As bets e a voz do povo

Assistimos uma transferência importante da economia popular para corporações de jogos que, mesmo operando sob a legalidade das novas regras, continuam gerando os mesmos malefícios sociais e financeiros

Arthur Gebara Junior
30/Mai/2026
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As bets e a voz do povo

A sabedoria popular impressiona pela exatidão e pela maneira bem-humorada como analisa e traduz questões econômicas e políticas complexas. Isso se aplica, especialmente, ao que é rapidamente incorporado ao cotidiano, como as apostas online, uma crescente fonte de preocupação pelos seus efeitos negativos na economia.

Os vendedores informais são figuras familiares aos frequentadores do Metrô de São Paulo. Eles vendem de tudo: desde guarda-chuvas “inquebráveis” até produtos de tecnologia, como fones de ouvido sem fio, carregadores de celular e carteiras com dispositivos antifurto. Tudo é informalmente adquirido e oferecido aos usuários dos mais de 400 km de linhas de transporte ferroviário e metroviário da capital.

Numa dessas viagens, um vendedor de guarda-chuvas, que teve pouco ou nenhum sucesso em negociar seus produtos no vagão, encostou-se num canto. Em conversa com uma passageira, ele ainda tentou oferecer a mercadoria, apesar de não estar chovendo: “Faço dez reais para a senhora. Promoção de última hora. Quero ir para casa.” A moça, com uma expressão desanimada, respondeu: “Não tenho nem 10 reais.”

O vendedor disparou, então, sua certeira avaliação da realidade econômica do país: “É isso! O tal do 'Tigrinho' está acabando com o dinheiro das pessoas. É fácil jogar e a esperança de ganhar alguma coisa faz a gente não parar. Mas não há de ser nada, tudo vai mudar no próximo governo, fiquem tranquilos.”

O vendedor, assim como a grande maioria dos usuários do "Jogo do Tigrinho" e de outros cassinos virtuais, já sofre isso na pele, e, provavelmente, já está tomado pelo vício e sufocado financeiramente. Além do evidente ataque à economia popular, a rápida expansão dessas plataformas, a chamada “epidemia das bets”, provoca grande impacto na renda familiar. Especialistas já apontam um claro redirecionamento de recursos que antes iam para o consumo básico, diretamente para esses jogos. 

Como ocorre com frequência no Brasil, as bets se expandiram de forma acelerada antes que houvesse uma ação efetiva do poder público para regulamentar ou conter uma atividade nociva, repleta de efeitos psicossociais negativos. Diante dos alertas, o governo federal implementou um arcabouço de fiscalização por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas, bloqueando sites ilegais. Além disso, novas legislações elevaram o imposto sobre as plataformas.

Há uma clara ironia nas ações do governo contra as apostas eletrônicas: ao mesmo tempo em que restringe as bets, o Estado se beneficia diretamente das loterias oficiais, que de acordo com o Relatório de Administração da Caixa de 2024 foi de R$25,9 bilhões. Os dados de 2025 ainda não foram publicados no total. Mas a estimativa, tendo como base o resultado do primeiro semestre já é de uma arrecadação 6% menor do que a de 2024. Atribui -se a queda à concorrência brutal dos jogos online. De qualquer forma, embora cerca de 48% da arrecadação desse montante seja destinado a áreas essenciais como cultura, educação, saúde e esporte, o governo federal ainda retém uma parcela considerável da arrecadação na forma de impostos e despesas administrativas.

Apesar da regulamentação e da criação de uma lista de operadoras autorizadas a atuar no domínio das bets, o impacto financeiro continua devastador. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC) entre janeiro de 2023 e março de 2026, as plataformas de apostas online retiraram cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro.

Provavelmente, o dinheiro que o ambulante do metrô tentava conquistar foi absorvido pelos jogos no celular. Assistimos, assim, a uma transferência importante da economia popular para corporações de jogos que, mesmo operando sob a legalidade das novas regras, continuam gerando os mesmos malefícios sociais e financeiros.


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