A lição de Kobe Bryant sobre o básico: o que a mentalidade “next play” ensina à expansão no franchising

No setor, a escalabilidade depende de replicabilidade. E replicabilidade depende de simplicidade operacional. Simplificar não é reduzir ambição; é proteger a capacidade de entrega

Lyana Bittencourt
27/Fev/2026
CEO do Grupo Bittencourt
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A lição de Kobe Bryant sobre o básico: o que a mentalidade “next  play” ensina à expansão no franchising

A palestra conduzida por Allen Stein Jr., especialista em performance, liderança e mentalidade de alta performance, que ocorreu nesta quarta-feira (25/02), durante a Convenção Anual da IFA 2026 (da Associação Internacional de Franchising), revelou uma tese estratégica sobre performance aplicada à expansão: simplificar para executar, dominar fundamentos e crescer com consistência e não com ansiedade.

O palestrante contou uma história simples, mas poderosa, com Kobe Bryant, então melhor jogador de basquete do mundo, ocorrida em 2007. Convidado pela Nike para acompanhar um treino de Kobe, Allen chegou ao ginásio às 3h30 da manhã para observar o início das atividades e se surpreendeu ao ver o jogador já em quadra, suando, executando movimentos extremamente básicos. Fundamentos que qualquer jovem atleta aprende no início da formação.

Intrigado, Allen questionou-o por que alguém no topo da performance dedicava tanto tempo ao que parecia elementar. A resposta foi direta: “Por que você acha que eu sou o melhor do mundo? Porque eu nunca fico entediado com o básico”.

Essa frase organiza toda a lógica do franchising e oferece uma leitura profunda para osetor. Não é um recurso emocional ou motivacional, mas uma declaração estrutural. O setor de franquias, especialmente em ciclos de crescimento, tende a buscar diferenciação por meio de novos formatos, discursos sofisticados e camadas adicionais de processo.

No entanto, a expansão sustentável raramente falha por falta de inovação; falha por abandono de fundamento. Kobe revelou um princípio que o franchising muitas vezes ignora: excelência não nasce de novidade constante, mas de disciplina contínua sobre fundamentos.

Quando Allen propõe que “básico não é sinônimo de fácil”, e que “complexidade mina a execução”, ele descreve um problema recorrente em redes em crescimento. À medida que a expansão acelera, surge a tentação de sofisticar processos, de criar novas etapas na operação e multiplicar indicadores. O resultado, frequentemente, é o oposto do desejado, gerando menos clareza, menos aderência e menor taxa de execução.

No franchising, a escalabilidade depende de replicabilidade. E replicabilidade depende de simplicidade operacional. Simplificar não é reduzir ambição; é proteger a capacidade de entrega.

Allen não propõe abandonar tecnologia ou novas ferramentas; pelo contrário, reconhece que o mundo está mudando e que a inovação é inevitável. O que ele defende é que inovação sem base sólida gera instabilidade. Em redes, isso significa que a digitalização comercial ou o uso de IA não substituem um processo de qualificação consistente, uma cultura clara e um modelo validado. Eles potencializam, mas não compensam fragilidades estruturais.

O muro de tijolos

Em um ambiente naturalmente complexo como o franchising, não se controla o cenário externo, mas se controla esforço e atitude. É o que Allen chama de “winner’s mindset” — mentalidade vencedora —, ou seja, fazer o melhor possível com o que se tem, onde se está. Redes que assumem responsabilidade avançam; redes que se fixam no que “deveria ter sido” perdem potência de ação.

Allen usa a metáfora do “muro de tijolos” para explicar que grandes resultados não são construídos olhando para a meta final, mas executando corretamente cada etapa do processo. Diante da necessidade de construir um muro grande, há duas posturas possíveis: fixar-se na imaginação de trabalhar em uma obra, ou concentrar-se em colocar um tijolo de cada vez, com precisão.

O muro representa a meta pautada em crescimento da rede, atingimento do faturamento e expansão de unidades. Os tijolos representam as ações diárias, como qualificar leads, seguir o processo comercial, treinar com padrão e acompanhar indicadores.

O muro representa a conquista final: o campeonato, o reconhecimento, o crescimento da rede, a meta anual atingida. Os tijolos representam o que realmente constrói essa conquista que são os fundamentos treinados e os processos repetidos com disciplina. Kobe não treinava “o campeonato”; ele treinava o próximo fundamento. Ele colocava um tijolo de cada vez.

Essa é a conexão direta com a mentalidade “next play”. Focar na “próxima jogada”, controlar os controláveis e priorizar o processo antes da meta. No jogo, um atleta pode se perder pensando no placar final, no erro anterior ou na pressão da partida inteira. Crescer exige coragem para manter o básico sob excelência enquanto se inova com critério.

No fim, expansão sustentável não é sobre velocidade isolada e excesso de complexidade. É sobre capacidade contínua de entregar promessa com consistência, clareza e execução disciplinada. Foque no que está sob seu controle agora; execute com qualidade o próximo movimento e confie que a soma das execuções consistentes produzirá o resultado.

Kobe não se tornou extraordinário por pensar no troféu enquanto treinava. Ele se tornou extraordinário porque tratava cada repetição básica como essencial. Cada fundamento bem executado era um tijolo. E milhares de tijolos bem colocados constroem algo aparentemente monumental.

E essa é a essência que conecta a história de Kobe Bryant à metáfora do muro de tijolos e à mentalidade “next play”: grandeza é consequência da qualidade repetida no próximo movimento. 

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IMAGEM: Agência Brasil

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