SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A apreensão de um caminhão que transportava produto químico altamente tóxico foi o estopim para uma das investigações que resultaram na megaoperação Carbono Oculto, deflagrada na quinta-feira (28), contra a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no mercado financeiro.
A partir da abordagem ao veículo, a investigação encontrou uma fraude nos documentos de transporte e chegou a um ponto central para o funcionamento do esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital): a BK Instituição de Pagamento, também conhecida como BK Bank, fintech que atuaria como banco paralelo da organização.
O Ministério Público de São Paulo descobriu que essa investigação tinha coincidências com outros inquéritos abertos nos últimos anos. Três procedimentos de investigação paralelos foram abertos, por grupos diferentes do MPSP, para apurar núcleos do mesmo esquema criminoso. Os promotores passaram a colaborar a partir do momento que descobriram as coincidências.
No dia 14 de maio de 2023, agentes da PRF (Polícia Rodoviária Federal) abordaram um caminhão-tanque que transportava metanol na rodovia Presidente Dutra, em Guarulhos. O metanol é um solvente industrial e matéria-prima da produção de formol, inflamável e tóxico, mas tem características de combustível. Transportá-lo sem a devida autorização é crime e um risco à segurança nas estradas.
A origem do produto era o porto de Paranaguá (PR) e o destino, informado nos documentos apresentados à fiscalização, era o Mato Grosso. Não fazia sentido, portanto, que o caminhão estivesse trafegando na região metropolitana de São Paulo.
Com autorização judicial para quebra do sigilo telefônico de celulares, a Polícia Federal começou a encontrar indícios de desvio sistemático do metanol. Em vez de ser levado às indústrias químicas que apareciam nos documentos como compradoras, o produto era usado para adulterar combustíveis diretamente nos postos de gasolina.
Isso se comprovou por meio das conversas que os investigados mantinham por telefone. Um carregamento de metanol que tinha como destino oficial uma usina no município de Primavera do Leste (MT), por exemplo, acabou em autoposto na região do Bixiga, no centro da cidade de São Paulo, apontou a investigação.
Decisão judicial da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens da capital aponta que, conforme as normas da ANP (Agência Nacional do Petróleo), o percentual máximo de metanol para o combustível comercializado em todo o país é de 0.5%. No entanto, a investigação chegou a encontrar até 50% de metanol na composição da gasolina nos postos de um dos núcleos de organização criminosa identificados.
“Foi estimado pela Polícia Federal o desvio de mais de 10 milhões de litros de metanol para o emprego irregular em postos de combustíveis, havendo indícios de participação e chancela de distribuidoras de combustíveis”, registra a decisão judicial. A PF fala em “faturamento milionário” em decorrência da adulteração do combustível.
Praticamente todos os pagamentos entre os investigados por desvio de metanol eram feitos por contas do BK Bank. Havia transações entre contas da mesma fintech, e também saindo da BK para contas bancárias de intermediários em outras instituições.
Segundo a Receita Federal, a fintech atuaria como banco paralelo da organização e teria movimentado sozinha R$ 46 bilhões não rastreáveis de 2020 a 2024. Abarcando um período maior, a apuração da PF, por sua vez, afirma ter identificado R$ 68,9 milhões movimentados em contas na BK Bank entre janeiro de 2020 e agosto de 2025.
A reportagem não localizou os responsáveis pela empresa até a publicação deste texto.
Durante entrevista coletiva nesta quinta, o promotor João Paulo Gabriel, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), afirmou que a adulteração de combustíveis e outras fraudes no setor não se resumem mais, como se acreditava no passado, aos postos de bandeira branca, não associados a nenhuma grande marca.
“Tem [fraude] em postos de grandes redes. Isso [da bandeira branca] é passado. Não é mais necessariamente de bandeira branca. O negócio deles é fraudar, não importa como”, afirma.
Empresas do setor de combustíveis são um dos alvos da operação iniciada nesta quinta-feira (28), quando 1.400 agentes cumpriram mandados de busca, apreensão e prisão em companhias também do mercado financeiro que têm atuação nesse segmento e são utilizadas pelo PCC. A meta é desarticular a infiltração do crime organizado em negócios regulares da economia formal.
Foram mais de 350 alvos, pessoas físicas e jurídicas suspeitas de crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato. Os agentes foram a campo em oito estados -São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.
Apurou-se que a organização criminosa trabalha com metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol. Controla elos da estrutura portuária, a formulação e o refino. Tem frota para transporte e distribuição, postos de abastecimento e, inclusive, loja de conveniência.