagem às várias galerias que existem no Centro Histórico de São Paulo, além de reforçar o objetivo de tornar o térreo do antigo Mappin uma área de circulação, com suas três entradas – a principal, na própria praça Ramos, em frente ao Theatro Municipal (inaugurado e 1911), e as laterais, das ruas Xavier de Toledo (ao lado do Shopping Light, cujo prédio é de 1929) e Conselheiro Crispiniano.
SHOWROOM – O Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, hoje no bairro da Bela Vista, será instalado no Sesc Galeria e ampliado. No segundo andar, está previsto um restaurante com capacidade para servir até mil refeições por dia. Do Belenzinho, na Zona Leste, virá a editora. Os planos incluem auditório para 150 pessoas, claraboia com jardim interno e a criação do Centro de Referência de Turismo Social. “A ideia é que este local seja um grande showroom do que o Sesc faz”, disse o gerente. Na prática, a instituição já tem feito atividades por ali, em parcerias com o Theatro Municipal, o Shopping Light e o Sindicato dos Comerciários, além do Centro de Memória do Circo, que funciona nas proximidades. Atenção especial será dada ao térreo, onde ficavam as vitrines que eram outra marca registrada do Mappin. “Elas conversam diretamente com o comércio.”
Na inauguração da Mappin Stores, em novembro de 1913, na rua 15 de Novembro, havia vitrines de cristal. O nome, ou melhor, sobrenome, vem dos irmãos ingleses Walter John e Herbert Joseph, que trouxeram a loja para o Brasil – a original é de 1775. No início, mais voltada para um público maior poder aquisitivo, com seus produtos de porcelana, desfiles de moda e serviço de chá. Em 1919, o Mappin mudou para a praça do Patriarca. Naquela loja, colocou etiquetas com preços nos produtos e criou um sistema de pagamento parcelado – foi uma das empresas precursoras do crediário, o que já indicava mudança no perfil do público. Nos anos 1950, a loja foi vendida para o empresário do café Alberto Alves Filho. Manteve o nome, com a razão social de Casa Anglo Brasileira. A mudança para a praça Ramos ocorrera em 1939, depois de três anos de obras.
O local do apogeu e da queda – em 1983, por exemplo, a revista Exame elegeu o Mappin como a empresa do ano. “Nós descobrimos no início (de 1999) que alguma coisa não estava bem”, disse o presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, Ricardo Patah, à época secretário-geral da entidade. Ele lembra que o Mappin não estava repassando as mensalidades dos associados. Apesar do final nem um pouco feliz, Patah acredita que o episódio serviu de exemplo, inclusive, para a criação de um novo código de recuperação judicial (Lei 11.101, de 2005). “Todos [os funcionários] receberam suas verbas, com multa. Conseguimos um resultado exemplar.” O último pagamento (R$ 2,3 milhões), para um grupo de quase 60 ex-empregados, foi feito em janeiro de 2022. O Mappin chegou a ter 10 mil funcionários. Quando fechou, tinha de 4,5 mil a 5 mil.
Até 1997, o noticiário falava em “momento da virada” e que o pior momento do Mappin havia passado. No ano anterior (prejuízo de R$ 20 milhões, ou aproximadamente R$ 110 milhões em valores atuais), o empresário Ricardo Mansur assumiu o controle acionário do Mappin, então sob comando da empresária Sônia Cosette Alves (que havia herdado a empresa em 1982, após a morte do marido, Alves Filho), e pretendia abrir uma rede de franquias. Mansur também adquiriu a Mesbla, outra conhecida loja de departamentos – coincidentemente, desde agosto de 2017 há uma unidade do Sesc (24 de Maio) onde funcionava uma unidade da loja de departamentos. E o Crefisul, que ainda em 1999 teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central. Dois anos depois, Mansur foi condenado por gestão temerária de instituição financeira (Mappin Previdência Privada) e por gestão fraudulenta (Crefisul). Até os anos 1990, o Mappin só havia crescido. Adquiriu lojas da Sears e a Mesbla. Mas as dívidas também cresceram, e o estoque das lojas passou a ficar desfalcado, porque os fornecedores não entregavam mais as mercadorias, devido aos atrasos no pagamento. Em abril de 1999, Mansur contratou o executivo José Paulo Ferraz do Amaral, com a missão de recuperar o Mappin. Ao assumir, disse que as empresas estavam descapitalizadas, mas descartou demissões – informou na ocasião que Mappin e Mesbla haviam cortado 32% da mão de obra entre 1997 e 1998. “Qualquer avaliação neste momento é superficial. O que é certo é que temos de ser rápidos”, afirmou. Ferraz do Amaral integra hoje o Conselho de Administração da Multiplan, com mandato até agosto de 2026.
Em entrevista a Matinas Suzuki Jr., então editor-executivo da Folha de S.Paulo, em agosto de 1996, Cosette Alves disse ter cumprido o seu papel, após um período difícil da economia, com estagnação econômica, inflação elevada e altas taxas de juros. “Nesse período, o Mappin aumentou de 23 mil para 95 mil m² de área de venda. O Mappin triplicou as suas vendas de 82 para cá e passou, em 95, de US$ 1 bilhão de faturamento.” Agora, acrescentou, era necessário reestruturar a companhia, missão que caberia a Mansur. “A reestruturação do Mappin foi planejada para ser acompanhada de um processo de expansão muito forte e muito intenso. Sem a expansão, a reestruturação seria muito desumana.” Segundo a empresária, com a estabilização trazida pelo Plano Real (1994), “o olhar do investidor ficou focado na área de varejo e de crédito ao consumidor”. Mudanças que atingiam todo o setor. “As lojas têm de encontrar um nicho. Elas precisam ter um projeto estratégico, precisam ser focadas”, disse Cosette Alves. “O varejo é e será muito competitivo. Para quem não estiver muito estruturado, informatizado e com um projeto será muito difícil.”
Depois do fechamento do Mappin, a loja da praça Ramos foi usada pela rede Extra (Grupo Pão de Açúcar) e, principalmente, pela Casas Bahia, que ficou lá durante quase 20 anos, até 2023, o ano da venda para o Sesc – algumas marcas da varejista ainda estão nas paredes. O edifício pertencia à São Carlos Participações, formada por integrantes das famílias controladoras da Lojas Americanas. Vive a expectativa da reabertura. Do prédio original, que passou por muitas transformações, ficará apenas o relógio mecânico, instalado na área externa. Fabricado pela Michelini – empresa brasileira que funcionou durante seis décadas, até 1969 – o relógio chegou ao Mappin em 1920, ainda na praça do Patriarca. E é mantido pela mesma família desde 1982 – Augusto César Sampaio Fiorelli foi trabalhar com em 1976 com o avô, também Augusto. Ambos especializados em mecanismos complexos. Augusto neto, 65 anos (seu avô morreu em 2008, aos 95 anos), tem de ajustar o relógio do antigo Mappin de cinco em cinco dias. É um sistema de contrapeso – quando chega ao nível do chão, é preciso puxá-lo com uma carretilha novamente para cima (80 quilos). “Tem muitos [do mesmo modelo] nas igrejas do interior de São Paulo”, disse Augusto, habituado a fazer a manutenção de relógios antigos como os da estação da Luz , em Paranapiacaba e em Santos, além do da Faculdade de Direito da USP. Para um prédio icônico como o que abrigava o Mappin e agora terá nova unidade do Sesc, não há imagem que marque melhor a passagem do tempo.
Loja também contava com escadas rolantes para agilizar fluxo de clientes
Ascensoristas anunciavam mercadorias oferecidas em cada andar
Marca azul nas colunas lembra período da Casas Bahia, que saiu em 2023
Relógio fabricado pela Michelini é ajustado a cada cinco dias
Primeiro andar terá café e o segundo, restaurante