Profissionais 45+ lideram avanço do empreendedorismo no Brasil
Brasileiros usam experiência acumulada para abrir negócios e conquistar novas oportunidades no mercado de trabalho, a exemplo do administrador Fábio Baida, que, depois de uma carreira consolidada no mercado financeiro, abriu unidades da lavanderia de autosserviço LavPop

Nem todo mundo chega aos 45 anos com a tranquilidade financeira de quem acaba de ganhar um prêmio milionário. A ex-BBB Ana Paula Renault, por exemplo, venceu o BBB 26 e levou R$ 5,7 milhões para casa aos 44 anos.
Para a maioria dos brasileiros, porém, essa fase da vida costuma ser marcada por outro tipo de reflexão: continuar tentando crescer no mercado de trabalho, buscar recolocação profissional ou transformar anos de experiência em um negócio próprio.
Pela primeira vez, os brasileiros com mais de 45 anos representam um terço dos novos empreendedores do país. O dado revela uma mudança importante no perfil de quem decide abrir um negócio: profissionais mais experientes, com repertório acumulado e que enxergam no empreendedorismo tanto uma alternativa diante das dificuldades de recolocação quanto uma transição planejada de carreira.
E os números comprovam: 33,7% dos empreendedores iniciais — aqueles que estão começando um negócio ou têm empresas com até 3,5 anos de operação — têm mais de 45 anos, segundo a pesquisa Monitor Global de Empreendedorismo (Global Entrepreneurship Monitor – GEM 2025), realizada no Brasil pelo Sebrae e pela Anegepe (Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas). É a maior proporção já registrada pela pesquisa desde o início da série histórica, em 2000.
Por trás desse movimento, especialistas apontam duas forças caminhando lado a lado: o envelhecimento da população brasileira e as transformações do mercado de trabalho.
“Alguns profissionais chegam a essa fase da vida com experiência, capital acumulado e vontade de construir algo próprio, porém, há também uma parcela que decide empreender por encontrar dificuldade para se realocar no mercado de trabalho. Acredito que esses dois pontos fortalecem o resultado da pesquisa”, afirma Eliane Aere, presidente da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo).
Já para Dênis Nunes, analista da unidade de estratégia e transformação do Sebrae Nacional, o fenômeno também reflete mudanças demográficas e comportamentais.
“As pessoas vivem mais, permanecem mais tempo ativas e buscam alternativas para gerar renda e manter a vida profissional”, explica.
Empreender depois dos 45: união de experiência e planejamento
Para muitos profissionais, empreender depois dos 45 anos representa a oportunidade de transformar experiências acumuladas ao longo da vida em um novo projeto. Foi o que aconteceu com Luciana Aparecida de Faria, de 45 anos, que inaugurou neste ano uma unidade da rede OrthoDontic em Jacareí, no interior paulista, ao lado do marido, Ismael, de 55 anos.
Arquiteta por mais de 16 anos, Luciana decidiu voltar à faculdade durante a pandemia para realizar um sonho antigo: se tornar cirurgiã-dentista. A ideia de abrir uma franquia surgiu a partir do desejo do casal de construir um negócio próprio, unindo experiência profissional e mudança de carreira.
“Existe uma satisfação indescritível em acordar e trabalhar com aquilo que se ama de verdade”, afirma.
Segundo ela, a maturidade ajudou diretamente no processo de empreender. “Sem dúvida a experiência fez diferença. Nós estudamos muito o negócio antes de abrir”, diz.
O investimento inicial da clínica foi de cerca de R$ 250 mil, feito com capital próprio.
De acordo com Dênis Nunes, profissionais acima dos 45 anos costumam empreender de forma mais planejada que os mais jovens.
“Eles têm mais experiência, uma rede de contatos consolidada e maior preocupação em evitar erros. Normalmente estudam mais o mercado antes de investir”, afirma.
O especialista explica ainda que muitos empreendedores maduros iniciam a trajetória empresarial após anos de atuação no mercado formal.
Segundo levantamento do Sebrae sobre micro e pequenas empresas, mais da metade dos donos de pequenos negócios trabalhava anteriormente com carteira assinada antes de abrir a própria empresa.
Segunda carreira e construção de patrimônio impulsionam novos negócios
Na capital paulista, o administrador Fábio Baida, de 45 anos, também decidiu apostar no empreendedorismo. Depois de uma carreira consolidada no mercado financeiro, com passagens por instituições como Itaú e Santander, ele abriu uma unidade da lavanderia de autosserviço LavPop, em novembro de 2024. Neste ano, ele inaugurou a segunda.
Mesmo mantendo atuação como consultor de estratégia comercial para instituições financeiras, Baida afirma que o desejo de empreender cresceu ao longo da carreira.
“Conforme estou ficando mais velho, vou ampliando minha cabeça de empreendedor”, conta.
O negócio também acabou envolvendo a família. Em uma das unidades, o sogro acompanha parte da operação diária. Na outra, a mãe ajuda na rotina da loja.
“Meu desejo de empreender não foi pensando apenas no futuro financeiro, mas também em criar oportunidades para pessoas que ainda têm muito a contribuir e enfrentam dificuldades de recolocação no mercado”, afirma.
O investimento em cada unidade foi de cerca de R$ 200 mil, também com recursos próprios. Para ele, a maturidade ajuda na tomada de decisões e no enfrentamento dos desafios do negócio.
“Hoje sou mais completo porque sei fazer mais coisas. Empreender exige estar envolvido todos os dias”, afirma.
Baida também alerta para a importância da organização financeira e da reserva de caixa. Pouco depois da abertura da segunda unidade, a loja teve cabos de energia roubados, gerando um prejuízo equivalente a meses de faturamento.
“Se não tivéssemos reserva financeira, isso poderia comprometer toda a operação”, diz.
Após o etarismo, vieram o negócio próprio e convite para assumir gerência
Mas nem sempre o empreendedorismo surge apenas como realização pessoal ou planejamento de carreira. Para muitos profissionais maduros, abrir um negócio também se torna alternativa diante das dificuldades de recolocação no mercado de trabalho.
Foi o que viveu Solange Feliciano, de 48 anos, executiva e fundadora da Black Women In Tech, iniciativa criada em 2020 para capacitar mulheres negras na área de tecnologia.
“Enquanto não sabem sua idade, você vai bem nos processos seletivos. Quando perguntam, a situação muda”, relata.
Segundo Solange, o projeto nasceu em meio à pandemia, em um momento em que ela enfrentava dificuldades para retornar ao mercado de trabalho e percebia a falta de representatividade de mulheres negras na tecnologia.
A iniciativa começou com 30 mulheres e, ao longo de três anos, formou cerca de 250 profissionais em parceria com empresas como a Microsoft Brasil. Aproximadamente 60% das participantes conseguiram recolocação profissional. Dessas, 10% conseguiram emprego internacional.
Hoje, além de empreendedora social, Solange é gerente de sustentabilidade e parceria da Junior Achievement Brasil. Para ela, atualização constante é indispensável para quem deseja permanecer competitivo no mercado.
“Tenho 10 MBAs. Toda profissional precisa ter em mente a importância da atualização constante. Se eu não tivesse conhecimento em tecnologia e métricas, adquirido ao longo da minha carreira, eu não conseguiria gerar o impacto que gero hoje nas minhas duas frentes de atuação: Black Women In Tech e na JA Brasil. Eu transformei a minha experiência em formação de inclusão. Precisamos enxergar onde estamos e o que queremos.”
Profissionais 45+ ainda enfrentam barreiras no mercado de trabalho
A percepção de Solange sobre as dificuldades enfrentadas pelos profissionais maduros encontra eco nas análises da presidente da ABRH-SP. Segundo Eliane Aere, o etarismo ainda aparece de forma velada em muitos processos seletivos.
“O mercado ainda carrega a percepção de que profissionais 45+ são menos adaptáveis, mais caros ou menos produtivos, o que não corresponde à realidade”, afirma.
Ela destaca que outro desafio está relacionado aos processos automatizados de recrutamento. “Existe o viés algorítmico. Muitas vezes o profissional é eliminado antes mesmo de chegar à etapa da entrevista”, explica.
Além disso, Eliane alerta para a necessidade de atualização contínua diante das transformações tecnológicas e do avanço da inteligência artificial.
“Não dá mais para dormir no ponto. Atualização e aprendizado contínuo passaram a ser obrigatórios em qualquer fase da carreira”, diz.
Apesar dos desafios, a executiva avalia que empresas mais inovadoras já começam a enxergar a diversidade etária como vantagem competitiva.
“O Brasil está envelhecendo e as empresas que não aprenderem a valorizar profissionais mais maduros vão perder inteligência, repertório e capacidade de inovação”, afirma.
Ela foi convidada a assumir um departamento aos 45 anos
A advogada Fernanda Ribeiro Schreiner, de 47 anos, é um exemplo de que a recolocação profissional também pode acontecer de forma positiva após os 45 anos.
Depois de viver no Canadá e trabalhar como assistente de um consultor financeiro por lá, ela decidiu retornar ao Brasil em 2023, mas temia enfrentar dificuldades para voltar ao mercado por causa da idade.
O receio, no entanto, não se confirmou. Em cerca de um mês e meio que começou a procurar emprego, Fernanda conseguiu uma nova colocação profissional ainda enquanto estava fora do país, trabalhando remotamente. Atualmente, ocupa o cargo de gerente jurídica do Insper e diz que vê a diversificação etária como forte na instituição.
Na avaliação dela, experiência, estabilidade e comprometimento têm sido valorizados em posições de liderança e gestão. “O mercado não fechou as portas para os profissionais 45+. Vejo que o Insper prioriza na equipe de gerentes e gestores pessoas mais maduras, mais sêniores”, afirma.
Fernanda também destaca que adaptação tecnológica passou a ser uma exigência em qualquer fase da carreira.
“As pessoas precisam enxergar a tecnologia, principalmente a inteligência artificial, como aliada. Quem criar resistência à tecnologia ficará para trás”, afirma.
Ela acredita que profissionais maduros podem usar a experiência acumulada como diferencial competitivo, especialmente em funções que exigem relacionamento interpessoal, liderança e tomada de decisão.
Brasil envelhece e prolonga a vida profissional
Para especialistas, o avanço do empreendedorismo entre profissionais maduros e a permanência mais longa no mercado de trabalho refletem mudanças profundas no perfil da população brasileira e nas relações de trabalho.
Com o aumento da expectativa de vida e as transformações econômicas, a tendência é que as pessoas permaneçam produtivas por mais tempo, seja empreendendo, seja buscando novas oportunidades profissionais.
“Hoje as pessoas precisam planejar uma vida produtiva até os 100 anos”, afirma Eliane Aere.
Nesse cenário, experiência, atualização constante e capacidade de adaptação tendem a se tornar ativos cada vez mais valiosos para quem deseja continuar ativo no mercado após os 45 anos.
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