IPCA sobe a 4,42% em 12 meses e se aproxima do teto de 4,50%. Tendência de queda se inverte. Índice da FGV já sinalizava movimento de alta

Uma image de notas de 20 reais

  • De janeiro a agosto, IGPF (FGV) mostra elevação de preços (4,97%) bem acima da apurada pelo IPCA (2,85%)
  • André Braz, da FGV: "Os aluguéis têm subido em média nos últimos 12 meses em torno de 10% (nos cálculos da FGV)". Pelo IPCA, em torno de 3%
Por Vitor Nuzzi Compartilhe: Ícone Facebook Ícone X Ícone Linkedin Ícone Whatsapp Ícone Telegram

Nesta quarta-feira (9), o IBGE anunciou que a inflação do país acelerou para 0,44% em setembro, subindo 0,46 ponto porcentual em relação a agosto (-0,02%). O resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi influenciado pelas altas no grupo Habitação (1,80%), após aumento nos preços da energia elétrica residencial, que passou de -2,77% (agosto) para 5,36% (setembro) – alta superior a 8 pontos – e no grupo Alimentação & Bebidas (0,50%), que subiu após dois meses consecutivos de quedas. No ano, a inflação acumulada é de 3,31%. Nos últimos 12 meses, de 4,42%. A tendência de queda na inflação se inverteu. O teto da meta em 2024 é de 4,5%.

O Índice de Preços dos Gastos Familiares (IPGF), da Fundação Getulio Vargas (FGV), já antecipava que isso ocorreria. De janeiro a agosto, o IPGF somava 4,97%, ante 2,85% do índice do IBGE. Para o coordenador de Índices da FGV, André Braz, a base utilizada dá mais “tempestividade” ao IPGF (leia entrevista abaixo). Ele diz que o país vive um momento de pressão inflacionária que merece atenção. Em 12 meses, a taxa oficial já estava acumulada em 4,24% (até agosto), próximo de outro indicador da FGV, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que soma 4,55% (até setembro). O IPC é um dos componentes do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M).

Entre todos esses índices, André Braz observa que o IGP-M tende a antecipar, em alguma medida, a inflação ao consumidor. Ele se refere especificamente ao Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que corresponde a 60% do IGP-M. “É um índice que mede a inflação do agronegócio e da indústria de transformação”, afirmou. “Ele costuma antecipar a inflação que o consumidor ainda não percebeu. À medida que os preços na indústria sobem, eles antecipam o que o consumidor vai pagar no varejo”

ENTREVISTA: ANDRÉ BRAZ, coordenador de Índices da FGV

DC NEWS – Em relação às diferenças entre IPGF e IPCA, quais itens pesam mais em um índice e outro?
ANDRÉ BRAZ – A principal diferença é exatamente a estrutura de ponderação. A estrutura do índice oficial (IPCA) é tirada da Pesquisa de Orçamentos Familiares, e a do IPGF é tirada do consumo das famílias via Contas Nacionais [PIB]. A origem do dado de despesa é diferente, e isso dá ao IPGF agilidade maior de captar mudanças no consumo das famílias.

DCN – Por quê acontece essa agilidade?
BRAZ – É um processo mais rígido na POF [pesquisa que dá base para a contrução do IPCA], que é realizada a cada cinco anos, em média. A estrutura fica parada muito tempo. Com o IPGF a gente consegue ver isso com mais tempestividade. Isso foi flagrante na pandemia. Houve uma procura muito grande por computadores, por exemplo, para dar conta do ensino a distância e também do trabalho home office. O peso aumentou muito. Isso não foi captado plenamente pelo IPCA. O contrário aconteceu com as passagens aéreas. Como não se podia viajar, o peso caiu muito no orçamento familiar e no IPCA ficou mais estável.

DCN – Existe algum diferencial positivo do IPCA em relação ao IPGF?
BRAZ – A desvantagem é que a estrutura do IPGF é mais simples, tem pouco mais de 50 itens, enquanto a do IBGE tem mais de 400. Mas é claro que a gente está falando de metodologia, de captar essas mudanças nos hábitos de consumo com mais agilidade. Nesse sentido, essa é a principal proposta do IPGF.

DCN – É possível dizer que o IPGF capta de forma mais sensível as tendências de gastos das famílias?
BRAZ – Eu diria que de maneira mais atualizada. As famílias são racionais: quando o produto está caro, se não é essencial, ela substitui por um mais barato. Se está barato, pode até comprar um pouco mais. Isso ajuda a entender melhor os padrões de consumo, e isso é transmitido para o índice, que fica mais ligado à sensação das famílias. É mais fácil de a gente entender os resultados, e isso é bom também para a política monetária.

DCN – Por qual motivo?
BRAZ – Sempre que um índice fica muito tempo sem atualização, começa a dar viés à inflação, você não tem mais certeza se a medida está tão precisa como deveria. Atualizações mais frequentes são muito bem-vindas.

DCN – Por que recentemente o IPGF passou a apresentar taxas mais elevadas? E por que a diferença tão significativa no item Habitação?
BRAZ – Se a gente pegar os últimos 25 anos, vê que o IPGF acumula inflação menor. Mas se pegar o curto prazo, acumula inflação maior. Isso tem a ver com o aluguel. A gente usa o Ivar, índice produzido pela FGV, e esse índice está mostrando que os aluguéis têm subido em média nos últimos 12 meses em torno de 10%, que é muito acima do que a gente tem visto no próprio IPCA, que é um aumento médio em torno de 3%.

DCN – E quanto ao IGP-M? Até que ponto esse indicador, que se concentra mais nos preços ao produtor e nas cadeias produtivas, guarda alguma correlação com o IPCA?
BRAZ –Especificamente, dentro de um componente, o IPA – um índice que mede a inflação do agronegócio e da indústria de transformação. O IGP-M costuma antecipar a inflação que o consumidor ainda não percebeu. À medida que esses preços na indústria sobem, eles antecipam o que o consumidor vai pagar no varejo.

DCN – É um termômetro do que virá?
BRAZ – Observar um pouco o comportamento da inflação dentro de segmentos antes de chegar ao varejo é importante porque a gente antecipa pressões inflacionárias e entende de onde essas pressões estão surgindo. Então, é importante acompanhar o índice ao produtor como um drive para onde vai a inflação e de onde estão brotando as pressões no curto prazo.

DCN – Independentemente do índice, a pressão inflacionária preocupa?
BRAZ – A gente está vivendo um período de maior pressão inflacionária, ditada pelo clima. Fenômenos como El Niño e La Niña alteram muito o ciclo das chuvas. E o Brasil depende muito das chuvas, tanto para geração de energia como para agricultura e criação de gado. Quando não chove ou esse ciclo de chuvas é alterado, chovendo muito em uma região e pouco em outra, causa mais inflação, porque frustra safras agrícolas, faz com que a gente tenha que gerar energia de fontes mais caras, como as termelétricas. A gente estará pagando agora bandeira vermelha patamar 2 a partir de outubro – pode ser temporário, dependendo do volume de chuvas entre primavera e verão.

DCN – E quais os reflexos mais imediatos disso?
BRAZ – O aumento dos custos de produção de produtos e serviços. Ele pode ajudar a espalhar a inflação para outros segmentos, via custos.

DCN – Então, a pressão sobre a taxa de juros permanece. Ela continuará em alta?
BRAZ – Não adianta subir juros se a sua safra for ruim, se não houver feijão, soja, milho. É um tipo de inflação que a própria política monetária tem mais dificuldade de baixar, porque não depende da demanda. Quando é uma inflação de oferta, não tem muito como se valer dos juros. De qualquer maneira, a autoridade monetária já pensa no espalhamento.

DCN – Há outros indicadores que pressionam a inflação?
BRAZ – Sim. A gente está vivendo um período de desemprego mais baixo. Saiu de 15% para 7%. Significa que tem mais salários sendo pagos, e uma boa parte vira consumo, vira demanda. E aí que o juro ajuda a fazer com que o consumidor poupe mais, ajudando a conter o avanço da inflação.

DCN – Há excesso na política monetária?
BRAZ – Acho que a política monetária está certa. Tem a questão do mercado de trabalho, tem a questão do câmbio, a nossa moeda desvalorizou, isso aumento custos de produção. Mas esse remédio também não serve pra tudo. Uma parte desse limite é estancar uma inflação que é uma questão de oferta, ditada por um clima que não está colaborando com boas safras agrícolas e mesmo com a geração de energia.

Voltar ao topo