ANÁLISE | Protecionismo e diplomacia: o impacto do novo tarifaço dos EUA sobre o Brasil e as exceções estratégicas
Investigação conduzida sob a Seção 301 mira desde o Pix até políticas ambientais brasileiras, enquanto lista de exceções revela a dependência americana de produtos estratégicos do Brasil

Em um desdobramento que eleva as tensões comerciais entre as duas maiores economias das Américas, o governo dos Estados Unidos, liderado pelo presidente Donald Trump, propôs formalmente a aplicação de uma tarifa punitiva de 25% sobre uma ampla gama de produtos importados do Brasil [1]. O anúncio, realizado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) na noite de 1º de junho de 2026, é o resultado de uma investigação detalhada conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 [2].
Essa legislação autoriza o Executivo norte-americano a aplicar sanções comerciais unilaterais contra países cujas políticas ou práticas sejam consideradas irrazoáveis, discriminatórias ou restritivas ao comércio dos Estados Unidos [2].
A investigação comercial foi aberta em julho de 2025 por determinação direta da Casa Branca [3]. Ao longo de quase um ano de apuração, o USTR analisou o que classificou como "práticas desleais" por parte do governo brasileiro em seis áreas fundamentais, que vão desde a governança digital e proteção de propriedade intelectual até políticas ambientais e barreiras tarifárias recíprocas [2] [3].
Embora a medida represente uma ameaça severa ao comércio bilateral, o relatório final de 73 páginas divulgado pelo órgão norte-americano estabeleceu uma robusta lista de exceções que poupa setores vitais da economia brasileira, como o agronegócio e a aviação comercial [1] [3].
Os seis pilares da investigação norte-americana
O relatório do USTR detalha as justificativas técnicas e jurídicas para a recomendação do tarifaço de 25%. A administração norte-americana aponta que o Brasil falhou em cooperar ou em adequar suas políticas internas às exigências de reciprocidade comercial [2]. As acusações estão estruturadas em seis eixos principais:
"O relatório aponta que políticas e práticas do Brasil relacionados ao comércio digital, tarifas preferenciais desleais, aplicação de medidas anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, e desmatamento ilegal oneram ou restringem o comércio norte-americano." [3]
1. Comércio digital e o sistema de pagamentos (Pix)
A ascensão do Pix e as decisões do Judiciário brasileiro sobre redes sociais foram duramente criticadas. O USTR alega que o Banco Central do Brasil atua simultaneamente como regulador e operador do Pix, o que criaria um conflito de interesses que prejudica as empresas americanas de pagamentos eletrônicos [2]. Além disso, o relatório menciona "ordens secretas" de tribunais brasileiros que exigiram a remoção de conteúdo político e suspensão de perfis em plataformas como X, Meta e Google, sob pena de pesadas multas e congelamento de ativos [2] [3].
2. Tarifas preferenciais com terceiros países
Os EUA acusam o Brasil de discriminação tarifária devido a acordos bilaterais de escopo parcial mantidos com o México e a Índia [2]. Segundo o USTR, o Brasil concede tarifas preferenciais substancialmente mais baixas (entre 10% e 100% menores do que as aplicadas aos produtos dos EUA) a centenas de produtos desses países [2]. Como México e Índia competem diretamente com as exportações americanas, essa política estaria minando a participação de mercado dos EUA e incentivando a transferência de indústrias americanas para esses territórios [2].
3. Retrocesso no combate à corrupção
A administração Trump argumenta que o Brasil enfraqueceu o combate à corrupção transnacional. O relatório cita explicitamente a anulação de sentenças e provas obtidas no âmbito da Operação Lava Jato por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) [2]. Na visão do USTR, a impunidade de práticas corruptas gera uma concorrência desleal para as empresas americanas, que são obrigadas a seguir legislações severas contra o suborno no exterior, como a Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) [2].
4. Fragilidade na propriedade intelectual e pirataria
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) foi criticado pela morosidade crônica na análise de patentes, que leva em média 38 meses — chegando a até 109 meses para produtos biofarmacêuticos [2]. Essa demora reduziria o tempo útil de exploração comercial das inovações americanas [2]. O relatório também aponta falhas no combate à pirataria e a não adesão do Brasil a importantes tratados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) [2].
5. Barreiras ao etanol americano
A disputa sobre biocombustíveis é antiga. Os EUA afirmam que o Brasil quebrou o acordo de reciprocidade ao impor uma tarifa de 18% sobre o etanol norte-americano a partir de 2017 para proteger seus produtores internos [2] [3].
Enquanto os EUA mantiveram tarifas baixas para o biocombustível brasileiro, as exportações americanas para o Brasil despencaram, gerando prejuízos bilionários aos agricultores dos EUA [2].
6. Concorrência desleal via desmatamento ilegal
O fator ambiental foi traduzido em termos estritamente comerciais. O USTR afirma que o Brasil não aplica suas leis ambientais de forma eficaz, permitindo que mais de 90% do desmatamento na Amazônia seja ilegal e rapidamente convertido em pastagens para pecuária e cultivo de grãos [2]. Como os custos de produção em terras desmatadas ilegalmente são menores, os produtores brasileiros competiriam no mercado global com preços artificialmente baixos, prejudicando os fazendeiros norte-americanos [2].
A lista de exceções: o escudo do agronegócio e da aviação
Para evitar o desabastecimento de matérias-primas essenciais na indústria norte-americana e mitigar o impacto inflacionário sobre o consumidor final dos EUA, o governo Trump desenhou uma extensa lista de isenções [1] [3]. A exclusão de produtos agrícolas e de alta tecnologia demonstra a dependência mútua das duas nações em cadeias globais de suprimentos [1].
A seguir, os principais produtos brasileiros que foram poupados do tarifaço de 25%:
Agronegócio e Alimentos - Carne bovina, café, chá, especiarias, frutas, nozes, cereais, sementes, frutos oleaginosos, plantas medicinais, palhas e forragens. Justificativa: Produtos que não podem ser cultivados ou produzidos em quantidades suficientes nos EUA.
Aeroespacial - Aeronaves comerciais, jatos executivos, peças e componentes aeronáuticos (Embraer). Justificativa: Risco de desestruturação das cadeias globais de aviação e aumento de custos para companhias aéreas americanas.
Energia - Petróleo bruto e combustíveis derivados. Justificativa: Evitar impactos diretos nos preços dos combustíveis e na inflação doméstica dos EUA.
Indústria Química e Saúde - Compostos farmacêuticos, produtos químicos orgânicos e fertilizantes. Justificativa: Insumos críticos para a saúde pública e para a produtividade da própria agricultura norte-americana.
Mineração e Tecnologia - Minerais de terras raras, minérios específicos e metais estratégicos. Justificativa: Componentes vitais para a indústria de semicondutores, transição energética e defesa nacional dos EUA.
Cronograma do processo e janela de negociação
A imposição das tarifas não será imediata. O governo norte-americano estabeleceu um rito processual que concede um período para manifestações públicas e negociações bilaterais diretas [3]. O prazo legal final para a tomada de decisões corretivas é 15 de julho de 2026 [1] [3].
O cronograma oficial divulgado pelo USTR define as seguintes etapas:
1 Até 22 de junho de 2026: Prazo limite para que empresas, associações e governos interessados solicitem participação na audiência pública, acompanhado do resumo de seus depoimentos [3].
2 Até 1º de julho de 2026: Prazo final para o envio de comentários formais e objeções por escrito a respeito das tarifas propostas [3].
3 6 de julho de 2026: Realização da audiência pública presencial em Washington, onde defensores e opositores da medida apresentarão seus argumentos técnicos [3].
4 15 de julho de 2026: Data limite para a publicação da decisão final e início da aplicação prática das tarifas de 25% sobre os produtos não isentos [1] [3].
Impactos Econômicos e Cenário Diplomático
Embora a exclusão do agronegócio e da Embraer represente um alívio temporário significativo para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, os setores industriais que restaram na mira da sobretaxa enfrentam grave incerteza [4]. Produtos manufaturados de aço, ferro, calçados, têxteis, autopeças, plásticos e móveis de madeira correm o risco de perder competitividade no mercado americano, que é historicamente o principal destino dos produtos industrializados de alto valor agregado do Brasil [2] [4].
Especialistas em comércio exterior apontam que, apesar do tom agressivo da medida, o impacto macroeconômico real pode ser contornado caso a diplomacia brasileira atue de forma pragmática [5]. O embaixador dos EUA no Brasil, Jamieson Greer, ressaltou que, embora existam "divergências substanciais", a Casa Branca manteve reuniões construtivas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros, sinalizando que há espaço para um acordo bilateral antes de meados de julho [1] [3].
O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicaram que o governo brasileiro utilizará o período de consultas públicas para contestar tecnicamente os pontos do relatório [1] [5]. O principal argumento brasileiro será o de que suas políticas regulatórias, ambientais e financeiras cumprem rigorosamente os tratados multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando desarmar o tarifaço antes do prazo fatal de 15 de julho [1] [2].
Referências
• [1] Agência Brasil. Governo dos EUA propõe nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-06/governo-dos-eua-propoe-nova-tarifa-sobre-produtos-brasileiros. Acesso em: 2 jun. 2026.
• [2] Consultor Jurídico (ConJur). EUA citam 'práticas injustas' e propõem tarifa de 25% a produtos brasileiros. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2026-jun-02/eua-citam-praticas-desleais-e-propoem-tarifa-de-25-a-produtos-brasileiros/. Acesso em: 2 jun. 2026.
• [3] Revista Veja. Estados Unidos propõem nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/estados-unidos-propoem-nova-tarifa-de-25-sobre-produtos-brasileiros/. Acesso em: 2 jun. 2026.
• [4] BBC News Brasil. 'Obstáculos ao comércio' e 'incerteza': as reações à ameaça de novo tarifaço dos EUA contra o Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y8nw1xng3o. Acesso em: 2 jun. 2026.
• [5] Rede 98. Tarifa de 25% dos EUA preocupa, mas impacto pode ser menor que o anunciado, avalia especialista. Disponível em: https://rede98.com.br/noticias/economia/tarifa-de-25-dos-eua-preocupa-mas-impacto-pode-ser-menor-que-o-anunciado-em-2025-avalia-gustavo-andrade/. Acesso em: 2 jun. 2026.
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IMAGEM: Agência Brasil

