O custo da desigualdade: por que o crédito feminino é a fronteira da eficiência econômica

Não podemos aceitar que a competência continue sendo tributada pelo gênero: quando uma mulher prospera, ela reinveste na sua família e na sua comunidade, gerando um efeito multiplicador que estabiliza a economia nacional

Presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) Nacional da CACB e dos CMECs da ACSP e da Facesp
  • btn-whatsapp
O custo da desigualdade: por que o crédito feminino é a fronteira da eficiência econômica

No complexo cenário econômico contemporâneo, os indicadores não apenas descrevem a realidade estatística; eles emitem um alerta severo sobre uma ineficiência estrutural que o Brasil não pode mais se dar ao luxo de negligenciar.

O empreendedorismo feminino no país vive um paradoxo persistente, oneroso e tecnicamente injustificável: embora as mulheres apresentem, sistematicamente, um histórico de adimplência superior ao dos homens, elas continuam a enfrentar taxas de juros significativamente mais elevadas.

Esta distorção não é apenas uma falha de equidade social, mas um erro de alocação de capital que compromete a produtividade nacional.

O paradoxo da adimplência e o "imposto de gênero"

Dados recentes do levantamento da Serasa Experian são cristalinos e desafiam a lógica tradicional de risco e retorno. A taxa de inadimplência entre empresas lideradas por mulheres situa-se em torno de 16%, comparada a 20% nos negócios geridos por homens. Na prática, as empreendedoras brasileiras demonstram ser 20% mais eficazes na gestão de risco e no cumprimento de suas obrigações financeiras. No entanto, essa responsabilidade fiscal exemplar não se traduz em condições de crédito equitativas nas instituições financeiras.

Essa contradição revela uma barreira estrutural que limita o crescimento de quem já provou competência operacional. Em 2025, o Brasil registrou um marco histórico com mais de 2 milhões de pequenos negócios abertos por mulheres, representando 42% das novas empresas no país. 

Estamos falando de um contingente vital que transforma renda em dignidade e desenvolvimento regional, mas que opera sob o peso de um "pedágio" financeiro desproporcional. De acordo com dados consolidados do SEBRAE, as taxas de juros para crédito a mulheres que chefiam micro e pequenas empresas atingiram a marca de 29,3% ao ano, enquanto os homens pagaram, em média, 20,3%. O risco de default é menor, mas o custo do capital é 44% superior. É o que analistas começam a classificar como um "imposto de gênero" invisível.

O contexto global e a exclusão no mercado de equity 

Essa realidade brasileira ecoa tendências monitoradas por organismos internacionais, mas com agravantes locais de concentração bancária. O Global Gender Gap Report, do Fórum Econômico Mundial, e estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) reiteram que, embora a presença feminina em cargos de decisão tenha avançado, o acesso a capital de giro e investimento de risco (Venture Capital) permanece estruturalmente excludente.

Relatórios da Grant Thornton e do Boston Consulting Group (BCG) demonstram que empresas com liderança feminina diversa geram melhor retorno sobre o investimento (ROI) e exibem maior resiliência em ciclos de crise. No entanto, a discrepância no mercado de equity é alarmante: menos de 3% do capital de risco global é destinado a startups fundadas exclusivamente por mulheres. No Brasil, o cenário é ainda mais restritivo. Muitas empreendedoras são forçadas a depender exclusivamente do crédito bancário tradicional, onde esbarram na falta de garantias reais — um reflexo da histórica concentração de patrimônio em nomes masculinos — e em vieses inconscientes que ainda permeiam os algoritmos de credit score.

A urgência do Gender Lens Investing e o impacto no PIB

Para reverter esse quadro, o mercado financeiro brasileiro precisa transitar urgentemente da retórica do ESG (Ambiental, Social e Governança) para a prática robusta do Gender Lens Investing (Investimento com Lente de Gênero). Isso implica em redesenhar modelos de análise de crédito para que valorizem o histórico de pagamentos e a sustentabilidade do fluxo de caixa acima de garantias físicas tradicionais.

As instituições que ignoram o perfil de baixo risco das mulheres estão, sob uma ótica puramente técnica, deixando dinheiro na mesa e mantendo ativos de maior risco em suas carteiras.

O fortalecimento do empreendedorismo feminino possui um efeito multiplicador comprovado na macroeconomia: mulheres reinvestem cerca de 90% de sua renda em suas famílias e comunidades locais. Ao democratizar o acesso ao capital de baixo custo para este público, o sistema financeiro não estaria apenas corrigindo uma injustiça estatística; estaria injetando eficiência real no mercado, reduzindo o risco sistêmico e acelerando a retomada do crescimento do PIB. O Brasil de 2025 não pode mais aceitar que a eficiência seja punida com juros extorsivos. É imperativo que o setor bancário reconheça que o rosto da solvência e da resiliência econômica no país é, predominantemente, feminino.

Um compromisso com o futuro

Quando uma mulher prospera, ela reinveste na sua família e na sua comunidade, gerando um efeito multiplicador que estabiliza a economia nacional.

A independência econômica é, muitas vezes, o primeiro e mais difícil passo, inclusive, para romper ciclos de violência doméstica e dependência emocional. Para isso, a conexão entre empreendedoras é vital, criando redes de apoio e capital social, estimulando a gestão profissional e sustentável dos negócios.

Fortalecer a mulher no associativismo é fortalecer o país. Não podemos aceitar que a competência continue sendo tributada pelo gênero. É urgente defender um ambiente de negócios em que a adimplência seja reconhecida e a liderança feminina encontre, finalmente, igualdade de condições. A autonomia financeira não é apenas uma pauta econômica; é uma conquista indispensável para a dignidade humana.


**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**


IMAGEM: Freepik

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é redacao@dcomercio.com.br .

 

Store in Store

Carga Pesada