SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Seis meses após sair do Washington Post, Ruth Marcus ainda fala na primeira pessoa do plural ao se referir à equipe do renomado jornal americano –provavelmente, um efeito colateral dos mais de 40 anos nos quais trabalhou no veículo.
A jornalista entrou no Post aos 26 anos e saiu –ou teve que sair, como ela mesma diz– aos 66, no início de março deste ano. O pedido de demissão ocorreu após o veículo barrar uma coluna dela que criticava a decisão de limitar a seção de opinião, da qual Ruth já havia sido editora adjunta, à defesa de “liberdades individuais e livre mercado”.
O responsável pela mudança foi Jeff Bezos, fundador da Amazon e dono do jornal de quase 150 anos desde 2013. Na ocasião, ele justificou a mudança afirmando que “uma grande parte do sucesso dos Estados Unidos se deve à liberdade no âmbito econômico e em todos os outros lugares”.
O pano de fundo da decisão era o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro. O bilionário, assim como outros magnatas da tecnologia, como Elon Musk, da Tesla, e Mark Zuckerberg, da Meta, estavam em posição de destaque durante a cerimônia de posse.
Em dezembro, quando Trump já era um presidente eleito, Bezos afirmou ao New York Times que o republicano estava “mais calmo do que da primeira vez e mais confiante, mais estável”. Antes disso, em outubro, às vésperas das eleições, o empresário mudou uma conduta adotada pelo jornal desde a década de 1980 e decidiu não apoiar nenhum dos candidatos, cancelando um editorial a favor da democrata Kamala Harris.
“Quando concluí que não poderia mais dizer aos meus leitores que eu tinha permissão para escrever o que acreditava, tive que pedir demissão”, afirma à Folha Ruth, que participará do Festival Piauí de Jornalismo, nos dias 6 e 7 de setembro, em São Paulo.
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*Folha – Depois de 40 anos no Washington Post, como a sra. tem se sentido trabalhando em outro veículo nos últimos meses?*
*Ruth Marcus -* Para ser honesta, estou muito triste por ter deixado o Post. Na verdade, estou muito triste por ter tido que deixá-lo. A instituição que deixei não é a instituição à qual me juntei ou a instituição em que cresci. Mas estou muito honrada e, de certa forma, desafiada por estar na New Yorker, onde estou fazendo coisas um pouco diferentes das que fazia no Post.
*Folha – Olhando retrospectivamente, como vê a decisão da venda do Washington Post a Jeff Bezos?*
*Ruth Marcus -* Eu respeito Don Graham [ex-publisher do Washington Post] mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Acho que ele tomou uma decisão que parecia ser a escolha certa no momento certo. Bezos dizia: “Façam seu trabalho. Escrevam sobre mim. Escrevam sem medo”. Mas, quando o jornal começou a sofrer perdas financeiras e Trump voltou à cena, houve uma mudança notável.
Desde os anos 1970, nossos editoriais apoiam um candidato presidencial. No ano passado, no último minuto, com um endosso de Kamala Harris redigido e pronto para publicar, Bezos decidiu mudar essa conduta e barrar a coluna. Não é uma loucura dizer que os eleitores não precisam do conselho do Washington Post ou do New York Times para decidir em quem votar para presidente, mas isso foi diferente. Era final de outubro, e estávamos no meio de uma campanha presidencial incrivelmente importante e disputada.
No final de fevereiro, veio um sinal pior. Bezos disse que dali em diante nossa página editorial e nossos colunistas se concentrariam em duas coisas: livre mercado e liberdades individuais. E, pior que isso, disse que a dissidência desses dois pilares não seria incluída em nossas páginas. Sempre acreditamos, e eu pensava que Bezos também acreditava, que se você expõe as pessoas a uma ampla gama de pensamentos, elas podem formar suas próprias opiniões, e nosso trabalho é ajudá-las a fazer isso. Então escrevi uma coluna discordando da decisão de mudar o foco da seção de opinião, e isso foi barrado pelo editor. Quando concluí que não poderia mais dizer aos meus leitores que eu tinha permissão para escrever o que acreditava, tive que pedir demissão.
*Folha – Em dezembro de 2024, Bezos disse ao New York Times que Trump estava “mais calmo e confiante” em seu segundo mandato em comparação com o primeiro. Como avalia essa declaração?*
*Ruth Marcus -* Para seus leitores que talvez não estivessem acompanhando a posse em janeiro, Bezos estava no palanque de Trump. Estava frio em Washington, então ele teve que ser movido para dentro na cerimônia de posse com os outros bilionários da tecnologia. Eles estavam sentados mais perto do presidente do que os próprios indicados para o gabinete. É simplesmente inapropriado para alguém que possui um dos principais jornais do país fazer isso. A noção de que Trump está mais calmo, não sei o que isso significa –o segundo mandato de Trump é muito mais perigoso e alarmante do que seu primeiro mandato, que já havia sido perigoso e alarmante.
* Folha – Indiretamente, Trump já mudou o Post…*
*Ruth Marcus -* Posso interrompê-la? Gostaria de contestar isso. Acho que o clima entre os repórteres é de nervosismo e preocupação, mas eles também estão resolutos. Eles têm feito um trabalho fenomenal cobrindo Trump. E, pelo que posso perceber, não houve nenhuma interferência de Bezos ou da administração em relação ao que eles escrevem nas notícias. Eu me preocupo muito com a guinada à direita na seção de opinião. A gama de opiniões já não é tão diversa.
*Folha – Mas a sra. vê algum clima de autocensura na imprensa americana em geral?*
*Ruth Marcus -* Sim. Acho que você teria que ser ingênuo nesse contexto para não pensar que há algum grau de autocensura em alguns lugares. Temos uma imprensa muito vibrante, robusta e polêmica, que tem feito um ótimo trabalho cobrindo Trump. Mas também vimos duas de nossas principais emissoras [CBS e ABC] aceitarem acordos completamente frívolos de processos que Trump moveu, porque queriam evitar problemas com ele –e uma delas queria ter um acordo de fusão aprovado. Este é um comportamento terrível e covarde por parte dessas redes. Isso não foi autocensura, foi capitulação total.
*Folha – Quando Trump foi eleito em 2016, não era incomum ler que o sistema de freios e contrapesos dos EUA o deteria. Como considera esse tipo de opinião naquela época e atualmente?*
*Ruth Marcus -* Eu escrevi muitas colunas em 2016 e depois que Trump assumiu o cargo, em 2017, sobre a posição do Congresso em relação a Trump. Eu diria que as coisas já não estavam todas cor-de-rosa em termos de freios e contrapesos e do Estado de Direito durante o primeiro mandato de Trump. Mas temos uma Suprema Corte diferente agora, e os republicanos do Congresso perceberam que enfrentar Trump os coloca em perigo, então eles não o enfrentam.
*Folha – E quanto à posição do Partido Democrata neste segundo mandato de Trump?*
*Ruth Marcus -* Eles honestamente não sabem o que fazer. Não conseguem acreditar que perderam para esse cara mais uma vez. O Partido Democrata não tem um líder óbvio, não tem uma proposta óbvia além de “não somos Trump”. Talvez isso seja suficiente para ajudá-los a recuperar a Câmara nas eleições de meio de mandato no próximo ano, mas talvez não.
Quando você perde uma eleição e não tem uma alternativa óbvia, precisa de algum tempo no deserto para deixar que a próxima geração de concorrentes e o próximo líder apareçam, para desenvolver uma proposta do que o partido é e pelo que ele luta. Neste momento, acho que os democratas estão muito na posição em que estavam em 1992, quando estavam fora do poder por dois mandatos de Ronald Reagan e depois por um mandato de George H.W. Bush. E Bill Clinton apareceu, ganhou a nomeação democrata, se apresentou como um novo democrata que tornaria o partido mais centrista e ganhou a eleição, derrotando um presidente no cargo. Acho que os democratas precisam de seu Bill Clinton agora, só que sem os problemas que Bill Clinton trouxe.
*Folha – Em uma coluna para o Post em fevereiro, a sra. descreveu uma espécie de guerra civil no Departamento de Justiça, que cobriu nos seus primeiros anos no jornalismo. Pode explicar essa posição e como as coisas se desenvolveram desde então?*
*Ruth Marcus -* O Departamento de Justiça é parte do Poder Executivo. Então, quando um novo presidente assume, é totalmente aceitável que esse presidente diga, por exemplo, que órgão deveria focar, por exemplo, cartéis de drogas e não suborno estrangeiro. Diferentes presidentes podem ter diferentes prioridades políticas e instruir o Departamento de Justiça a seguir essas prioridades. Mas, especialmente desde o Watergate [escândalo de espionagem política que levou à queda de Richard Nixon], houve restrições muito respeitadas.
Gostamos de dizer a nós mesmos que não vivemos em uma república das bananas, onde os presidentes podem usar o sistema de Justiça para processar seus inimigos políticos. Mas isso é o que estamos começando a ver agora. O presidente Trump guarda rancores e quer eliminar esses rancores. Ele tentou fazer isso com muito pouco êxito em seu primeiro mandato. Mas agora estamos vendo a instrumentalização do sistema de justiça criminal para seus fins.
Outro dia houve uma operação do FBI na casa de John Bolton, que foi o conselheiro de segurança nacional durante o primeiro mandato de Trump. Ele diz que Hillary Clinton deveria estar na cadeia, James Comey deveria estar na cadeia, todos os seus inimigos políticos –Jack Smith, que o investigou durante o mandato do [ex-presidente americano, Joe] Biden. E o Departamento de Justiça, diferentemente do primeiro mandato, não está se opondo a ele. Estou muito preocupada com o que podemos ver no próximo ano.
*Ruth Marcus, 67*
Formada pela Universidade Yale e pela Harvard Law School, a jornalista e comentarista política trabalhou de 1984 a 2025 no Washington Post, onde foi editora-adjunta da seção editorial e finalista do Prêmio Pulitzer de Comentário, em 2007. Atualmente, escreve na revista New Yorker.
A jornalista é uma das convidadas do evento promovido pela revista piauí em 6 e 7 de setembro, em São Paulo, com o tema “A contra-história – repórteres que bagunçam os mitos nacionais”. Ela fala no domingo (7), às 18h. Ingressos a partir de R$ 650 (inteira).