SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Centenas de barcos devem zarpar de Barcelona neste domingo (31) rumo à Gaza, no mais novo esforço de ativistas para furar o bloqueio israelense e levar ajuda humanitária ao território. A mobilização é da Flotilla Global Sumud, batizada com a palavra que, em árabe, significa resiliência e se tornou um termo de conotação política ligado ao movimento palestino contra Tel Aviv.
A ativista sueca Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila, que foram presos por forças israelenses na empreitada anterior do grupo, vão participar de novo. A vereadora Mariana Conti (PSOL), de Campinas, é outra na lista dos ao menos 13 brasileiros confirmados para embarcar.
Os organizadores afirmam que a ação reunirá participantes de 44 países diferentes, incluindo políticos europeus. A expectativa do movimento é de reunir cerca de 700 pessoas. Antes da saída da flotilha, prevista para a manhã de domingo, haverá discursos e uma série de atividades, como shows e oficinas, que começam a partir desta sexta (29).
Os barcos zarpam de Barcelona e vão passar por mais outros três portos no mar Mediterrâneo, mas sem paradas previstas. A ideia é que, em cada um desses pontos, mais embarcações se juntem à flotilha.
O roteiro inclui Túnis, capital da Tunísia, com passagem prevista para a próxima quinta (4). As outras duas localidades ainda não foram divulgadas. A Global Sumud espera mobilizar, no total, 80 embarcações.
Elas levarão itens como alimentos não perecíveis, filtros para água, medicamentos, próteses e fórmulas infantis. Os organizadores não divulgam a quantidade total, mas dizem que todas as embarcações vão carregar ajuda.
Em relação ao financiamento, a Global Sumud afirma que é uma iniciativa independente da sociedade civil e que sobrevive por meio de doações de pessoas físicas e jurídicas. A organização não divulgou os custos da viagem nem quem seriam os principais doadores.
À Folha o major Rafael Rozenszajn, um dos porta-vozes das Forças de Defesa de Israel, afirma que o Exército não permitirá que ninguém fure o bloqueio naval imposto sobre o litoral de Gaza.
“Israel está preparado, está determinado a fazer o que for necessário para garantir que os objetivos da guerra sejam alcançados e para garantir que as instruções do governo de Israel sejam colocadas em prática”, diz o militar.
“Então, as IDF [Forças Armadas] vão estar preparadas também para garantir que o bloqueio seja aplicado de uma forma absoluta na Faixa de Gaza.”
Em maio, uma primeira tentativa de levar ajuda a Gaza foi interceptada pela Marinha israelense. A missão levava 12 ativistas, incluindo Greta, Ávila e a eurodeputada franco-palestina Rima Hassan.
O brasileiro ficou preso por cinco dias, isolado em solitária e, segundo sua família, sob maus-tratos. Após intervenção do Itamaraty, acabou sendo expulso do país.
Em 2010, uma flotilha de sete embarcações, incluindo a turca Mavi Marmara, foi atacada por Israel nove pessoas morreram e 50 ficaram feridas. Na época, Tel Aviv disse ter agido em defesa própria.
A ida da flotilha ocorre dias após todos os membros do Conselho de Segurança da ONU, exceto os Estados Unidos, afirmarem que a fome em Gaza é fruto de “ação humana”. Israel está sob pressão da comunidade internacional devido à tragédia humanitária dentro do território.
Na semana passada, a ONU declarou oficialmente um cenário de fome no território, após meses de alertas de especialistas e da própria organização de que 500 mil pessoas estavam em uma situação humanitária catastrófica.
Rafael Rozenszajn reforça o discurso do governo de Binyamin Netanyahu de que a tragédia humanitária é causada por Hamas e nega que Tel Aviv tenha uma “política da fome”. “Olha, tem pessoas passando fome na Faixa de Gaza. Isso é uma lástima, é uma tragédia”, afirma o general, que faz uma comparação com o Brasil.
“Tem pessoas passando fome em Gaza. Tem também pessoas passando fome, infelizmente, no Brasil. Isso não quer dizer que o governo brasileiro causa propositalmente fome por essas razões. O fato de ter pessoas passando fome em Gaza não quer dizer que Israel causa propositalmente [a fome].”