6 pensamentos sobre o papel da IA nas empresas

Durante o São Paulo Innovation Week, Flavia Nascimento, diretora executiva do CESAR, trouxe uma visão provocativa sobre a adoção de ferramentas de inteligência artificial, defendendo que o sucesso da tecnologia reside na governança e na maturidade organizacional, e não apenas no código

Mariana Missiaggia
15/Mai/2026
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6 pensamentos sobre o papel da IA nas empresas

O Brasil consolidou a sua posição na vanguarda da inovação tecnológica ao figurar entre os países mais avançados na adoção prática de inteligência artificial (IA) no ambiente corporativo. Segundo o Work Trend Index 2026, divulgado recentemente pela Microsoft, o país possui, proporcionalmente, mais profissionais considerados “de fronteira” no uso de IA do que mercados consolidados como Estados Unidos, Japão e Índia.

Esse protagonismo, segundo Flavia Nascimento, diretora executiva do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), coloca as organizações brasileiras diante de um desafio crítico: transformar esse potencial técnico em valor estratégico e seguro. Ao se apresentar, na última quarta-feira (13), no São Paulo Innovation Week, Flavia apontou que, apesar do alto índice de adoção no país, essa corrida pela IA, quando feita de forma apressada, pode levar a decisões equivocadas.

Ao defender que o desafio real da IA reside na "governança e segurança no nível de produção", em que a ética e a integridade dos dados devem ser prioridade, Flavia afirmou que, sem critérios rigorosos e filtros claros, muitas aplicações de IA podem representar riscos desnecessários. E alertou que a tecnologia raramente é o ponto de ruptura, mas sim a falta de foco no contexto e na qualidade estrutural. Para a executiva, escalar uma solução de IA vai muito além da infraestrutura técnica e exige maturidade institucional.

Ao direcionar sua visão para o potencial da IA generativa, para descobrir e resolver problemas desafiadores com o objetivo de melhorar a vida das pessoas e a eficiência das organizações, Flavia trouxe reflexões sobre o papel humano na era da IA, os benefícios de dominar suas aplicações, os desafios de usá-la de forma eficaz e como a automação de tarefas faz crescer a demanda por líderes capazes de desenvolver contexto, confiança e pensamento crítico no ambiente corporativo.

A seguir, acompanhe seis pilares do pensamento da executiva sobre a transformação digital nas empresas: 

 

1. "IA não é aumento de produtividade, é qualidade estrutural em escala"

Contrariando o senso comum de que a IA serve apenas para acelerar tarefas, Flavia afirmou que "IA não é aumento de produtividade, é qualidade estrutural em escala". Na análise da executiva, a tecnologia permite que processos complexos mantenham um padrão de excelência mesmo quando replicados em grandes volumes, mudando o foco do "fazer rápido" para o "fazer melhor e de forma consistente".

2. "No começo, a IA pode lhe tornar mais lento e é assim que o aprendizado organizacional acontece"

Um pensamento constante na fala da executiva é o de que a implementação da IA exige paciência para que, de fato, aconteça uma curva de aprendizado organizacional. Essa desaceleração inicial, segundo Flavia, é necessária para que as equipes entendam os novos fluxos e para que a cultura da empresa se adapte, garantindo que a base do conhecimento seja sólida antes da aceleração definitiva.

Ela reforçou que adotar IA só porque “todo mundo está usando” leva a investimentos desperdiçados. Sem um objetivo definido, as ferramentas se tornam subutilizadas ou geram resultados irrelevantes.

3. "Empresas que usam IA como justificativa para demitir têm falta de imaginação. A IA não fecha portas, ela abre novas"

Ao analisar a tecnologia de forma bem otimista, Flavia trouxe à luz o seu impacto no mundo corporativo para aqueles que estão receosos sobre seus postos de trabalho. E afirmou que empresas não deveriam pensar em demissão por causa da IA. Em vez disso, ela disse que as versões atuais servem principalmente como parceiros, estagiários ou assistentes, que podem realmente ser criativos, mas criativos em menor escala. Um exemplo disso é o Itaú Unibanco que, mesmo com 16 mil desenvolvedores, segue contratando arquitetos e engenheiros para ganhar competitividade e agilidade, provando que a tecnologia impulsiona a demanda por talentos qualificados em vez de extingui-los.

Outro dado levantado pela pesquisa da Microsoft mostra que, no Brasil, quase 80% afirmam temer ficar para trás caso não aprendam rapidamente a utilizar essas ferramentas no trabalho. No cenário global, esse percentual é de 65%. Apesar do avanço no uso da tecnologia, a pesquisa indica que as empresas ainda não acompanham o mesmo ritmo de transformação. A Microsoft afirma existir um descompasso crescente entre aquilo que os profissionais já conseguem fazer com IA e o quanto as organizações estão preparadas para sustentar essa mudança do ponto de vista estrutural.

4. "Conhecimento que fica na cabeça de uma pessoa só não escala"

Sinalizando como prioridade deter a ideia de conhecimento isolado, Flavia apontou que a democratização da informação é vital para a inovação. E destacou que "conhecimento que fica na cabeça de uma pessoa só não escala". Nas palavras da especialista, a IA atua como um catalisador para transformar um conhecimento individual desconhecido em um ativo organizacional acessível, permitindo que a empresa cresça independentemente de indivíduos específicos.

Ao questionar por que a maioria dos negócios não escala, ela afirmou que, em muitos casos, cada time usa a IA de um jeito diferente, sem padrão, sem critério e sem aprendizado compartilhado, o que acaba afastando todo o processo organizacional daquele processo original que não foi redesenhado. "Quando apenas colada por cima, a IA não tem resultado, apenas gera ruído e nenhum ganho."

5. "O contexto está sempre acima da ferramenta"

Ao afirmar que não existe uma "bala de prata" tecnológica, a diretora do CESAR destacou "não existir melhor ferramenta de IA do que o contexto de cada time". Para ela, a escolha tecnológica deve ser guiada pelas necessidades específicas da equipe e pelos problemas reais que ela enfrenta, e não por tendências de mercado ou marketing de software.

Ou seja, a IA pode transformar a forma como trabalhamos, pois automatiza tarefas, acelera processos e oferece soluções em tempo real. Mas, com tantas possibilidades, o verdadeiro diferencial está em saber escolher onde e como aplicá-la.

"Sem contexto, a IA inventa, e quem oferece mais contexto colhe melhores resultados. Nunca peça à IA a entrega inteira de uma vez. É o processo interativo que produz qualidade superior ao que é gerado em bloco." 

6. "A IA mudou o papel do trabalhador, mas não diminui o trabalho"

Confiar cegamente nos outputs (produtos gerados a partir de um processo da IA), sem pensamento crítico, pode levar a erros graves, Flavia disse, acrescentando que a IA redefiniu o papel humano na produção, pois trata-se de uma ferramenta, e não um substituto para o julgamento humano.

"A IA mudou o papel do trabalhador, mas não diminuiu o trabalho. A função agora é muito mais estratégica do que de construção", defendeu Flavia.

O profissional do futuro deixa de ser apenas um executor de tarefas repetitivas para se tornar um orquestrador de sistemas, focando na visão macro e na tomada de decisão complexa. A ideia é reforçada pelo estudo da Microsoft, que também aponta uma mudança na forma como a IA está sendo utilizada dentro das empresas.

Em vez de substituir o pensamento crítico, a tecnologia estaria assumindo tarefas operacionais e liberando profissionais para funções mais estratégicas. Uma análise de mais de 100 mil interações no Microsoft 365 Copilot mostrou que 49% das conversas envolvendo IA estão relacionadas a trabalho cognitivo, incluindo análise de informações, resolução de problemas, avaliação e criatividade. Nesse contexto, as habilidades humanas consideradas mais importantes passam a ser justamente aquelas ligadas à supervisão da própria IA.

"São conversas, perguntas certas, definição de fluxo e propósitos que levam o funcionário para um processo mais curador do que construtor. Não é sobre competir com máquinas, mas sobre usá-las para ampliar o potencial humano."

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IMAGEM: Mariana Missiaggia/DC

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