Com alta histórica, endividamento das famílias segue subindo, alerta BC

Ata do Comef do Banco Central aponta aumento do comprometimento da renda das famílias, desaceleração do crédito bancário e desafios na avaliação de riscos financeiros

Estadão Conteúdo
03/Jun/2026
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Com alta histórica, endividamento das famílias segue subindo, alerta BC

O Comef (Comitê de Estabilidade Financeira) do Banco Central alertou, em ata divulgada nesta quarta-feira (03/06), que o endividamento e o comprometimento de renda das famílias brasileiras estão historicamente elevados e seguiram crescendo.

Segundo o colegiado do BC, o contínuo aumento de modalidades de crédito mais caras na composição da dívida das famílias deve continuar gerando impactos no comprometimento da renda. "Esse cenário requer cautela e diligência adicionais no mercado de crédito", disse.

Em março, o nível de endividamento ficou em 49,8% - próximo do recorde histórico (49,9%) da série iniciada em 2005 -, e o comprometimento de renda estava em 29,3%.

No cálculo do endividamento das famílias, o BC considera o saldo das dívidas no mês em relação à renda disponível acumulada nos últimos 12 meses. Já o comprometimento de renda é calculado a partir do saldo das dívidas das famílias em relação à renda mensal.

O superendividamento da população brasileira levou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a relançar o programa Desenrola Brasil, que prevê descontos de até 90% na renegociação de dívidas e juros limitados a 1,99% ao mês.

A nova edição do programa em ano eleitoral é uma aposta do governo Lula para melhorar a percepção da população em relação à gestão petista na economia. O governo também prevê lançar uma linha voltada para consumidores adimplentes, ou seja, que não têm pagamentos em atraso, mas estão com a renda bastante comprometida.

Desde o último encontro, em março, o Comef observou que o crédito bancário prosseguiu desacelerando frente a um cenário de juros elevados - a taxa básica (Selic) hoje está fixada em 14,5% ao ano. "Do lado das famílias, o crescimento do crédito arrefeceu nas modalidades de maior risco, mas segue superior ao da carteira de menor risco", afirmou.

O financiamento via mercado de capitais, por sua vez, reacelerou, crescendo em ritmo bastante superior ao do setor bancário. "O aumento da relevância do mercado de capitais como fonte de financiamento para empresas ocorreu apesar das aberturas de spreads de debêntures incentivadas e dos resgates líquidos em fundos de crédito privado", disse.

O colegiado do BC afirmou ainda que o crescimento do crédito arrefeceu para micro, pequenas e médias empresas. "Esse crescimento foi sustentado pelos programas de incentivo ao crédito", disse. Para grandes empresas, por sua vez, houve reaceleração.

O Comef reconheceu que as empresas estão sendo afetadas pelo cenário de juros elevados, ainda que a maior parte das companhias demonstre resiliência. "A materialização de risco permaneceu elevada e em ascensão para todos os portes de empresas", afirmou.

Fundos de investimento

O colegiado do Banco Central também chamou atenção no documento para a dificuldade em avaliar riscos ligados a fundos de investimento estruturados em múltiplas camadas. O alerta vem na esteira do caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, já que as fraudes do Master contavam com pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, de acordo com levantamento da reportagem.

O fio dessa rede começou a ser puxado com base em seis fundos da Reag. Neles, estavam os ativos usados por Vorcaro para operar as fraudes, como papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), conhecidas como cártulas, e créditos de carbono.

"No mercado de capitais, permanece a preocupação com estruturas que envolvem múltiplas camadas de fundos de investimento que podem dificultar a adequada avaliação de riscos", disse. "Alguns fundos de investimento operam com cadeias estruturadas em múltiplos níveis, o que aumenta a complexidade do mapeamento de riscos."

 

IMAGEM: Freepik

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