Desenrola 2
Apenas com o equilíbrio das finanças públicas pelo corte de gastos o governo, aumentando o investimento em infraestrutura e tecnologia, poderá reativar a economia de forma saudável com aumento do emprego e crescimento da renda.

A população brasileira, assim como as empresas, especialmente as menores, se acha bastante endividada, o que levou o governo a criar o Programa 'Desenrola 2' para facilitar as negociações para sua redução, ou, pelo menos, seu reescalonamento em condições mais favoráveis de juros e prazos.
O Programa tem várias vertentes, abrangendo as famílias, as empresas, os estudantes, as pequenas empresas e pequeno empreendedor rural.
Para analisar o possível impacto do programa, é interessante verificar os dados desse endividamento, a começar pelo da pessoa física. Os dados revelam que 82,8% de endividados, ou 49% da população, apresentam dívidas, sendo que 47% das dívidas se referem a instituições financeiras, e são sujeitas a taxas de juros muito elevadas, enquanto 21% são referentes à água, luz e gás, utilidades domésticas essenciais e sujeitas a cortes em caso de inadimplência.
As dívidas totalizam 338,2 milhões de registros, com valor de R$ 6.728,54 por pessoa, e de R$ 1.647,64 por dívida - o que significa que a maioria tem mais de uma dívida.
A partir desse cenário, cabe discutir as causas do endividamento e também da inadimplência. Essas causas são múltiplas, a começar pelo baixo nível de renda da população que, por desejos ou necessidades, se utilizam do crédito como um reforço da renda, entrando em uma espiral de dívidas que se autoalimenta fortemente pelas taxas de juros elevadas. Dentre os desejos que levam à dívida, o governo atribui uma elevada parcela às bets, pelo que proíbe por um ano aos que participarem do Desenrola o acesso a essa modalidade.
A manutenção das taxas de juros em níveis elevados por muito tempo acaba impactando a economia, reduzindo o crescimento e, em consequência, os rendimentos da população. Além desses fatores macro, pesquisa sobre as causas da inadimplência apontam o desemprego ou perda de renda com 37%, e gastos emergenciais com 16% - o que revela a falta de reservas da população. Desorganização financeira, com 13%, demonstra a importância da educação financeira, que deveria começar já na escola. Ajuda a familiares ou amigos com 10% mostra a solidariedade dessas classes de renda mais baixa, e 7% são atribuídos a atrasos no recebimento dos salários.
Como se pode observar dessa pesquisa, tirando a “desorganização financeira” como causa, as demais se tornam inevitáveis em função da baixa renda e se agravam com o impacto dos juros sobre as dívidas.
Tirando o aspecto eleitoral inegável, o 'Desenrola 2' é oportuno e pode contribuir para amenizar o problema do endividamento pessoal, mas não é uma solução definitiva. E pode se repetir, pois 42% dos endividados já estavam negativos 10 anos atrás.
Entre os aspectos positivos, pode-se considerar o aumento do consumo que, no entanto, estimula o endividamento, pois cria a expectativa de que novas medidas semelhantes virão no futuro. Ao permitir utilizar parcela do FGTS, transforma patrimônio em renda, diminuindo a poupança e a segurança financeira.
Considerando os aspectos estruturais do endividamento, renda baixa e juros altos, apenas com o equilíbrio das finanças públicas pelo corte de gastos, o governo, aumentando o investimento em infraestrutura e tecnologia, poderá reativar a economia de forma saudável, com aumento do emprego e crescimento da renda.
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Imagem: Ato Press/Folhapress

