Neobanks ampliam crédito para públicos de maior risco e aceleram crescimento

Entre 2021 e 2025, o saldo de crédito ativo das instituições digitais cresceu mais de 360%; apesar do avanço da inadimplência, apenas um em cada cinco clientes está com pagamentos em atraso

Rebeca Ribeiro
02/Jun/2026
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Neobanks ampliam crédito para públicos de maior risco e aceleram crescimento

Os 'neobanks', instituições financeiras que operam exclusivamente por canais digitais, lideram o atendimento aos consumidores com crédito ativo. Entre 2021 e 2025, o saldo desse tipo de crédito, considerando cartões de crédito e empréstimos pessoais nos bancos digitais cresceu mais de 360%. Nos bancos tradicionais, o crescimento foi de 37,5%. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (02/06), pela Equifax Boa Vista, que analisou mais de 165 milhões de CPFs ativos.

Em 2021, os neobanks representavam apenas 11,8% do total de crédito ativo. Em 2025, passaram a responder por 31,8% do mercado. O número de clientes dos bancos digitais saltou de 25 milhões, em 2021, para 61 milhões, em 2025. Já os bancos tradicionais possuíam 54 milhões de clientes em 2021 e passaram a ter 48 milhões em 2025.

Segundo Silvio Santana, vice-presidente comercial de Key Accounts da Equifax, o crescimento dos neobanks está fortemente atrelado à estratégia dessas instituições de ampliar a concessão de crédito para pessoas que estão iniciando a vida financeira ou que possuem baixo poder aquisitivo.

Entre 2021 e 2025, a parcela de clientes que recebem até um salário mínimo e obtiveram cartão de crédito passou de 6% para cerca de 20,6%. Em relação à concessão de empréstimos pessoais para esse mesmo grupo, o percentual saiu de quase 5% para mais de 14%.

Em relação ao primeiro cartão de crédito, 41,4% dos cartões foram emitidos por bancos digitais, enquanto apenas 4,9% foram concedidos por bancos tradicionais.

Com a maior concessão de crédito, os neobanks também passaram a concentrar a maior parcela de inadimplentes no cartão de crédito. Em 2021, o índice de indivíduos inadimplentes era de 7,7%; em 2025, a taxa chegou a 20,31%. Já nos bancos tradicionais, considerando o mesmo período, o indicador recuou de 14,75% para 13,6%.

Entre as pessoas de baixa renda, a inadimplência no cartão de crédito dos bancos digitais passou de 9,5%, em 2021, para aproximadamente 33%, em 2025. Já a inadimplência relacionada aos empréstimos pessoais subiu de 8% para 25%.

Apesar de a inadimplência ser uma das maiores preocupações do mercado, Marcos Coque, diretor de analytics da Equifax Boa Vista, explica que, ao analisar os dados, é possível concluir que apenas um em cada cinco consumidores dos neobanks é inadimplente - o que justifica o risco assumido por essas instituições.

Por crescerem principalmente por meio da concessão de crédito a consumidores que não tinham uma vida financeira ativa, os neobanks assumem um risco elevado de inadimplência. No entanto, Coque ressalta que essa estratégia também permite aos bancos analisar o comportamento de cada consumidor e a forma como ele lida com suas dívidas, aperfeiçoando a oferta de crédito para cada perfil.

“É um público desafiador. Isso não quer dizer que os neobanks tenham provocado a inadimplência, mas que atuaram junto a um público mais arriscado”, diz Coque.

Especialistas da Equifax e De Gamboa, da ACSP (2º à esq.): concorrência que oferece maior poder de barganha para o consumidor


Segundo Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que também participou do evento, o crescimento da participação dos neobanks na oferta de crédito à pessoa física eleva o grau de concorrência e auxilia os consumidores a terem maior poder de barganha, permitindo a escolha de linhas de crédito com melhores taxas de juros e prazos de financiamento.

Ainda segundo Santana, por serem instituições essencialmente digitais, os neobanks transformaram todo o mercado financeiro, obrigando muitos bancos tradicionais a digitalizar seus serviços. “Antes, para abrir uma conta bancária, o consumidor precisava ir até uma agência. Agora, é possível abrir uma conta diretamente pelo celular”, destaca.

Falta de confiança (do consumidor) ainda é o grande desafio

Apesar do crescimento dos bancos digitais, os bancos tradicionais ainda mantêm maior percepção de segurança entre os consumidores. Cerca de 66,9% dos entrevistados consideram que essas instituições estão mais preparadas para enfrentar crises financeiras. No entanto, os limites de crédito mais elevados oferecidos pelos bancos digitais têm atraído clientes dos bancos tradicionais.

Cerca de 46% dos entrevistados migraram para outras instituições em busca de maior limite de crédito, enquanto 25,6% fizeram a mudança em razão de juros mais baixos. Ainda assim, 71,5% dos entrevistados afirmaram que não trocariam seus bancos por instituições exclusivamente digitais.

De acordo com Santana, os bancos tradicionais mantêm uma relação afetiva com os consumidores, por terem sido a primeira instituição financeira de muitos deles, onde receberam o primeiro salário e realizaram seus primeiros investimentos.

Com isso, a tendência é que a confiança nos bancos digitais aumente nos próximos anos, impulsionada por uma relação mais próxima com consumidores que estão iniciando sua vida financeira. Além disso, a pesquisa mostra que o público dessas instituições tem envelhecido, e hoje é formado majoritariamente por pessoas entre 36 e 50 anos.

Para Coque, os bancos digitais transformaram o comportamento do consumidor, que hoje é cada vez mais híbrido, alternando entre instituições tradicionais e digitais.

“Muitos consumidores tomam empréstimos nos bancos digitais, mas mantêm suas reservas financeiras nos bancos tradicionais justamente pela percepção de segurança dessas instituições e pelas facilidades de crédito oferecidas pelos bancos digitais”, afirma.

O próximo passo para consolidar o crescimento dos neobanks no Brasil é conquistar a confiança dos consumidores por meio da ampliação do acesso aos serviços, segundo Ana Paula Fontana, diretora comercial da Equifax Boa Vista.


IMAGEM: Freepik e Rebeca Ribeiro

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