SÃO PAULO, SP, E SEUL, CORÉIA DO SUL (FOLHAPRESS) – Ele é onipresente em bares e restaurantes da Coreia do Sul. Num dos maiores sucessos de k-pop, aparece como um “drinking game”. Nos k-dramas, as novelas do país, também possui uma presença marcante.
Agora, o soju ganha cada vez mais força no exterior. Em 2024, as exportações do destilado atingiram a cifra recorde de US$ 104 milhões, no quarto ano de alta. O número é ainda maior se consideradas as vendas de soju frutado, que geraram US$ 96 milhões, um salto desde 2019, quando esse tipo somou US$ 29 milhões.
O cenário faz da bebida mais uma arma do soft power sul-coreano, que vai da música ao cinema, das séries às novelas, da gastronomia à moda. O aspecto cultural é central, pois a importância do soju vai além do seu sabor. O destilado é parte da identidade do país, presente em momentos de festa e lamento, e tem o poder de destravar um papo, ativo essencial numa região em que as pessoas são conhecidas pela formalidade.
“O soju é um lubrificante social”, afirma Kil Seon Kyeong, 42, professora de ensino infantil em Seul. “Quando você se sente desconfortável com colegas de trabalho, uma dose faz com que um encontro fique mais leve. E soju vai bem sempre. Nos dias tristes, bebo porque estou triste. Nos dias felizes, tomo porque estou feliz.”
Tradicionalmente feito de arroz, o soju pode ser produzido a partir de várias bases, como cevada e batata-doce, e o teor alcoólico das marcas mais populares em geral vai de 12% a 24%, o que põe a bebida alguns graus acima de rótulos de cervejas comerciais e bem abaixo de tragos mais fortes, como gim e vodka.
Irene Yoo, sócia de um bar coreano-americano em Nova York e autora do livro “How to Drink (and Eat!) Like a Korean”, que será lançado em setembro, credita a popularidade crescente do destilado à onda cultural do país. “Parece que todo k-drama tem uma cena em que o protagonista chora o amor perdido bebendo soju”, diz ela, lembrando também o hit “APT.”, que a cantora Rosé, da banda Blackpink, gravou com Bruno Mars.
APT. é a abreviação de “apartment”, ou “apateu”, em coreano, nome do popular “drinking game” sul-coreano, uma das várias brincadeiras com a bebida. Yoo, por exemplo, descreve-se no Instagram como “mestre em fazer redemoinhos de soju”, manobra em que o líquido é agitado para criar um minitornado. Alguns chegam a usar a lanterna do celular para iluminar o efeito, destacando o verde da maioria das garrafinhas da bebida.
As brincadeiras com o destilado são muitas, e vídeos na internet mostram exemplos, como uma torre de shots equilibrados entre hashis ou uma senhora enfileirando oito copos para preparar somaek, mistura bem popular de soju com cerveja –até o presidente Lee Jae-myung já foi filmado montando esse drinque.
Também há uma etiqueta para beber. Baseados na filosofia de Confúcio, que prega senso de comunidade e hierarquia, os rituais ditam que os mais velhos sejam servidos antes, e, se a pessoa que estiver servindo for mais velha ou tiver status maior, segure o copo com ambas as mãos. Em situações formais, a garrafa deve ser conduzida com a mão direita, enquanto a esquerda repousa sobre o braço direito, um gestual comum também para apertos de mãos. Não importa quantas vezes você beber, brindar é obrigatório a cada rodada.
Antes concentradas no Japão, as exportações chegaram no ano passado a 95 países, com os EUA (24,3%) e a China (19,9%) como os principais compradores –os nipônicos vêm na sequência, com 19,2%. Como os números de fevereiro se mostraram fortes, a expectativa no país é que 2025 quebre o recorde outra vez.
Contam para a alta o preço acessível (no Brasil, uma garrafa de 360 ml custa R$ 30) e o sabor neutro. “É uma bebida leve”, diz Vanessa Nakamura, sommelière especializada em saquê. “E tem também as frutadas, o que a torna muito palatável. As pessoas não tomam soju para degustar algo, é mais para ficar bêbado.”
Apesar de haver alguma confusão entre soju e saquê, as bebidas são bem diferentes, não só no sabor e na forma de fabricação –um é destilado, e o outro, fermentado–, mas também no alcance. No ano passado, o trago nipônico exportou US$ 294,3 milhões, reflexo da popularidade da comida japonesa no mundo todo.
Essa diferença de patamar se dá também devido ao fato de que a indústria coreana não estava tão voltada para o exterior há até pouco tempo. Se o saquê não é a melhor comparação, o correspondente japonês seria o shochu, que compartilha da mesma etimologia. Ambos os tragos significam, surpresa!, “bebida destilada”.
“Os coreanos desenvolveram a técnica de destilação e ajudaram a levá-la para o Japão. O shochu preservou mais do método tradicional, enquanto o soju moderno ficou mais comercial e mudou o seu perfil de sabor”, diz a especialista Yoo. Para Nakamura, o shochu “tem mais complexidades aromáticas e pode ser bebido quente, frio e diluído em água”, além de aparecer em drinques, da mesma forma que acontece com o soju.
Em São Paulo, é possível tomar doses ou misturas com o destilado coreano em casas como o Komah, que oferece cinco opções com soju, ou no bairro do Bom Retiro, reduto da comunidade, onde a sojurinha é uma alternativa popular. Sim, é o que você está pensando: uma caipirinha com soju em vez de cachaça.
A mistura extrapolou fronteiras, e Yoo incluiu a receita em seu livro após viajar ao Brasil. Para acompanhar a bebida, ela indica comidas fortes, que façam um contraste com o destilado, como pratos apimentados, frutos do mar e carnes grelhadas. O tradicional churrasco coreano, com barriga de porco, também vai bem.
Recomenda-se, porém, calma no andor ao provar a bebida, porque “o soju é fácil de gostar, mas a verdade é que ele dá uma baita dor de cabeça”, diz Nakamura, rindo. “A ressaca que ele dá depois não é legal, não.”