Comitê vê deterioração adicional no cenário de inflação; ata confirma que decisão foi unânime (amplia)

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

São Paulo, 17 de dezembro de 2024 O Comitê de Política Monetária (Copom) avaliou que houve umadeterioração adicional no cenário de inflação, como refletido nas expectativas e projeções deinflação. A informação faz parte da ata da mais recente reunião do Copom, realizada nos dias 10e 11 de dezembro.

“Concluiu-se que os determinantes de prazo mais curto, como a taxa de câmbio e a inflaçãocorrente, e os determinantes de médio prazo, como o hiato do produto e as expectativas deinflação, se deterioraram de forma relevante”, explica a ata. “Tal piora demanda uma políticamonetária ainda mais contracionista”.

O Comitê então decidiu, unanimemente, pela elevação de 1,00 ponto percentual na taxa Selic epela comunicação de que, em se confirmando o cenário esperado, antevê ajuste de mesma magnitudenas próximas duas reuniões. Na discussão que embasou tal deliberação duas dimensões forambastante discutidas.

Em primeiro lugar, a magnitude da deterioração de curto e médio prazo do cenário de inflaçãoexigia uma postura mais tempestiva para manter o firme compromisso de convergência da inflação àmeta.

Em segundo, vários riscos se materializaram tornando o cenário mais adverso, mas menos incerto,permitindo maior visibilidade para que o Comitê oferecesse uma indicação de como antevia aspróximas decisões.

“A magnitude total do ciclo de aperto monetário será ditada pelo firme compromisso deconvergência da inflação à meta e dependerá da evolução da dinâmica da inflação, emespecial dos componentes mais sensíveis à atividade econômica e à política monetária, dasprojeções de inflação, das expectativas de inflação, do hiato do produto e do balanço deriscos”, completa.

Em função da materialização de riscos, o Comitê avalia que o cenário se mostra menos incerto emais adverso do que na reunião anterior. Riscos à alta da inflação, tais como a resiliência dainflação de serviços, a desancoragem das expectativas e a depreciação cambial sematerializaram. “Assim, um cenário que até então se mostrava bastante incerto tornou-se maisadverso”.

Taxa Neutra

O Comitê debateu as estimativas sobre a taxa neutra de juros que seriam utilizadas como hipótesepara as projeções. A taxa neutra é uma variável não observável, sujeita a grande incerteza naestimação. Em função da incerteza intrínseca e da própria natureza da variável, o Comitêreforçou que a taxa neutra não é uma variável que deve ser atualizada em frequência alta e quetampouco deveria ter movimentos abruptos, salvo em casos excepcionais. Nesse contexto, o Comitêelevou a taxa de juros real neutra em seus modelos de 4,75% para 5,00% a.a. e seguirá avaliandoessa hipótese.

Inflação

O cenário prospectivo de inflação mostra-se mais desafiador em diversas dimensões. O Comitêanalisou inicialmente a atividade econômica, a demanda agregada, as expectativas de inflação, ainflação corrente e o cenário internacional. Em seguida, discutiu as projeções e expectativasde inflação para então deliberar sobre a decisão corrente e comunicação futura.

Analisando o período corrente de atividade econômica, persiste um cenário de atividade resilientecom dinamismo maior do que esperado, como evidenciado na divulgação do PIB do terceiro trimestre,levando a nova reavaliação de um hiato mais positivo. O mercado de trabalho também segueaquecido, com aumento da população ocupada, queda da taxa de desemprego e aumento daformalização de postos. Observa-se, no entanto, alguma moderação no ritmo de crescimento desalários nas diferentes pesquisas, mas ainda em níveis elevados.

“A conjunção de um mercado de trabalho robusto, política fiscal expansionista e vigor nasconcessões de crédito amplo segue indicando um suporte ao consumo e consequentemente à demandaagregada”, completa a ata.

No entanto, para a atividade futura, há elementos que sugerem uma desaceleração, tal como o maioraperto das condições financeiras. De todo modo, o Comitê ressalta que a economia tem surpreendidoe apresentado notável resiliência. O Comitê acompanhará tal processo, entendendo que a reduçãodo hiato previsto em suas projeções é inerente ao funcionamento ordenado dos mecanismos detransmissão e ao atingimento da meta de inflação.

“Além da incerteza sobre o processo da desaceleração, persiste o debate se a desaceleraçãoprevista se daria por uma restrição dos fatores de produção ou por uma queda de demanda, comimpactos muito distintos sobre o processo inflacionário”.

O cenário de inflação de curto prazo se deteriorou. “Os preços de alimentos se elevaram de formasignificativa, em função, dentre outros fatores, da estiagem observada ao longo do ano e daelevação de preços de carnes, também afetada pelo ciclo do boi”.

Persiste, no entanto, uma assimetria altista no balanço de riscos para os cenários prospectivospara a inflação. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas deinflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período maisprolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função deum hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa einterna que tenham impacto inflacionário, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbiopersistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma desaceleração daatividade econômica global mais acentuada do que a projetada; e (ii) os impactos do apertomonetário sobre a desinflação global se mostrarem mais fortes do que o esperado.

Câmbio

As condições financeiras e a taxa de câmbio passaram por forte alteração no período maisrecente. A conjunção de uma taxa de câmbio mais depreciada com a elevação das curvas de jurosnominal e real torna o ambiente mais complexo. Lembrou-se que o repasse do câmbio para os preçosaumenta quando a demanda está mais forte, as expectativas estão desancoradas ou o movimentocambial é considerado mais persistente. Desse modo, o Comitê deve acompanhar de forma mais detidacomo se dará a transmissão da taxa de câmbio e das condições financeiras para preços eatividade.

Com relação à política econômica de forma mais geral, o Comitê manteve a firme convicção deque as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, desaceleraçõessão parte essencial do processo de suavização e reequilíbrio da economia. O debate do Comitêevidenciou, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas.

Fiscal

A percepção dos agentes econômicos sobre o recente anúncio fiscal afetou, de forma relevante, ospreços de ativos e as expectativas dos agentes, especialmente o prêmio de risco, as expectativasde inflação e a taxa de câmbio. De fato, as expectativas de inflação, medidas por diferentesinstrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, elevaram-se em todos os prazos, indicandodesancoragem adicional. Nota-se que tanto o prêmio de inflação extraído dos instrumentosfinanceiros quanto as expectativas de inflação se elevaram no período, tornando o cenário deinflação mais adverso e requerendo uma política monetária mais contracionista. A desancoragemdas expectativas de inflação é um fator de desconforto comum a todos os membros do Comitê e deveser combatida.Inflação

O Comitê reforçou a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplinafiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívidapública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletériossobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação emtermos de atividade.

Cenário externo

O cenário externo se mantém desafiador, com incertezas econômicas e geopolíticas relevantes. Comrelação aos Estados Unidos, permanece a incerteza sobre o ritmo da desinflação e dadesaceleração da atividade econômica. Em paralelo, a possibilidade de mudanças na condução dapolítica econômica também traz adicional incerteza ao cenário, particularmente com possíveisestímulos fiscais, restrições na oferta de trabalho e introdução de tarifas à importação.

O cenário-base do Comitê segue sendo de desaceleração gradual e ordenada da economianorte-americana. O Comitê reforçou que o compromisso dos bancos centrais com o atingimento dasmetas é um ingrediente fundamental no processo desinflacionário, corroborado pelas recentesindicações de ciclos cautelosos de distensão monetária em vários países. Como usual, o Comitêfocará nos mecanismos de transmissão da conjuntura externa sobre a dinâmica inflacionáriainterna e seu impacto sobre o cenário prospectivo. Reforçou-se, ademais, que um cenário de maiorincerteza global e de movimentos cambiais mais abruptos exige maior cautela na condução dapolítica monetária doméstica.

Dylan Della Pasqua / Agência Safras News

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