Choro por ti, Venezuela

Venezuelanos têm hoje um dólar no paralelo tão elevado quanto ao da União Soviética, na véspera de sua implosão

Roberto Fendt
02/Dez/2014
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Quando estive em Moscou, em outubro de 1989, um dólar ao câmbio oficial comprava 85 kopecks – 85 centavos de rublo. No mercado paralelo, no entanto, um dólar comprava 17 rublos, ou seja, o dólar valia no mercado paralelo 20 vezes o que valia no câmbio oficial. Não deveria surpreender ninguém que, pouco depois, em 26 de dezembro de 1981, o regime comunista desmoronaria e a União Soviética se dissolveria.
 
Talvez o mesmo esteja a caminho de ocorrer em nossa vizinha Venezuela, se não ocorrerem profundas mudanças na política econômica do país. Um simples dado mostra a severidade da situação econômica venezuelana. 

Em 1º de janeiro de 2012, um dólar valia 9,46 bolívares flertes no mercado paralelo de Caracas. Em 26 de novembro último, a moeda norte-americana foi cotada em 132,30 bolívares. Em menos de dois anos, a moeda local desvalorizou-se treze vezes no mercado paralelo, onde a cotação do dólar é livre.
 
Visto por outro caminho, dado que o câmbio oficial é de uma taxa fixa de câmbio de 6,30 bolívares por dólar para importações consideradas essenciais, a cotação no mercado paralelo equivale a 21 vezes o valor da moeda no mercado oficial.

Nenhum país com uma economia sã tem uma diferença entre as duas taxas da ordem de 21 vezes. Por esse indicador, a Venezuela está hoje em uma situação semelhante à da antiga União Soviética dois anos de seu desmoronamento.
 
Alguns atribuem essa diferença ao peso das exportações petrolíferas do país. Elas correspondem a 95% do total exportado. Mas outros países também têm uma participação elevada das exportações de petróleo, sem que isso implique tamanha distorção do mercado de divisas.
 
Em Angola, por exemplo, a participação dessas exportações é similar à da Venezuela, sem que isso implique um diferencial tão grande entre o valor do Kwanza no mercado oficial e o seu correspondente valor no mercado paralelo.
 
Um enorme diferencial no câmbio tem sérias consequências para qualquer economia. Em primeiro lugar, a manutenção de um dólar oficial artificialmente barato para a importação de bens essenciais, como alimentos, é usada na Venezuela como um instrumento para mascarar a inflação.

De fato, corresponde a um subsídio ao consumo desses bens, desestimulando a sua produção interna e deixando o país vulnerável diante de choques de oferta em outros países e a altas de preços no mercado internacional.
 
Em segundo lugar, incentiva a corrupção: quem tiver acesso a dólares através do mercado oficial pode arbitrar as duas cotações e ganhar dinheiro sem esforço.
 Talvez para minimizar esse efeito, o governo de Nicolas Maduro introduziu outras duas bandas para o câmbio venezuelano. A primeira, denominada de sicad 1, o dólar está cotado a 11,30 bolívares; na banda sicad 2, a cotação é de 49,90 bolívares.

Como as quantidades de dólares ofertadas pelo governo ao mercado são pequenas, o problema da arbitragem permanece. Quem comprar dólares a 11,30 bolívares e revende-los por 132,30, tem um lucro de 1.000%, sem qualquer risco.
 
Em terceiro lugar, um sistema de taxas múltiplas de câmbio – como já praticamos aqui na década de 1950 – causa grandes distorções na economia. A mais simples distorção se refere à dificuldade para as empresas de calcular suas receitas e despesas e seus ativos e passivos em dólares.

O problema não se limita a avaliar o desempenho das empresas em moeda forte, mas também em moeda local. Em agosto, a inflação anualizada ultrapassou a casa dos 63% e continua acelerando.

A despeito da moeda valorizada na importação de alimentos e outros bens essenciais, o consumidor venezuelano vem sendo duramente punido pela inflação. Controles de preços e do câmbio não levam a bons resultados, como aprendemos com nossa própria experiência.

Na Venezuela, esses controles estão gerando escassez de bens, que se tornaram rotina – como ocorria na extinta União Soviética. Estimativas independentes afirmam de a demanda insatisfeita dos consumidores atinge 35% do total ofertado.

Para complicar mais o quadro, os subsídios ao consumo de derivados de petróleo são os mais altos do mundo. A gasolina é vendida no país por cinco centavos de dólar por galão, comparado com mais de seis dólares por galão no Brasil.

Os efeitos sobre a estatal petrolífera local são similares ao que se dá com a Petrobras, especialmente o relacionado com perdas para o acionista e com a incapacidade de investir da PDVESA para explorar as imensas reservas petrolíferas.

Diante desse quadro, e da marcha dos acontecimentos, resta apenas aos venezuelanos chorar pelo seu país.
 
 

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