A nova guerra tarifária de Trump: como ficam os produtos brasileiros após reviravolta da Suprema Corte

Uma decisão histórica forçou governo a abandonar a controversa medida, e a Casa Branca respondeu rapidamente impondo uma nova tarifa de 15%. Arranjo reconfigura cenário do comércio internacional mas, paradoxalmente, as exportações brasileiras podem emergir entre as maiores beneficiadas

Maurício Manfré
23/Fev/2026
Assessor de negócios internacionais da SP Chamber of Commerce e conselheiro do CECIEx
  • btn-whatsapp
A nova guerra tarifária de Trump: como ficam os produtos brasileiros após reviravolta da Suprema Corte

Uma decisão histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos na última sexta-feira (20/02) forçou o governo de Donald Trump a abandonar seu controverso "tarifaço", mas a Casa Branca respondeu rapidamente com a imposição de uma nova tarifa global de 15%. A medida reconfigura o cenário do comércio internacional e traz implicações diretas para as exportações brasileiras, que, paradoxalmente, podem emergir como umas das maiores beneficiadas no novo arranjo.

A queda do tarifaço e a rápida resposta de Trump

A Suprema Corte, em uma votação de 6 a 3, determinou que o presidente Donald Trump excedeu sua autoridade ao utilizar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para impor tarifas abrangentes sem a aprovação do Congresso [1]. Essa decisão invalidou a chamada "tarifa recíproca" de 10%, e a sobretaxa de 40% que havia sido aplicada a uma série de produtos brasileiros desde 2025 [2].

Contudo, a resposta da Casa Branca foi imediata. Invocando a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite a imposição de tarifas temporárias por até 150 dias para corrigir desequilíbrios na balança de pagamentos, Trump anunciou inicialmente uma nova tarifa global de 10%, que foi elevada para 15% no dia seguinte [3][4].

"Agora estou indo em uma direção diferente. Provavelmente a direção que eu deveria ter ido desde o início. Uma direção mais forte", declarou Trump, sinalizando a continuidade de sua política comercial protecionista [4].

O impacto nos produtos brasileiros: um cenário de ganhos e perdas

A substituição de um sistema de tarifas direcionadas e punitivas por uma alíquota global uniforme de 15% coloca o Brasil em uma posição vantajosa. Segundo um estudo da Global Trade Alert, uma organização independente que monitora o comércio global, o Brasil será o país mais beneficiado pela mudança, com uma queda de 13,6 pontos percentuais na tarifa média de importação aplicada a seus produtos [5].

Antes da decisão, a tarifa média sobre os produtos brasileiros era de 26,3%. Com o novo modelo, essa barreira cai para 12,8% [5]. Isso ocorre porque a nova taxa de 15% é significativamente menor que as sobretaxas anteriores, que chegaram a 50% para diversos itens. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que, como a alíquota é aplicada de forma uniforme a todos os países, o Brasil não perde competitividade [2].

Produtos com Condições Especiais

A nova política tarifária, no entanto, não é homogênea e estabelece condições distintas para diferentes categorias de produtos.


Categoria de Produtos

 Condição Tarifária nos EUA  Base Legal/Observações

Maioria dos Produtos

 Tarifa-padrão + 15% de sobretaxa global  Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 - Válida por 150 dias

Aço e Alumínio 

 Tarifa-padrão + 50% (Seção 232) + 15% (Seção 122)  As tarifas de segurança nacional sa Seção 232 permanecem em vigor e são somadas à nova taxa global [2]

Produtos Isentos

 Tarifa zero (isenção da sobretaxa de 155)  Lista de exceções divulgada pela Casa Branca [3]


Lista de Produtos Isentos da Tarifa de 15%

O governo americano divulgou uma lista de produtos que estarão isentos da nova sobretaxa de 15%. Para o Brasil, a isenção de produtos agrícolas é particularmente relevante. Itens que anteriormente foram alvo de negociações e isenções, como café e carnes, agora se beneficiam da isenção total da nova tarifa [3][5].

Principais categorias de produtos isentos:

• Produtos Agrícolas: Incluindo carne bovina, café, suco de laranja, tomates e laranjas.
• Energia e Recursos Naturais: Combustíveis, minerais críticos e fertilizantes.
• Produtos Farmacêuticos: Medicamentos e ingredientes farmacêuticos.
• Componentes Eletrônicos
• Veículos e Produtos Aeroespaciais
• Materiais Informativos (livros, por exemplo)

Perspectivas Futuras e a Negociação Diplomática

Apesar do alívio imediato para muitos setores, o cenário permanece incerto. A tarifa de 15% é temporária e sua manutenção dependerá de aprovação do Congresso americano. Além disso, o governo Trump pode recorrer a outras bases legais, como a Seção 301, para impor novas tarifas a setores específicos [4].

Nesse contexto, as negociações diplomáticas são cruciais. Um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump está previsto para março, na Casa Branca. O governo brasileiro aposta nessa reunião para garantir um tratamento comercial justo e evitar novas sobretaxas, especialmente em setores estratégicos como o de máquinas e equipamentos [6].

"Não queremos uma nova Guerra Fria", afirmou Lula, defendendo o diálogo e um tratamento igualitário por parte dos Estados Unidos [5].

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a decisão da Suprema Corte afeta um volume de US$ 21,6 bilhões em exportações brasileiras, evidenciando a alta relevância do tema para a economia do país [5]. O desenrolar das próximas semanas e o resultado do encontro presidencial serão decisivos para consolidar os ganhos obtidos e definir o futuro das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

Referências
[1] SCOTUSblog. "Supreme Court strikes down tariffs". https://www.scotusblog.com/2026/02/supreme-court-strikes-down-tariffs/

[2] G1. "Tarifaço de Trump: veja mudanças e como ficam cobranças para o Brasil". https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/02/23/tarifaco-de-trump-entenda-as-mudancas.ghtml

[3] CNN Brasil. "Quais produtos ficaram de fora da nova tarifa de Trump? Veja lista". https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/quais-produtos-ficaram-de-fora-da-nova-tarifa-de-trump-veja-lista/

[4] CNN Brasil. "Entenda as leis americanas que Trump usa para aplicar o 'tarifaço'". https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/entenda-as-leis-americanas-que-trump-usa-para-aplicar-o-tarifaco/

[5] DW. "Brasil é o maior beneficiado por nova taxa global de Trump". https://www.dw.com/pt-br/brasil-e-o-maior-beneficiado-por-nova-taxa-global-de-trump-diz-estudo/a-76081056

[6] CNN Brasil. "Brasil aposta fichas em encontro Lula-Trump em meio à tensão das tarifas". https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/clarissa-oliveira/politica/brasil-aposta-fichas-em-encontro-lula-trump-em-meio-a-tensao-das-tarifas/


IMAGEM:  Freepik

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada