Marcelo Forma, VP da Bemol, varejista amazônica: receita de R$ 5 bi em 2025 e meta de crescer 12% este ano

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Marcelo Forma diz que e-commerce na Bemol passou de 3% para 17% do farturamento desde 2019
(Divulgação / ampliação em IA)
  • Varejista da família Benchimol opera na Região Norte desde 1942 e constrói um ecossistema que envolve logística, crédito e mix fortalecido
  • Com foco em sua fintech, a empresa projeta chegar a 1 milhão de contas ativas – hoje são 760 mil clientes cadastrados no banco digital
Por Letícia Cassiano

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Com faturamento de R$ 5 bilhões em 2025 – alta de 11,1% em relação a 2024, quando a companhia registrou R$ 4,5 bilhões – a Bemol deixou de ser apenas um varejista regional para se consolidar como um ecossistema de consumo e crédito na Amazônia. A empresa, fundada em 1942 e hoje comandada pela terceira geração da família Benchimol, tem mais de 5 milhões de clientes cadastrados e uma operação financeira com 760 mil contas ativas, construída a partir da expansão para novas verticais, como farmácias, mercados e loterias, e da digitalização do crediário. “Apostamos na estratégia share of wallet. Significa estar presente todos os dias, atender várias demandas, criar uma relação de fidelidade”, afirma Marcelo Forma, vice-presidente da empresa, em entrevista exclusiva à AGÊNCIA DC NEWS.

Com o e-commerce já representando 17% das vendas e presença em todo o Amazonas, a Bemol projeta manter o ritmo de expansão: a expectativa é crescer entre 10% e 12% em 2026, mesmo diante de um cenário macroeconômico ainda incerto. O bom ritmo de crescimento acontece desde 2019, quando a empresa começou a adotar a estratégia de atacar, ao mesmo tempo, os dois gargalos centrais da região amazônica: logística e crédito. A companhia ampliou a presença física e estruturou parcerias locais para alcançar o interior, enquanto transformava um sistema de pagamento de parcelas em um banco digital – hoje, uma fintech de crédito pessoal com meta de chegar a 1 milhão de contas. Atualmente a Bemol soma 37 lojas físicas, 45 farmácias, três mercados, 22 loterias, uma clínica Bemol Saúde e 23 agências da Bemol Serviços Financeiros, além do e-commerce, que ganhou escala a partir da pandemia e passou a integrar também produtos de cesta básica. “A gente precisava ter cada vez mais relevância na vida dos nossos clientes”, afirma. 

Para transformar essa estratégia em escala, a Bemol precisou resolver o que Forma chama de “equação amazônica”: fazer o e-commerce funcionar em uma região em que cada município impõe um desafio próprio de acesso, infraestrutura e renda. A empresa opera com mais de 250 caminhões e complementa a malha terrestre com barcos parceiros nas rotas fluviais, em um modelo desenhado para atender comunidades fora do eixo urbano tradicional. Um dos pontos-chave foi integrar conectividade e financiamento: a companhia instalou internet gratuita em praças municipais para viabilizar o cadastro de clientes e, a partir daí, oferecer crédito para compras online. “Esse modelo funcionou muito bem e permitiu que atendêssemos, hoje, 100% do Amazonas”, afirma o executivo. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Antes da empresa, a família fundadora, os Benchimol, tem uma história que se conecta com a do Norte do país. Pode contá-la?
MARCELO FORMA –
A família Benchimol chegou ao Brasil no século 19, por volta de 1850 [das mesmas origens do cofundador da XP Guilherme Benchimol]. Eram judeus marroquinos que vieram para a Amazônia em busca de desenvolvimento. Eles começaram a trabalhar como regatões, comerciantes que navegavam pelos rios com canoas, vendendo produtos como sal, açúcar e café e fazendo escambo por produtos produzidos na floresta. É como se fosse a rota da seda do Brasil. Trabalharam assim até o início do ciclo da borracha.

AGÊNCIA DC NEWS – Eles se envolveram diretamente com esse movimento extrativista?
MARCELO FORMA –
Sim. Foi um movimento muito próspero, mas de curtíssima duração, acontecendo mais ou menos entre 1890 e 1910. Foi encerrado definitivamente com a crise mundial de 1929. Mas durante o ciclo da borracha, a família estava instalada em um seringal chamado Fortaleza do Abunã, na fronteira do Brasil com a Bolívia, em Rondônia. Só depois, com o fim do ciclo, foram para Manaus.

AGÊNCIA DC NEWS – A Bemol foi fundada em 1942. Como a família foi da borracha à empresa?
MARCELO FORMA –
A família desenvolveu o primeiro rascunho de uma empresa fazendo representação de medicamentos. O Samuel Benchimol, fundador da Bemol, era muito ligado à Amazônia de uma forma mais sociológica, se tornou professor e foi lecionar nos Estados Unidos. Durante a Segunda Guerra Mundial, faltaram produtos no Brasil e ele enxergou a oportunidade de importar mercadorias de lá. Então a Bemol foi se adequando.

AGÊNCIA DC NEWS – E como ela se estabeleceu nos eletrodomésticos?
MARCELO FORMA –
De uma empresa pequena, limitada à representação farmacêutica, foi ingressando na importação e venda de produtos variados. A partir da década de 1960, com a criação da Zona Franca, a Bemol entrou nos eletrônicos, que se tornaram o grande vetor de crescimento nas décadas seguintes.

AGÊNCIA DC NEWS – Quem está à frente da Bemol hoje?
MARCELO FORMA –
A empresa está na terceira geração. O professor Samuel Benchimol foi o fundador. Depois, o filho dele, Jaime Benchimol, liderou a empresa até 2018. Em 2019, Denis Benchimol, neto do Samuel e sobrinho do Jaime, assumiu como diretor-presidente do grupo.

AGÊNCIA DC NEWS – Como foi a sua chegada à Bemol?
MARCELO FORMA –
Eu cheguei em 2019, quando o Denis assumiu e precisava de um diretor financeiro. Eu vinha do mercado de gestão de riscos, sou sócio de uma consultoria em São Paulo. Naquele momento eu estava namorando a irmã dele, que atualmente é minha esposa e também presidente do conselho da empresa, manda em mim em casa e no trabalho. Então vim inicialmente com a ideia de ficar um ano, mas me apaixonei pelo projeto, pela região Norte, e fiquei. Hoje sou presidente do varejo e vice-presidente da Bemol.

AGÊNCIA DC NEWS – Sua chegada também coincide com a reestruturação da companhia na época da passagem de bastão, certo?
MARCELO FORMA –
O Denis me mostrou um plano extremamente audacioso, porque naquele momento já estava acontecendo o que chamamos de Apocalipse do Mercado. Nos Estados Unidos, muitas redes físicas estavam fechando por causa do e-commerce. Isso era um prenúncio do que aconteceria no Brasil. A gente entendeu que precisava criar um modelo mais competitivo, que gerasse mais valor e garantisse a sobrevivência da empresa nesse cenário extremamente desafiador.

AGÊNCIA DC NEWS – No que consistia esse plano?
MARCELO FORMA –
Primeiro vou te explicar a configuração da Bemol naquele momento. Éramos basicamente um varejo de eletrodomésticos com 18 lojas até então, distribuídas em seis cidades da Amazônia Ocidental, que pega os estados do Amazonas, Roraima, Rondônia e Acre. Esses estados representam 26% do território nacional e possuem 4% da população brasileira. O PIB soma aproximadamente 2,7%, então a renda é muito limitada. 

AGÊNCIA DC NEWS – Basicamente, um cenário desafiador.
MARCELO FORMA –
Exato. A primeira questão era logística, por ser uma região vasta e de difícil acesso. Existem 151 municípios nos nossos estados de atuação. Em 2018 estávamos em seis deles. Para conseguir executar, abastecer uma loja, vender pelo e-commerce, você precisa de uma malha logística extremamente complexa. A segunda dificuldade era de crédito, porque não há renda suficiente e você precisa vender, ainda mais se tratando de produtos mais caros, que não se compra mais do que duas vezes no ano, móveis e eletrodomésticos, no caso.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual foi a solução?
MARCELO FORMA –
Desenhamos uma estratégia objetivando sobreviver a esse apocalipse e nos consolidar, de fato, como um ecossistema caboclo, local, sem migrar 100% para o digital, como várias grandes fizeram. A gente precisava ter cada vez mais relevância na vida dos nossos clientes, então apostamos na estratégia share of wallet. Significa estar presente na vida do cliente todos os dias, atender várias demandas da vida dele, criar uma relação de fidelidade. Para isso, primeiro precisávamos de frequência.

AGÊNCIA DC NEWS – E como vocês executaram essa estratégia?
MARCELO FORMA –
Primeiro investimos em farmácias e em unidades maiores, com cerca de 3 mil metros quadrados. Cada unidade dessas tinha cerca de 200 metros quadrados destinados à farmácia. Uma loja com mais frequência dentro de outra loja. Fizemos isso com outros tipos de negócio e hoje temos 37​ lojas físicas, 45 farmácias, três mercados físicos, 22 loterias, uma clínica Bemol Saúde e 23 agências Bemol Serviços Financeiros. Fora o e-commerce, que representa 17% das nossas vendas. 

AGÊNCIA DC NEWS – Como o e-commerce se tornou tão expressivo nas vendas da Bemol?
MARCELO FORMA –
Antes da pandemia, apenas 3% das nossas vendas eram online. Aquela época foi muito dura para a região. As pessoas tinham medo de sair de casa até para comprar comida, então começamos a incluir produtos da cesta básica no nosso e-commerce. Foi assim, inclusive, que entramos no ramo dos mercados. Além disso, temos 50 sellers locais vendendo no nosso marketplace. 20% das vendas da plataforma são desses pequenos empresários. 

AGÊNCIA DC NEWS – O e-commerce depende da logística. Pode detalhar essa questão? Como aconteceu a interiorização?
MARCELO FORMA –
A logística é extremamente complexa. Cada cidade tem uma solução específica. Nós fazemos com mais de 250 caminhões e utiliza barcos parceiros para as rotas fluviais. Para chegar no interior misturamos logística e crédito. Tivemos a ideia de colocar internet gratuita nas praças para gerar conectividade. A pessoa se cadastrava e recebia uma oferta de crédito inicial. Esse modelo funcionou muito bem e permitiu que atendêssemos, hoje, 100% do Amazonas.

Bemol
Presente em 72 municípios da Amazônia Ocidental, Bemol quer explorar todo o potencial do Norte
(Divulgação)

AGÊNCIA DC NEWS – Voltamos à questão do crédito. Hoje a Bemol tem uma fintech. Como tudo começou? 
MARCELO FORMA –
Nosso crediário sempre foi forte, especialmente depois dos anos 2000, mas muito analógico. Primeiro estendemos o crediário para as farmácias. Depois, criamos um banco digital para que os clientes não precisassem pagá-lo de forma física. Chamamos de Bemol Serviços Financeiros, mais conhecido como Conta Bemol. Hoje temos mais de 760 mil contas ativas e queremos chegar a 1 milhão. Existe oportunidade, o sistema bancário na Região Norte não é tão difuso.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais modalidades de crédito a Bemol oferece hoje?
MARCELO FORMA –
Além do crediário, oferecemos empréstimo pessoal, crédito com garantia imobiliária, estamos pilotando crédito com garantia veicular e temos o crediário parceiro, que permite comprar fora da Bemol em cerca de 10 mil estabelecimentos. A gente faz uma gestão integrada de risco do cliente e premiamos, por assim dizer, os melhores clientes do crediário. A questão da garantia imobiliária ainda é tímida, mas exige um relacionamento de longo prazo com os clientes. É isso que a gente gosta na Bemol. 

AGÊNCIA DC NEWS – Pode me dizer quanto a Bemol faturou em 2025?
MARCELO FORMA –
Passamos um pouquinho de R$ 5 bilhões. 

AGÊNCIA DC NEWS – E o planejamento para 2026?
MARCELO FORMA –
A expectativa é continuar crescendo. Trabalhamos com um crescimento entre 10% e 12% ao ano, mesmo com um cenário macroeconômico desafiador.

AGÊNCIA DC NEWS – Está no horizonte expandir para outras regiões do país além do e-commerce?
MARCELO FORMA –
Por enquanto, não. Ainda existe muita oportunidade de crescimento na Região Norte.

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