A nova guerra tarifária de Trump: como ficam os produtos brasileiros após reviravolta da Suprema Corte
Uma decisão histórica forçou governo a abandonar a controversa medida, e a Casa Branca respondeu rapidamente impondo uma nova tarifa de 15%. Arranjo reconfigura cenário do comércio internacional mas, paradoxalmente, as exportações brasileiras podem emergir entre as maiores beneficiadas

Uma decisão histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos na última sexta-feira (20/02) forçou o governo de Donald Trump a abandonar seu controverso "tarifaço", mas a Casa Branca respondeu rapidamente com a imposição de uma nova tarifa global de 15%. A medida reconfigura o cenário do comércio internacional e traz implicações diretas para as exportações brasileiras, que, paradoxalmente, podem emergir como umas das maiores beneficiadas no novo arranjo.
A queda do tarifaço e a rápida resposta de Trump
A Suprema Corte, em uma votação de 6 a 3, determinou que o presidente Donald Trump excedeu sua autoridade ao utilizar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para impor tarifas abrangentes sem a aprovação do Congresso [1]. Essa decisão invalidou a chamada "tarifa recíproca" de 10%, e a sobretaxa de 40% que havia sido aplicada a uma série de produtos brasileiros desde 2025 [2].
Contudo, a resposta da Casa Branca foi imediata. Invocando a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite a imposição de tarifas temporárias por até 150 dias para corrigir desequilíbrios na balança de pagamentos, Trump anunciou inicialmente uma nova tarifa global de 10%, que foi elevada para 15% no dia seguinte [3][4].
"Agora estou indo em uma direção diferente. Provavelmente a direção que eu deveria ter ido desde o início. Uma direção mais forte", declarou Trump, sinalizando a continuidade de sua política comercial protecionista [4].
O impacto nos produtos brasileiros: um cenário de ganhos e perdas
A substituição de um sistema de tarifas direcionadas e punitivas por uma alíquota global uniforme de 15% coloca o Brasil em uma posição vantajosa. Segundo um estudo da Global Trade Alert, uma organização independente que monitora o comércio global, o Brasil será o país mais beneficiado pela mudança, com uma queda de 13,6 pontos percentuais na tarifa média de importação aplicada a seus produtos [5].
Antes da decisão, a tarifa média sobre os produtos brasileiros era de 26,3%. Com o novo modelo, essa barreira cai para 12,8% [5]. Isso ocorre porque a nova taxa de 15% é significativamente menor que as sobretaxas anteriores, que chegaram a 50% para diversos itens. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que, como a alíquota é aplicada de forma uniforme a todos os países, o Brasil não perde competitividade [2].
Produtos com Condições Especiais
A nova política tarifária, no entanto, não é homogênea e estabelece condições distintas para diferentes categorias de produtos.
Categoria de Produtos |
Condição Tarifária nos EUA | Base Legal/Observações |
Maioria dos Produtos |
Tarifa-padrão + 15% de sobretaxa global | Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 - Válida por 150 dias |
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Aço e Alumínio |
Tarifa-padrão + 50% (Seção 232) + 15% (Seção 122) | As tarifas de segurança nacional sa Seção 232 permanecem em vigor e são somadas à nova taxa global [2] |
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Produtos Isentos |
Tarifa zero (isenção da sobretaxa de 155) | Lista de exceções divulgada pela Casa Branca [3] |
Lista de Produtos Isentos da Tarifa de 15%
O governo americano divulgou uma lista de produtos que estarão isentos da nova sobretaxa de 15%. Para o Brasil, a isenção de produtos agrícolas é particularmente relevante. Itens que anteriormente foram alvo de negociações e isenções, como café e carnes, agora se beneficiam da isenção total da nova tarifa [3][5].
Principais categorias de produtos isentos:
• Produtos Agrícolas: Incluindo carne bovina, café, suco de laranja, tomates e laranjas.
• Energia e Recursos Naturais: Combustíveis, minerais críticos e fertilizantes.
• Produtos Farmacêuticos: Medicamentos e ingredientes farmacêuticos.
• Componentes Eletrônicos
• Veículos e Produtos Aeroespaciais
• Materiais Informativos (livros, por exemplo)
Perspectivas Futuras e a Negociação Diplomática
Apesar do alívio imediato para muitos setores, o cenário permanece incerto. A tarifa de 15% é temporária e sua manutenção dependerá de aprovação do Congresso americano. Além disso, o governo Trump pode recorrer a outras bases legais, como a Seção 301, para impor novas tarifas a setores específicos [4].
Nesse contexto, as negociações diplomáticas são cruciais. Um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump está previsto para março, na Casa Branca. O governo brasileiro aposta nessa reunião para garantir um tratamento comercial justo e evitar novas sobretaxas, especialmente em setores estratégicos como o de máquinas e equipamentos [6].
"Não queremos uma nova Guerra Fria", afirmou Lula, defendendo o diálogo e um tratamento igualitário por parte dos Estados Unidos [5].
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a decisão da Suprema Corte afeta um volume de US$ 21,6 bilhões em exportações brasileiras, evidenciando a alta relevância do tema para a economia do país [5]. O desenrolar das próximas semanas e o resultado do encontro presidencial serão decisivos para consolidar os ganhos obtidos e definir o futuro das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Referências
[1] SCOTUSblog. "Supreme Court strikes down tariffs". https://www.scotusblog.com/2026/02/supreme-court-strikes-down-tariffs/
[2] G1. "Tarifaço de Trump: veja mudanças e como ficam cobranças para o Brasil". https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/02/23/tarifaco-de-trump-entenda-as-mudancas.ghtml
[3] CNN Brasil. "Quais produtos ficaram de fora da nova tarifa de Trump? Veja lista". https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/quais-produtos-ficaram-de-fora-da-nova-tarifa-de-trump-veja-lista/
[4] CNN Brasil. "Entenda as leis americanas que Trump usa para aplicar o 'tarifaço'". https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/entenda-as-leis-americanas-que-trump-usa-para-aplicar-o-tarifaco/
[5] DW. "Brasil é o maior beneficiado por nova taxa global de Trump". https://www.dw.com/pt-br/brasil-e-o-maior-beneficiado-por-nova-taxa-global-de-trump-diz-estudo/a-76081056
[6] CNN Brasil. "Brasil aposta fichas em encontro Lula-Trump em meio à tensão das tarifas". https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/clarissa-oliveira/politica/brasil-aposta-fichas-em-encontro-lula-trump-em-meio-a-tensao-das-tarifas/
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