A ditadura da planilha: como o perfil tecnocrata ameaça o futuro das empresas

Uma economia que remunera excessivamente a gestão financeira em detrimento da inovação e da maestria técnica corre o risco de consolidar uma estrutura rentista, hábil em otimizar o que existe mas incapaz de construir relevância global

Alfredo Behrens
04/Jun/2026
Professor da FIA Business School
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A ditadura da planilha: como o perfil tecnocrata ameaça o futuro das empresas

Existe um paradoxo silencioso no centro das grandes organizações brasileiras. As mesmas características que tornam um profissional financeiro eficaz na gestão do risco operacional — o rigor analítico, a dependência de dados históricos, o distanciamento emocional — podem se transformar em veneno quando esse perfil assume o comando estratégico. É essa tensão que Patricia Pitcher diagnosticou décadas atrás, e que pesquisas recentes sobre o temperamento financeiro tornam ainda mais urgente.

O ponto de partida é incômodo: estudos de Holmén e colaboradores e de Bottasso e colaboradores mostram que profissionais do setor financeiro diferem sistematicamente da população trabalhadora geral. São mais tolerantes ao risco, mais competitivos, mais orientados ao interesse próprio — e, em média, menos confiáveis. A cultura organizacional, e não um suposto caráter inato, parece ser o principal motor desse comportamento; quando a identidade profissional do setor se torna saliente, ela pode funcionar como um catalisador de condutas eticamente questionáveis.

O ponto não é condenar o indivíduo, mas reconhecer que o ambiente seleciona e amplifica certos traços — e que isso tem consequências sistêmicas para quem governa as organizações. 

A taxonomia de Pitcher oferece uma lente precisa para entender o problema. Ela identificou três perfis executivos fundamentais: o 'Artista', visionário e intuitivo, que enxerga possibilidades onde outros veem apenas incerteza; o 'Artesão', sábio e dedicado, guardião da maestria técnica e da qualidade; e o 'Tecnocrata', metódico e rígido, cuja bússola aponta invariavelmente para o detalhe mensurável, a regra e o dado histórico. Cada um tem seu papel. O problema começa quando o Tecnocrata ocupa sozinho o centro do poder.

A hegemonia tecnocrática produz um mecanismo perverso de exclusão. O Artista, cujas intuições sobre o futuro não cabem em nenhuma célula de planilha, é rotulado de "maluco" ou irresponsável. O Artesão, que defende a profundidade do saber-fazer humano diante da padronização compulsória, é tratado como um anacronismo a ser automatizado. Ambos são ativos estratégicos de primeira ordem — um oferece o mapa para territórios ainda não explorados, o outro garante que a travessia seja feita com competência real. Ao marginalizá-los, a organização amputou exatamente o que precisaria para se reinventar em tempos de ruptura.

O custo dessa monocultura comportamental é elevado e pouco visível nos balanços de curto prazo. A planilha que promete certeza é, por natureza, retrospectiva: ela descreve bem o mundo que já existiu, mas é cega para as descontinuidades que ainda não geraram dados. O temperamento tecnocrático é estruturalmente incapaz de tolerar o risco não mensurável — e é exatamente esse desconforto que acompanha toda criação de valor genuinamente novo. Ao transformar o rigor analítico em instrumento de encerramento de debates em vez de iluminação deles, o Tecnocrata no comando não administra riscos; ele administra a decadência de forma organizada.

Para o Brasil, a questão ganha uma dimensão adicional. Uma economia que remunera excessivamente a gestão financeira em detrimento da inovação e da maestria técnica corre o risco de consolidar uma estrutura rentista, hábil em otimizar o que existe mas incapaz de construir relevância global.

O país não tem escassez de Tecnocratas competentes. O que está em risco é o espaço institucional para os Artistas e os Artesãos — os únicos capazes, respectivamente, de imaginar caminhos inéditos e de percorrê-los com excelência. 

A solução não passa pela eliminação do perfil tecnocrático, cuja disciplina é insubstituível na execução. Passa por impedir sua hegemonia. Conselhos de administração e CEOs que levam a sério a resiliência institucional precisam isolar deliberadamente os espaços de inovação do escrutínio analítico prematuro, tratar a maestria técnica como vantagem competitiva e não como custo a reduzir, e reconhecer os "sinais de alerta" no discurso interno — aquele momento em que a frase "os dados não suportam isso" é usada não para qualificar uma decisão, mas para sufocar uma ideia antes que ela tenha chance de existir.

O detalhe deve servir à visão. Quando a equação se inverte, não é apenas uma empresa que perde. É a capacidade coletiva de construir algo que ainda não está na planilha.


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