Um tesouro centenário e esquecido no Centro histórico de São Paulo vai reabrir após 80 anos

Uma image de notas de 20 reais
Allan Ruiz diz que, com as obras, seu plano é que as pessoas possam ver a "ação do tempo"
(Andre Lessa/Agência DC News)
  • Palacete projetado em 1916, que durante duas décadas foi hospital e desde 1939 sem uso contínuo, pode se transformar em centro cultural
  • Para empreendedor, região central de São Paulo vive um "boom silencioso". Por isso, "este é o momento de comprar"
Por Vitor Nuzzi

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Quem anda pela rua Roberto Simonsen, no sentido da praça da Sé para o Pátio do Colégio, no Centro histórico de São Paulo, em geral olha para a direita, onde estão a Casa nº 1 e o Solar da Marquesa de Santos, além do Beco do Pinto, antiga passagem para a várzea do rio Tamanduateí. O administrador de empresas Allan Ruiz, 48 anos, senso de farejador imobiliário, olhou para a esquerda. Viu um conjunto de prédios. Havia saído de casa para avaliar dois imóveis vizinhos, para um possível projeto de retrofit – como eram imóveis interligados, teve acesso a um palacete de, soube depois, 107 anos.

Já era final de tarde, e no primeiro andar a luz atravessava os vitrais. Allan percorreu as ruínas – “Um esqueleto de tijolo e concreto”, definiu –, pesquisou e começou a projetar. Procurou o proprietário, que havia adquirido o imóvel cinco anos antes. Tinha sido da Caixa Econômica Federal, que tem outros seis ali, além da própria Caixa Cultural, na Sé. “Este é o primeiro que comprei pra mim”, disse. Acostumado em trabalhar em imóveis dos outros, agora tem um palacete para cuidar. Seu plano, de longo prazo, é criar um espaço cultural.

Nascido em Santo André, região do ABC paulista, Allan mora há sete anos na capital, perto da Câmara Municipal. “Vendi meu carro. Faço tudo a pé.” Especializou-se em mapear prédios na região. Encontrou 350, totalmente desocupados ou com ocupação abaixo de 30%. E aposta na região central para investir – para quem tem coragem de arriscar. Ele usa a expressão “boom silencioso” para o processo que acontece nessa área, que nos últimos anos tem sido alvo de esforços no sentido da revitalização e passou a representar uma oportunidade de investimento. “É o momento de comprar a preços muito bons e conseguir um bom retorno. É nisso que eu acredito.” Considera exagero ou desconhecimento o medo que algumas pessoas têm do Centro histórico de São Paulo. “Assusta pelo senso comum. Acho que é muito mais a sensação do que a falta de segurança de fato.” De tanto farejar imóveis para projetos de retrofit, “enxergar potencial no caos virou instinto”.

RETROFIT – Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), atualmente há 49 edifícios em processo de requalificação urbana. Trinta aprovados pelo programa Requalifica Centro (Lei 17.577/2021) e 31 credenciados no Programa de Subvenção Econômica (Decreto 62.878/2023) – 12 estão incluídos em ambos. As iniciativas totalizam 5,2 mil moradias. Até agora, 13 edifícios tiveram as obras concluídas. (Confira o mapa aqui). Esses programas integram a chamada Área de Intervenção Urbana (AIU) do Setor Central, incluindo incentivos que têm como meta “atrair até 220 mil novos moradores para a região”. 

Antigo elevador desativado: prédio sediou hospital de 1919 a 1939
(Andre Lessa/Agência DC News)

Allan – que já vendeu fábrica, fazenda, área de mineração, apartamento – acredita que as mudanças do Centro histórico são questão de planejamento. Lembra de seu primeiro projeto, na rua Líbero Badaró, um prédio com 45 apartamentos. “Foram décadas de ocupação abaixo de 30%. Foi transformar em residência que a gente ocupou em cinco meses.” O palacete da Roberto Simonsen, praticamente em frente ao Solar da Marquesa, vai exigir tempo. Projetado em 1916 e inaugurado em 1919, o imóvel teve uso contínuo, como hospital (Policlínica) até 1939, quando passou para o patrimônio da Caixa. A partir daí, foi utilizado apenas ocasionalmente, para eventos – de baladas a vídeos e festas de celebridades. Nessas oito décadas, teve apenas a fachada restaurada, em 2003, com uma lei que garantia isenção de IPTU por dez anos. Os vitrais da fachada chamaram imediatamente a atenção de Allan.

Atraído pela beleza arquitetônica, ao pesquisar sobre o prédio que estava adquirindo no centro histórico, ele deparou com uma surpresa histórica. Que começou pela curiosidade sobre um tijolo encontrado no local. Para saber mais, chegou à Tijoloteca, que cataloga objetos vindos de coleções arqueológicas. Mirou no tijolo, acertou na história: conversando com a coordenadora do projeto, Angélica Moreira, descobriu que ela não apenas conhecia o prédio, como seu trabalho de historiadora levou à descoberta de que o projeto era do arquiteto Ramos de Azevedo. Confirmou oficialmente a informação em meados de março, quando foi ao Arquivo Histórico Municipal de São Paulo. “Olhar para um projeto de 110 anos dentro de um prédio que passou 85 anos abandonado é um choque de realidade”, disse Allan em suas redes sociais. De volta ao seu local de trabalho, entre paredes centenárias, paredes descascadas, um enorme elevador desativado no centro do edifício, escadas com variados graus de conservação, ele tenta “encaixar as linhas perfeitas do papel na alvenaria em ruínas de hoje”. As cópias das plantas desenhadas pelo arquiteto são seu mapa do tesouro, entre o que ele chama de “poesia geométrica” e “cicatrizes do tempo”.

Vitrais no salão principal: apenas a fachada passou por restauração
(Andre Lessa/Agência DC News)

“O tempo agiu em silêncio, descascando a tinta e consumindo o prédio”, disse Allan. Ele mostra detalhes das instalações. Não cansa de subir e descer. Aponta uma marca de mão de criança em uma parede – avança pelas escadas, olha para o antigo elevador desativado. Caminha até o amplo salão que dá saída para a rua Venceslau Brás. “A única coisa que me deixou revoltado foi terem pintado esta parede”, afirmou, em um ambiente logo na entrada, à esquerda, totalmente marrom. Não é apenas a cor: a pintura “moderna” esconde tijolos e mais histórias.

Ele tem planos para seu palacete próximo ao Marco Zero de São Paulo. “O prédio sobreviveu a 110 anos de história esperando alguém destrancar essa porta.” Mas, sem recursos e endividado após adquirir o imóvel, só poderá viabilizar seus projetos captando recursos por meio de leis de incentivo. Por isso, começou a contar a história em sua página no Instagram, buscando atrair interessados e potenciais investidores. Depois que começou a detalhar a trajetória do palacete, saltou de 400 para 18,7 mil seguidores. Pretende criar ali um espaço cultural. Talvez integrado a outros dois imóveis, vizinhos, recentemente comprados. “Esse é o plano. Agregar com esse conjunto que já existe”, disse, citando atrações como a Caixa Cultural, o Edifício Rolim, o Solar, o Museu das Favelas e a Casa nº 1. Outra certeza: que o restauro seja parcial. “Para que as pessoas vejam a ação do tempo”.

Centro Histórico
Allan planeja erguer uma área cultural integrada a empreendimentos vizinhos
(Andre Lessa/Agência DC News)

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