[AGÊNCIA DC NEWS]. Apesar da “ligeira trégua” da inflação (IPCA) em junho, os preços continuam em “patamar desconfortável”, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A entidade projeta que a inflação oficial fechará o ano em 4,4%, perto do teto da meta e abaixo do IPCA de 2024 (4,83%). A estimativa é inferior à do boletim Focus, do Banco Central, divulgada na segunda-feira (14): 5,17%, em queda há sete semanas. Segundo o economista da CNC João Vitor Gonçalves, a projeção da entidade para a inflação subirá após uma revisão interna de modelo metodológico, já em andamento. Para a CNC, o cenário ficou mais “nebuloso” depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifa adicional de 50% sobre produtos brasileiros. Fator que se soma à inflação ainda alta e pressão dos custos para consumidores e empresários.
“O efeito da nova rodada de tarifas volta a trazer incertezas para o cenário inflacionário”, afirmou o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes. Para ele, se por um lado o aumento do dólar favorece a alta de custos, a dificuldade de exportar para os Estados Unidos pode redirecionar parte da produção ao mercado interno, suavizando alguns preços. Ainda assim, a leitura da entidade é que um possível excedente doméstico não será suficiente para compensar o choque cambial, já que a combinação de real mais fraco, serviços ainda pressionados e energia elétrica em alta “mantém o poder de compra apertado e limita espaço para uma recuperação mais firme do consumo.”
O dólar tem desvalorização durante o ano, mas voltou a subir após o anúncio do tarifaço, o que para a CNC pode ter impacto sobre o IPCA neste segundo semestre. Apenas nesta segunda, a alta foi de 0,65%, levando o dólar a R$ 5,58, maior valor em 40 dias. Segundo João Vitor Gonçalves, esse impacto ainda é difícil de mensurar – mesmo porque não se sabe se o tarifaço será mantido. “A inflação responde três a quatro meses após a variação do câmbio”, disse. No Focus, a estimativa para o câmbio está em R$ 5,65.
Segundo o IBGE, apenas o item energia elétrica residencial subiu 2,96% em junho, com vigência da bandeira tarifária vermelha patamar 1. Foi o item de maior impacto individual no mês (0,12 ponto percentual). O IPCA variou 0,24%. No primeiro semestre, a energia aumentou 6,93% – maior variação para o período desde 2018 (8,02%).
Em 12 meses, a inflação oficial está acumulada em 5,35%. “A ligeira trégua de junho não muda a avaliação da CNC de que os preços continuam em patamar desconfortável para as famílias e para o setor terciário”, afirmou a entidade. “O núcleo de serviços, indicador sensível à renda, subiu para 6,2% em 12 meses, mostrando que as pressões internas não cederam na velocidade desejada.” A confederação projeta inflação praticamente estável em julho (0,03%) e 4,4% para o ano. A taxa básica de juros (Selic) deve permanecer em 15% ao ano até dezembro. “O Banco Central não encontrará espaço seguro para cortes enquanto os núcleos de inflação não cederem de forma consistente”, disse Bentes. Ainda que parte da produção seja direcionada ao mercado interno, a renda real “comprimida”, crédito caro e inflação de serviços continuam “exigindo cautela do setor terciário”.