As músicas de São Paulo
Em todas as canções que selecionei, percebo, além da cidade como elemento central, uma atmosfera de profunda melancolia

Desde que passei a vir todos os dias para São Paulo a trabalho, e especialmente depois que decidi viver aqui, decifrar esta cidade virou uma espécie de obsessão para mim. Acho que já li praticamente tudo o que é ensaio, crônica ou romance que tem a capital paulista como personagem ou pano de fundo – e, inclusive, já falei de alguns desses romances nesse artigo no Diário do Comércio; e também nesse outro. O que aprendi até agora? Que esta cidade tão diversa e multifacetada parece simplesmente indecifrável.
Pois, se não é possível abarcá-la em linhas que sintetizem todas as suas belezas e contradições, um caminho é tentar “sentir” São Paulo – e, para isso, nada melhor do que uma boa trilha sonora. Mas qual seria a trilha sonora desta cidade imensa? Bom, eu tenho a minha, que apresento a seguir em uma cronologia não necessariamente linear.
Voltar à São Paulo de meados do século 20 – a terra da garoa, que crescia em ritmo acelerado impulsionada pela indústria – é ouvir Adoniran Barbosa lamentando a “Saudosa Maloca” que foi demolida para dar lugar a um edifício alto: uma melodia melancólica e anacrônica para uma letra ainda tão atual neste momento de franca expansão imobiliária.
Tão melancólica quanto “Saudosa Maloca” é “Trem das Onze”, outro hino da cidade de Adoniran, cantando agora os lamentos de um amante que precisa ir embora para não perder o trem que o levará ao Jaçanã, bairro na Zona Norte lá para os lados da Serra da Cantareira, de Guarulhos, que na canção parece muito distante, quase como se fosse outra cidade.
São Paulo e Guarulhos cresceram tanto ao longo do século 20 que hoje as duas são como se fossem uma cidade só – e nesta megalópole acelerada, dominada por automóveis, o horário do último trem parece ter dado lugar aos congestionamentos e à violência como motivos de preocupação e elementos limitadores da vida urbana.
O “choro” mais icônico sobre São Paulo, porém, foi composto por Caetano Veloso. Os versos de “Sampa”, tão repetidos nos mais diversos contextos, viraram clichês, é verdade. Nem por isso, contudo, deixam de ser poderosos ao falar da “dura poesia concreta de tuas esquinas”, “da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”, “da força da grana que ergue e destrói coisas belas” – e de novo, aqui, a paisagem urbana em constante transformação, saudosas malocas sendo demolidas para darem lugar a novas construções (nem sempre ou quase nunca belas, porém).
Ainda não havia Rita Lee para o Caetano que chegou à Sampa – que depois reconhece nela a mais perfeita tradução da cidade. Sua canção “Lá vou eu” (que ficou mais famosa na voz da Zélia Duncan), por sinal, talvez seja mesmo a que melhor traduz o sentimento de se viver, “na medida do impossível”, em São Paulo, onde, à noite, as luzes da cidade são as próprias estrelas do céu.
Na música, o sentimento de solidão (em um dos infinitos apartamentos perdidos na cidade) convive com a esperança de topar com o amor imprevisível entre as milhares de pessoas indo e vindo todos os dias – e é exatamente nessas possibilidades de encontros ao acaso que talvez resida a maior beleza da vida numa metrópole como São Paulo.
Em "Ronda", do Paulo Vanzolini, por outro lado, a busca pelo amor ganha um caráter concreto na ronda noturna pelos bares da cidade "a te procurar sem encontrar", um encontro que só parece possível no sonho que “alegria me dá” , pois “nele você está”, ou terminando em tragédia: “cena de sangue num bar da Avenida São João”. As possibilidades de encontros, assim, não passariam de ilusão – e a solidão na cidade seria uma espécie de sina.
A solidão e o isolamento urbano também são tema central da “São Paulo” da banda paulistana Inocentes – que, recentemente, lançou uma versão acústica desse clássico num clipe melancólico em preto e branco. Aqui, temos a cidade impessoal, hostil, em que é difícil se sentir acolhido. “Quem é seu dono? Ninguém, São Paulo”.
Talvez tanta solidão e isolamento sejam explicados pelo fato de que “Não existe amor em SP” – do Criolo, outro clássico incontornável quando se fala deste “labirinto místico onde os grafites gritam”, desta cidade onde “os bares estão cheios de almas tão vazias”, cidade dominada pela ganância, pela vaidade, que parece sugar a nossa vida e dar tão pouco ou quase nada em troca.
Na canção do Criolo, à atmosfera melancólica das canções anteriores se somam elementos relacionados ao sentimento de injustiça, que vão dominar as letras do rap paulistano – e a periferia, a favela, a cidade dos excluídos, que cresce “sem planejamento”, sem infraestrutura, longe do dinheiro, dos empregos e dos serviços, precisa fazer parte de qualquer trilha sonora de São Paulo que se preze.
Aqui é tanta coisa incrível e potente que fica até difícil escolher uma só. “Rap é compromisso”, “Hoje choveu nas Espraiadas”, “Um bom lugar”, “É Santo Amaro a Pirituba o pobre sofre, mas vive”, ambas do Sabotage; “Negro drama”, dos Racionais MC’s, “Hei, São Paulo, terra de arranha-céu, a garoa rasga a carne, é a Torre de Babel”. Tendo crescido em Osasco, que (assim como a já citada Guarulhos) não é, mas também é São Paulo, não poderia deixar de lembrar que “o mundo é diferente da ponte pra cá”.
Em todas as canções que escolhi até agora, percebo, além de São Paulo como elemento central, uma atmosfera de profunda melancolia. São Paulo é, pois, uma cidade melancólica, ou sou eu apenas mais um melancólico a vagar por São Paulo?
Seja como for, atualmente ninguém parece captar melhor essa atmosfera de melancolia urbana tão característica de São Paulo quanto a banda paulistana Terno Rei, em canções como “Solidão de Volta” e “Difícil”.
No clipe de “Solidão de Volta”, temos belas imagens do centro de São Paulo, claramente degradado, é verdade, mas ainda assim vivo, misterioso, interessante: o caos das lojas de eletrônicos na Santa Ifigênia; a linda Estação da Luz; a horrível Avenida Tiradentes, sob a Passarela das Noivas, em contraste com o mural no estilo pop art (hoje apagado) na empena de um prédio; a beleza e a riqueza da Pinacoteca; a vista da Praça Roosevelt e da Igreja da Consolação do alto de um apartamento vazio; os mercadinhos orientais, os restaurantes e as ruas da Liberdade; o Metrô.
No clipe de “Difícil”, vemos um charme noir absolutamente surpreendente em locais horrendos como a passarela de acesso ao Terminal Sacomã do Expresso Tiradentes e a extensa área sombreada e sombria embaixo do Minhocão. O que só pode me levar a concluir este artigo com outro clichê insuperável de São Paulo, essa cidade que é mesmo “o avesso do avesso do avesso do avesso”.
E aí, concordam com a lista? Faltou muita coisa? Para você, qual a trilha sonora que melhor capta a atmosfera da capital paulista?
IMAGEM: Reprodução do site
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