Caixinhas para figurinhas da Copa, feitas com impressão 3D, viram renda extra

Produção sob demanda e personalização impulsionam vendas e geram oportunidades de negócios, como descobriu o empreendedor Fabio Roberto de Lima (na foto), que viu seu hobby passar a ajudar no orçamento da casa

Márcia Rodrigues
06/Jun/2026
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Caixinhas para figurinhas da Copa, feitas com impressão 3D, viram renda extra

Enquanto crianças e adultos correm atrás das figurinhas da Copa do Mundo, outro item vem ganhando espaço entre colecionadores: as caixinhas organizadoras feitas em impressoras 3D. Coloridas, personalizadas e produzidas sob demanda, elas se transformaram em oportunidade de renda extra e empreendedorismo para pequenos negócios e até para adolescentes que enxergam na tecnologia uma forma de financiar os próprios sonhos.

Aos 13 anos, o estudante Luca Bernardo de Albuquerque já produziu mais de 100 caixinhas para guardar figurinhas desde que começou a apostar no tema da Copa do Mundo, há pouco mais de um mês.

“Agora eu quero aprender a criar meus próprios arquivos e peças”, conta o adolescente, que vende os produtos para pagar um curso avançado de design em impressão 3D.

A impressora foi um presente de aniversário dos pais, a fisioterapeuta e chef de cozinha Juliana Albuquerque e o engenheiro Marcelo Albuquerque, e custou R$ 3,5 mil. Desde então, Luca já produziu mais de 500 peças, entre cofres temáticos, suportes para celular e itens personalizados para a Copa do Mundo.

Com ajuda da família, ele produz cerca de dez caixinhas por dia. Os modelos variam entre R$ 30 e R$ 50 e são vendidos em grupos de WhatsApp e no Instagram (@lucaimpressora3d). O movimento acompanha o crescimento acelerado do mercado global de impressão 3D. Segundo relatório da Fortune Business Insights, o setor deve movimentar US$ 105,99 bilhões até 2030, com crescimento médio anual de 24,9%.

Aos 13 anos, Luca Bernardo já empreende e vende suas caixinhas para figurinhas da Copa feitas em impressora 3D por valores entre R$ 30 e R$ 50

 

Negócio movido por tendências

A pedagoga Tatiana Pietrobom começou a trabalhar com impressão 3D no fim de fevereiro deste ano. Desde o início, decidiu apostar em datas comemorativas e tendências sazonais. “Na Páscoa eu foquei em peças sobre o tema. Agora é a vez da Copa do Mundo”, conta.

A propaganda para comercializar as caixinhas está sendo feita pelo Instagram (@taniro_impressao_3d) e em grupos do condomínio onde mora. Desde maio, quando começou a produzir os organizadores para figurinhas, Tatiana já fabricou 200 unidades. E todas já foram vendidas.

Ela é a responsável por toda a produção. “Tenho um cliente que tem uma papelaria e encomenda toda semana. E toda semana aparece criança aqui na minha porta para comprar”, afirma.

As peças custam cerca de R$ 20 e ganharam versões mais simples para atender clientes que buscavam preços menores. Além das caixinhas, ela também apostou em chaveiros verde e amarelo vendidos por R$ 10.

Mesmo com o aumento do preço do filamento (matéria-prima usada para a impressão 3D), Tatiana diz que o negócio continua compensando financeiramente.

“Compramos a máquina e o filamento no Paraguai, mas não vieram as cores verde, amarelo e azul, que estão sendo mais solicitadas neste momento. Porém, mesmo comprando aqui e sendo mais caro, ainda vale muito a pena.”

Sobrinho incentivou produção

O empreendedor Fabio Roberto de Lima também enxergou na Copa do Mundo uma oportunidade de ampliar as vendas. Ele comprou a primeira impressora em dezembro, inicialmente como hobby, após incentivo do sobrinho.

“Eu estava desempregado e ele falou sobre trabalhar com impressão 3D e que poderia ser uma forma de ter um rendimento para ajudar com o orçamento da casa”, lembra.

No começo, Fabio diz que produzia peças para uso próprio. “Tudo era novidade. Eu queria entender o funcionamento.” Depois de um mês, ele passou a pesquisar nichos de mercado e a analisar as oportunidades que estariam ligadas a esse tipo de trabalho. Foi aí que viu a possibilidade de produzir artigos para datas comemorativas.

“Começamos nossa produção de peças com impressão 3D com o Dia das Mães, depois vieram a festa junina e a Copa do Mundo”, afirma.

Hoje ele vende caixinhas e chaveiros personalizados em duas versões diferentes. Os modelos menores custam R$ 20 e os maiores chegam a R$ 40. A divulgação acontece principalmente pelo Instagram (@encantoscamadas3d) e pelo boca a boca na escola da filha.

Fabio se registrou como MEI (microempreendedor individual) para formalizar o negócio. A impressora, comprada de forma parcelada, ainda está sendo paga. Ele trabalha sob encomenda.

Produção sob demanda impulsiona setor

O avanço da impressão 3D, ou manufatura aditiva, como é conhecida, tornou a tecnologia mais acessível e abriu espaço para pequenos empreendedores, segundo o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja.

“O crescimento do mercado mostra que a tecnologia deixou de ser algo distante e caro. Hoje ela está cada vez mais próxima dos pequenos negócios. As possibilidades vão se ampliando. Não é mais algo restrito a empresas ou pessoas ligadas à tecnologia. A impressão 3D se tornou uma ferramenta multifuncional, com aplicações em diversos mercados”, diz Igreja.

Para ele, o grande diferencial da impressão 3D está na capacidade de responder rapidamente a tendências e fabricar produtos sob demanda.

“Algo viraliza do outro lado do mundo e pode ser produzido daqui a cinco minutos. Não existe mais aquela dependência de grandes estoques ou linhas industriais complexas”, explica.

Igreja destaca ainda que o sucesso neste mercado depende menos da impressora 3D e mais da capacidade de identificar oportunidades.

“A tecnologia é o meio. O que faz o negócio parar de pé é a criatividade, a ideia, a divulgação e a velocidade para capturar tendências”, diz.

Impressão 3D deve virar negócio principal de casal

O tapeceiro automotivo Micael Nascimento Maciel começou a trabalhar com impressão 3D há apenas seis meses para complementar a renda. Hoje, já vê a atividade como o principal negócio do futuro. “Estou vendendo mais do que previa”, afirma.

Ele e a esposa, Julia, trabalham juntos na produção de peças vendidas no varejo e no atacado. Atualmente, possuem quatro impressoras em funcionamento e duas em manutenção. Ao todo, o investimento já chegou a R$ 25 mil.

Entre os produtos ligados à Copa do Mundo, Micael já produziu cerca de 230 caixinhas e 100 chaveiros.

“Por mais que hoje a gente não veja mais as ruas pintadas como antigamente, a Copa do Mundo ainda movimenta muita coisa”, diz.

As caixinhas produzidas por ele variam entre R$ 35 e R$ 70, dependendo do tamanho. Além disso, também vende mini taças e acessórios personalizados.

A meta agora é transformar a renda extra em negócio principal. Até o fim do ano, ele pretende chegar a 30 impressoras funcionando.

Casal apostou na impressão 3D para levantar grana extra

O analista financeiro Vitor Motta e a analista tributária Allana Motta também decidiram apostar no mercado de impressão 3D como uma renda complementar. Há algumas semanas, o casal começou a produzir caixinhas para figurinhas da Copa do Mundo e, pouco depois, abriu a loja Tobe na Shopee (@tobem3d) para testar a aceitação de diferentes produtos. As caixinhas rapidamente se tornaram o item mais vendido.

Até agora, foram 50 unidades comercializadas para uma papelaria e outras 10 para conhecidos. Vendidas entre R$ 40 e R$ 45, as peças são produzidas em pronta entrega e seguem um projeto padrão para o tamanho das figurinhas.

Para iniciar o negócio, o casal investiu R$ 5.390 em uma impressora 3D comprada à vista, já com quatro filamentos. “Estamos anunciando produtos de que gostamos do projeto e testando o que tem mais saída”, afirmam.

Atualmente, a produção leva cerca de nove horas para fabricar três caixinhas. Eles também vendem as peças pelo Instagram (@tobem3d).

Mercados mais promissores

Para Arthur Igreja, histórias como essas mostram como a impressão 3D vem mudando a lógica tradicional de produção.

“A fabricação passa a ser on demand. Você pode mudar o produto instantaneamente, testar tendências e produzir em pequena escala sem precisar de grandes estruturas”, afirma.

Um modelo de negócio nesse mercado pode ser uma sequência dessas oportunidades que, sob um primeiro olhar, parecem pontuais, pontua Igreja. “Começamos a ver movimentos culturais, séries e tendências viralizando rapidamente, casas inteligentes, e quem for mais criativo, for mais atento, pode usar um dispositivo como esse para criar produtos, para gerar negócios e viralizar.”

Setores promissores para investir em impressão 3D

Além de artigos colecionáveis e personalizados, Igreja diz que há uma demanda grande em aplicações de protótipos, aplicações industriais, fabricação em pequenos lotes, apresentação de produtos, conceito, engenharia, arquitetura, artesanato.

“O sucesso no mercado de impressão 3D depende mais da imaginação e da proposição do uso do que das limitações. Os segmentos mais promissores estão no campo da arquitetura, da engenharia da proposição, até o do teste de um produto para saber se ele vai pegar ou não, para, quem sabe, avaliar se até uma outra técnica de fabricação é economicamente mais viável.”

Enquanto a próxima figurinha rara não aparece, pequenos empreendedores já encontraram outro prêmio valioso na Copa do Mundo: uma nova oportunidade de negócio.

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IMAGENS: Divulgação

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