ESPECIAL: 25 de MARÇO – 160 ANOS. Estação São Bento tem operação única para garantir fluxo de consumidor
Estação é a terceira mais movimentada da Linha 1-Azul, atrás apenas de Jabaquara e Tucuruvi
(Flickr/Metrô SP)
São Bento adapta operação e reforça equipes para receber mais de 87 mil pessoas por dia útil no período que antecede o Natal
Demanda pelo transporte deve aumentar nos próximos anos com a implementação da Linha Celeste, que terá conexão com a São Bento
Por Bruno Cirillo | Paula CristinaCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] Não há como falar da Rua 25 de Março sem falar da estação São Bento (Linha 1-Azul) do metrô paulistano. Se a rua é o coração do comércio popular da cidade, a estação faz o papel de pulmão, dando fluxo à região. Para entender o que se passa no subsolo, a reportagem da AGÊNCIA DC NEWS acompanhou Conrado Silva, 39, supervisor da estação e uma espécie de guardião do fluxo que alimenta a 25 de Março todos os dias. É ele quem administra equipes, prevê gargalos, aciona trens vazios quando a multidão aperta e tenta evitar que idosos carregados de sacolas se machuquem nas escadas rolantes. Os números confirmam. Segundo o Metrô de São Paulo, a São Bento registrou média de 58 mil pessoas por dia útil – a terceira mais movimentada da Linha 1, atrás apenas das estações terminais Jabaquara e Tucuruvi. No fim de ano, esse número salta. Em 2024, nos 15 dias úteis até a última sexta-feira antes do Natal, a média foi para 87,2 mil pessoas, 30% superior ao maior estádio de futebol da capital, o Morumbis (67 mil). “Aqui o pico sempre cresce quando a cidade diminui. No Natal, somos a exceção da rede”, disse Silva. Esta reportagem faz parte do Especial 25 de Março-160 anos.
A engrenagem que mantém esse subterrâneo funcionando muda de marcha conforme a época. Conrado afirmou que, nos fins de semana, especialmente aos sábados, quando quase 100% dos passageiros têm como destino exclusivo a 25 de Março, a operação segue um protocolo próprio: reforço de funcionários na plataforma, triplo de seguranças nas horas de maior pressão e bloqueios temporários que transformam o acesso da Ladeira Porto Geral em porta de entrada única, evitando o choque entre quem sobe e quem desce. Foram 37,4 mil pessoas em média nos quatro sábados de outubro deste ano, cerca de dois terços do movimento dos dias úteis, o que não se repete nas demais estações – na estação Jabaquara, a de maior movimento na Linha 1, a circulação num sábado é pouco superior à metade da média em dias úteis.
Por esse motivo, segundo Silva, nos dias mais críticos, trens vazios ficam posicionados entre Tiradentes e Luz, prontos para serem acionados se o fluxo transbordar. A equipe monitora escadas rolantes e pontos de risco, porque a maior parte dos acidentes envolve idosos carregados de sacolas, cenário que se multiplica em datas festivas. “A meta é ter no máximo três acidentes no mês. Nesta época, pode bater dez”, disse. São cinco acessos, cada um com um comportamento próprio, que ele e a equipe aprendem a ler como se fossem bairros dentro da mesma estação.
Essa mecânica subterrânea também convive com o dinamismo da rua. A São Bento se ajusta aos eventos da 25 de Março (que vai desde o Ano Novo Chinês às campanhas sazonais) e responde às demandas da Univinco e de lojistas que pedem extensão de horário ou abertura extraordinária do acesso da Ladeira Porto Geral. Em dezembro, por exemplo, o fechamento aos sábados se estende das 16h para as 18h. No total, são 15 seguranças mobilizados na operação de fim de ano, além da ampliação de funcionários de apoio. “A relação é muito próxima, porque o público deles é o nosso público”, disse o supervisor.
A estação também se prepara para o futuro. A expansão da rede metroviária, com a futura Linha 19-Celeste, deve reconfigurar conexões e aumentar ainda mais a pressão de circulação no centro. O Metrô já projeta reforços de infraestrutura e mudanças operacionais para absorver novos fluxos. Para Conrado, isso significa mais planejamento e uma operação ainda mais sensível à sazonalidade da 25. “A estação tem que crescer para acompanhar a rua”, afirma. Enquanto a 25 atrai turistas, compradores e comerciantes de todas as regiões, a São Bento funcionará, cada vez mais, como a porta de entrada subterrânea do maior polo de comércio popular do país.
Com 17,6 km e 15 estações em sua fase inicial, a Linha 19 ligará Guarulhos ao Centro da capital paulista e terá uma demanda de cerca de 630 mil pessoas por dia. As obras que envolvem 15 estações entre Guarulhos e o Anhangabaú foram divididas em três lotes, e o certame aconteceu em setembro. O Lote 3, onde está a Estação São Bento, é considerado o mais delicado. Isso porque o trecho terá cerca de 6,6 km dos quais 5,9 km serão escavados por uma tuneladora, que partirá de Vila Maria em direção ao centro velho. Segundo a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) a grande complexidade construtiva se dá pelas “características geológicas, importância urbana e por estar rodeada de edifícios tombados”. A estimativa é de investimento na casa dos R$ 6,8 bilhões apenas nesse lote e as propostas das empresas interessadas já foram enviadas. O governo do estado tem até 3 meses para habilitar o vencedor. O objetivo é que a linha esteja pronta 75 meses após o início das obras.
LONGO PERCURSO – A história da São Bento começa muito antes do metrô existir. O nome vem do Mosteiro de São Bento, fundado em 1598 no terreno que anteriormente abrigou a taba do cacique Tibiriçá, uma das aldeias que formaram o núcleo original da cidade. Ali, no alto do Largo, século após século, São Paulo se montou: a presença indígena, a chegada dos beneditinos, o avanço do comércio, a urbanização acelerada e a transformação do centro num ponto de encontro de mercadores árabes, chineses e migrantes de todo canto. A estação só surgiria quase quatro séculos depois, em 26 de setembro de 1975, no governo Laudo Natel, como parte da expansão da Linha 1–Azul, marco da modernização do transporte paulistano e de uma virada urbana que redefiniu a relação do paulistano com o subsolo do centro histórico.
A chegada da estação criou uma nova lógica de circulação no coração da cidade. Enterrada sob a Rua Boa Vista e integrada ao tecido do comércio popular, a São Bento passou a operar como uma engrenagem invisível que sustenta o centro por baixo, conectando trabalhadores, estudantes, turistas e sacoleiros com a 25 de Março. Era o auge do avanço metroviário no estado, quando São Paulo apostava no transporte de massa como eixo de reorganização urbana — e, naquele momento, abrir uma estação no centro não era apenas um ato de mobilidade, mas um gesto de reequilíbrio da cidade. A São Bento se consolidou como ponto estratégico: o lugar onde chegam os ônibus do interior, os visitantes de outros estados, os estrangeiros que querem conhecer a 25, além das dezenas de milhares de paulistanos que usam o centro como ponte entre casa e trabalho.
Foi nos anos 1980, no entanto, que a São Bento ganhou uma camada cultural definitiva. Centenas de jovens negros, vindos das periferias, passaram a ocupar o pátio externo e o entorno da estação com passos de break, batidas improvisadas e rodas de rap. Grupos como Back Spin, Nação Zulu, Dynamic Bronx, Jabaquara Breakers, Crazy Crew e tantos outros transformaram o Largo São Bento em berço do hip-hop brasileiro, criando linguagem, coreografias e identidade própria num espaço que até então servia apenas de passagem. Em 1984, o movimento se consolidou ali — a estação virou pista, palco e laboratório. O centro, historicamente restritivo, foi reocupado por corpos negros que dançavam, rimavam e reinventavam a cidade. Foi nas imediações da estação, inclusive, que os primeiros muros pintados pelos Gêmeos foram desenhados. A São Bento não testemunhou a cena: ela foi parte dela — uma caixa de ressonância subterrânea onde nasciam gestos, sons e narrativas que mudariam (e moldariam) a cultura urbana paulistana.
Bate-papo com CONRADO SILVA, supervisor da Estação São Bento
Supervisor da Estação São Bento, Conrado narra os desafios para lidar com o fluxo de passageiros (Andre Lessa/Agência DC News)
AGÊNCIA DC NEWS – O que mais diferencia a São Bento das outras estações do Metrô? CONRADO SILVA – A 25 dá acesso para a Estação da Luz, à Sé, mas assim, o coração mesmo é São Bento. Poucas pessoas vão para as outras estações. O nosso principal caminho é a Ladeira Porto Geral, onde a maioria das pessoas que visita a 25, passa por ali.
AGÊNCIA DC NEWS – E como funciona agora no final de ano, há uma operação especial para trabalhar com esse público? CONRADO SILVA – Em dezembro, na antevéspera do Natal (dia 23) e nos dois finais de semanas anteriores, a gente faz uma estratégia específica. Isso depende também de cada ano e de quando vai cair o dia 24, aí pode mudar um pouquinho de hora em hora. Mas via de regra se faz estratégias de reforço de quadro. Também segregamos o acesso, limitando ou impedindo que as pessoas saiam pela Ladeira Porto Geral e deixando só para a entrada. Porque, se não, tem um conflito de fluxo e as pessoas acabam se acidentando. O fluxo de entrada é muito intenso. Para evitar acidentes, a gente faz essa segregação. Tem também o reforço do carro de segurança, da estação e dos terceiros. Para conseguir atender todo mundo, alocamos funcionários na plataforma para orientar os passageiros.
AGÊNCIA DC NEWS –Isso acontece no Metrô todo ou só aqui? CONRADO SILVA – Só aqui na São Bento. A estação tem um tratamento realmente diferente do resto do metrô porque — é até curioso — no Natal as outras estações, elas diminuem o fluxo. A gente tem um incremento que geralmente, nas outras estações, diminui. Por isso tem uma tratativa específica aqui no final de ano.
AGÊNCIA DC NEWS –Quais outras ações fazem parte dessa operação? CONRADO SILVA – Outras áreas têm influência, porque assim, para atender a estação, às vezes a gente precisa de um trem vazio. Então, o pessoal que é do tráfego, eles disponibilizam um ou dois trens vazios, que ficam parados entre as estações Tiradentes e da Luz. Se precisar, acionamos, isto é, se encher muito a estação, conversamos com nosso engenheiro de controle e ele despacha os trens.
AGÊNCIA DC NEWS –Para esse ano, vocês estão esperando um aumento de quantas pessoas no fluxo de época? CONRADO SILVA – Desde o final da pandemia, está aumentando o fluxo. Antes da pandemia, já chegamos a receber 85 mil pessoas. No último ano, tivemos 55 mil, e a cada ano que passa está subindo. Estimamos que vai chegar entre 60 mil e 65 mil pessoas, mais ou menos. Está aumentando a cada ano entre cinco e dez mil pessoas. A pandemia afetou muito. Em 2020, chegou a 30 mil pessoas.
AGÊNCIA DC NEWS –São pessoas vindas dos quatro cantos da cidade, ou dá para calcular que tem mais gente de uma região específica? CONRADO SILVA – Eu colocaria que região da cidade, não, mas tem muita gente, inclusive, que é de outros estados. Muita gente vem de outros estados. Claro. Por curiosidade, as pessoas que estão viajando mesmo, e um dos muitos pontos turísticos visitados é a 25 de março. O Mercado Municipal, por exemplo, também é por aqui e o pessoal vai para lá. A maioria das pessoas que se vê estão aqui para comprar coisas para os familiares, então é muita gente cheia de sacolas.
AGÊNCIA DC NEWS –Qual é a preocupação em relação a esse público? CONRADO SILVA – É um um fator que dificulta. Isso gera acidentes. Esse perfil mesmo, de idosos com sacola, é uma preocupação. Tem um indicador para isso. Nossa meta é ter no máximo três acidentes no mês. Nessa época, chega a bater oito, dez acidentes, até mais. A gente coloca pessoas em lugares específicos para evitar acidentes, tipo a pessoa tropeçar. Como ela está com bagagem, pode ter alguma dificuldade e cair em uma escada fixa ou rolante. Escada rolante é o principal causador de acidente.
AGÊNCIA DC NEWS –E como é a relação de vocês assim com o pessoal que trabalha na 25 de Março? CONRADO SILVA – O que demandam de nós é quando há algum evento ou quando eles têm necessidades, por meio da associação deles (Univinco), pedem para deixarmos mais tempo aberto, abrir em dias que não abriríamos. O último exemplo foi o Ano Novo Chinês: a gente não abre de domingo o acesso da Ladeira Porto Geral. E a gente abriu somente para atender a esse evento. Também dialogamos bastante com os moradores, quem está em volta, para poder atendê-los. De vez em quando, eles têm algumas demandas.
(Metrô /Arquivo)
Início
Primeiro registro fotográfico, feito em 1973, das obras da estação
(Metrô /Arquivo)
Ganhando forma
Em 1974, registro fotográfico do avanço das obras da São Bento
(Arquivo / Pinacoteca)
Cultura
Em 1986 jovens já se reuniam para explorar a cultura do hip-hop
(Pátio São Bento / Divulgação)
Registrado
Muro feito pelos Gêmeos no Pátio São Bento – os artistas também começaram por lá
(Matheus Crobelatti / Divulgação)
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