[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O avanço das marcas próprias no Brasil deixou de ser apenas uma resposta ao comportamento do consumidor e passou a ocupar o centro da estratégia financeira do varejo – uma tendência global, aponta relatório da Nielsen. Em especial no atacarejo e no modelo cash & carry, pressionados por margens cada vez mais estreitas, a marca própria surge como a principal – e, em muitos casos, a única – alavanca capaz de recuperar rentabilidade. “Eles tinham margens de 18% [anos 2000]. Hoje, quando conseguem chegar a 8%, já é muito”, afirmou Neide Montesano, presidente da Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (ABMAPRO), em entrevista ao videocast DC NEWS TALKS, da Agência DC NEWS. “A única possibilidade de voltar a pensar em 18% ou 20% é fazendo marca própria.”
A avaliação reflete uma transformação estrutural no varejo brasileiro. De acordo com estimativas da ABMAPRO, operações que desenvolvem marcas próprias de forma madura podem alcançar incrementos de lucratividade de até 20%, dependendo da categoria e do canal. O modelo reduz custos comerciais, elimina despesas de marketing tradicionais e encurta a cadeia entre varejista e fabricante, permitindo preços mais competitivos no ponto de venda e, ao mesmo tempo, margens mais elevadas. “A marca própria não carrega os custos de mídia, de espaço pago na gôndola e de intermediações. Isso muda completamente a equação econômica”, afirmou Neide.
Esse movimento é particularmente relevante no atacarejo, segmento que cresceu em escala, mas perdeu rentabilidade ao longo dos últimos anos. Segundo a presidente da ABMAPRO, a entrada acelerada desses players em marcas próprias não é coincidência. “Agora todos estão entrando, porque perceberam que sem isso não há recuperação de margem. Trabalhar com marca própria e redução de perdas virou sinônimo de melhor lucro”, disse. A ABMAPRO representa hoje 103 associados de diversos setores do varejo e da indústria, incluindo dez grandes players do canal farma, como RD Saúde, Grupo DPSP, Panvel, Pague Menos, Bemol, Farmais e Ultrafarma.
Nesse grupo, o faturamento da categoria avança a taxas de dois dígitos ao ano, impulsionado por estratégias que transformaram marcas próprias em unidades de negócio independentes, com diretoria, marketing e gestão dedicados. No varejo farmacêutico, o segmento deve encerrar o ano com receita recorde, alta de 30%, projeta a entidade. Embora o ganho de margem seja o principal motor dessa expansão, Neide ressalta que o sucesso das marcas próprias está diretamente ligado à capacidade de inovação e à leitura rápida da demanda do consumidor. “Chegará o momento em que não será mais possível desenvolver um produto numa mesa e empurrar para o consumidor”, disse.
“A marca própria cresce porque atende a demanda reprimida de forma muito mais ágil.” Essa velocidade é apontada como diferencial competitivo em um cenário de disrupção constante. “A orientação aos nossos associados é revisar o business plan e os projetos de inovação a cada seis meses.” A lógica também se conecta a um debate mais amplo sobre reinvenção dos negócios. Pesquisa global da PwC aponta que 45% dos CEOs não acreditam que suas empresas sejam viáveis em dez anos se não se reinventarem. Para Neide, a marca própria é um dos modelos mais claros dessa reinvenção no varejo. “Ela permite testar, errar rápido, corrigir e voltar para a gôndola em poucos meses”, disse. “É assim que Europa e Estados Unidos chegaram a níveis de maturidade muito superiores.”
Segundo análise recente publicada pela ABMAPRO sobre as perspectivas para 2026, a tendência é de avanço contínuo das marcas próprias em categorias de maior valor agregado, com foco em inovação, sustentabilidade e posicionamento claro de marca – e não mais apenas em preço. O modelo, que já representa até 40% das vendas em grandes redes internacionais, combina recuperação de margem, fidelização do consumidor e fortalecimento de pequenas e médias indústrias fornecedoras, elevando padrões de qualidade, governança e competitividade.
“Quem ainda não entrou em marca própria está perdendo tempo e dinheiro”, afirmou a executiva. Ela enxerga que é um modelo que melhora a margem do varejo, fortalece a indústria nacional e “entrega produtos honestos, com qualidade e preço justo para o consumidor.” Confira a entrevista.