Brasil fecha 2025 com 72,96 milhões de negativados e entra em 2026 preso a um resiliente ciclo de endividamento

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Dívida média do brasileiro ao final de 2025 soma R$ 4.781,98, segundo a CNDL
(Freepik)
  • Taxa de reincidência chega a 83,78% e preocupa CNDL e SPC Brasil, que estimam um início de ano complicado para obtenção de crédito
  • Recuperação de crédito recua 7,60% em 12 meses, enquanto bancos concentram 65,24% das dívidas e seguirão pressionando o varejista em 2026
Por Pedro Jansen

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O Brasil encerrou novembro de 2025 com 72,96 milhões de adultos negativados, o equivalente a 43,74% da população nessa faixa, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). O contingente representa crescimento de 8,93% na comparação anual e revela agravamento consistente do quadro de inadimplência. Oito em cada dez consumidores que entraram na inadimplência no mês são reincidentes. Os números da CNDL/SPC Brasil mostram que 83,78% das negativações de novembro se referem a devedores que já tinham passado pelos cadastros restritivos nos 12 meses anteriores, enquanto 63,78% desse grupo mantêm dívidas antigas e acumulam novas pendências. O momento, segundo Roque Pellizzaro Júnior, presidente do SPC Brasil, é de atenção com a capacidade de compra do consumidor em 2026. “Os números da inadimplência continuam a nos preocupar, especialmente a alta taxa de reincidência.”

Em novembro de 2025, cada consumidor negativado devia, em média, R$ 4.781,98 na soma de todas as dívidas, distribuídas entre 2,23 empresas credoras. Quase três em cada dez inadimplentes (30,95%) têm pendências de até R$ 500, percentual que sobe para 43,97% quando se consideram dívidas de até R$ 1.000, mostrando que valores relativamente modestos permanecem em aberto por falta de folga financeira. No recorte por tipo de credor, os bancos concentram 65,24% das dívidas em atraso, à frente de contas de água e luz (10,79%) e do comércio (9,19%), o que revela sistema financeiro no centro do ciclo de inadimplência, ao mesmo tempo beneficiado por juros altos e pressionado por provisões crescentes.

CICLO VICIOSO – O indicador de reincidência mostra que o intervalo médio entre o vencimento de uma dívida e o surgimento de novas pendências para esse grupo é de 74,4 dias, cerca de dois meses e meio, de acordo a pesquisa divulgada pela CNDL e SPC Brasil. O período equivale a viver em permanente rodízio entre contas atrasadas e novas obrigações que vencem antes de qualquer recomposição consistente do orçamento. A alta anual de devedores é puxada por dívidas antigas, com atraso entre quatro e cinco anos crescendo 30,12%, enquanto a recuperação nessa faixa cai 23,03%, sinal de que essas contas não prescrevem nem são quitadas.

Escolhas do Editor

No pano de fundo desse ciclo está um Brasil que fechou 2025 com taxa Selic em 15% ao ano, mantida pelo Banco Central em patamar restritivo. Nas linhas mais usadas pela população, o quadro é ainda mais severo: o juro médio do cartão de crédito rotativo supera 430% ao ano, em média, enquanto o custo combinado do rotativo com o parcelado permanece próximo de 90% ao ano, segundo dados do Banco Central. Segundo José César da Costa, presidente da CNDL, a situação em que o consumidor entra em 2026 tira do cidadão acesso às linhas mais baratas e ficam presos às modalidades mais onerosas, como as do cartão de crédito, o que eleva a inadimplência bancária e empurra parte das famílias para moratória informal prolongada.

O valor médio pago por consumidores que conseguiram limpar o nome em novembro, R$ 2.741,31, fica bem abaixo da dívida média de R$ 4.781,98, mostram números compilados pela CNDL e pelo SPC Brasil. O gap estrutural mantém saldo remanescente e favorece novo atraso, principalmente quando imprevistos de saúde, moradia ou trabalho surgem em orçamentos já comprometidos. No contexto macroeconômico, para este ano, é esperado pelo BC que a taxa de juros encerre termine dezembro em 12,25%, uma queda moderada e menos acelerada do que esperam os varejistas, inclusive a CNDL. Segundo Costa, apesar da inflação sob controle e a taxa de desemprego em baixos patamares, a persistência da Selic em dois dígitos por ciclos tão longos limita a recuperação do varejo e a expansão do consumo. “O consumidor brasileiro utiliza o crédito principalmente para sobrevivência”, disse.

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Os números da inadimplência continuam a nos preocupar, especialmente a alta taxa de reincidência

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Roque Pellizzaro Júnior, SPC Brasil
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