'Pacote de bondades' adia desaceleração do PIB, mas juros e riscos fiscais preocupam
Reunião de conjuntura na ACSP aponta que injeção de recursos eleva projeção de crescimento para 2026. Porém, agro enfrenta crise de recuperação judicial e o e-commerce sofre com salto em fraudes digitais

Com a possibilidade de uma desaceleração mais lenta da economia brasileira nos próximos meses, o mercado já enxerga uma revisão para cima no crescimento do PIB de 2026, atualmente estimado em torno de 1,89% pelo Relatório Focus do Banco Central.
O cenário foi debatido por empresários e economistas que se reuniram na última quinta-feira (28/05) para a reunião do Comítê de Avaliação da Conjuntura Econômica da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). A pedido da entidade, a identidade dos participantes é mantida em sigilo.
Para o grupo, a perspectiva de resiliência da atividade econômica tem uma explicação que não é necessariamente positiva. O estímulo ao consumo é resultado do chamado "pacote de bondades" do governo federal, que soma uma injeção de até R$ 227 bilhões na economia. Este conjunto de 17 medidas envolve subsídios, programas sociais, isenções, negociações de dívidas e novas ofertas de crédito.
Embora o objetivo seja aumentar a renda disponível e impulsionar o consumo, analistas alertam para os elevados riscos fiscais e inflacionários. Essa forte injeção de liquidez também complica o trabalho do Banco Central em reduzir a taxa básica de juros (Selic) para patamares mais estimulantes sem correr riscos de descumprimento da meta da inflação.
Agro: crise de crédito e clima
O setor que historicamente sustenta o PIB brasileiro demonstra forte preocupação com fatores internos e com as oscilações do mercado mundial. O crescimento do agronegócio continua no longo prazo, dado o grande potencial do país e o elevado percentual de terras cultiváveis disponíveis para expansão. O grande problema atual, no entanto, é o descasamento entre a oferta e a demanda internacional.
Acreditando na manutenção da alta das commodities, muitos produtores investiram fortemente em bens de capital, fertilizantes e expansão de lavouras, financiando-se no sistema bancário. A virada do ciclo — marcada pela queda nos preços das commodities, elevação dos custos de produção e eventos climáticos extremos, resultou em mais de 2 mil empresas do setor entrando com pedidos de recuperação judicial.
De acordo com os representantes do agro presentes na ACSP, o setor demanda melhorias urgentes como o fortalecimento do Seguro Rural, por exemplo. Eles defendem que o mecanismo conte com mais apoio e subsídios governamentais, citando o modelo dos Estados Unidos, onde o governo chega a subsidiar até 90% do prêmio do seguro.
Para os participantes, o seguro é um instrumento vital de segurança jurídica para quem já enfrenta gargalos eternos de infraestrutura rodoviária, portuária e logística. O setor pede ainda uma maior união entre produtores, fornecedores de insumos, exportadores e o governo.
Entraves na indústria
Para os representantes do setor industrial, os estímulos financeiros do governo também vão impactar os resultados de curto prazo, gerando um leve crescimento sustentado da demanda agregada pela injeção de dinheiro no mercado. No primeiro trimestre, a indústria extrativa registrou expansão de cerca de 8%, enquanto a indústria de transformação avançou discretamente 0,3%.
Mas essa expansão de demanda deverá pressionar a inflação, num contexto de provável interrupção de cortes de juros. A pressão de demanda deve fazer com que o setor industrial interrompa sua trajetória de desaceleração.
No segmento da indústria têxtil, as dores são mais profundas. Os empresários apontam para a falta de crédito, a escassez de mão de obra qualificada e competição desigual. Há fortes queixas contra a a retirada da 'taxas das blusinhas' - o que vai facilitar ainda mais a concorrência desleal de plataformas estrangeiras. O setor reclamou da 'injustiça tributária' que pune o empreendedor nacional, desincentiva a modernização e empurra investimentos para países vizinhos, como o Paraguai.
Com o retorno sobre o capital muito baixo, os empresários demonstram pouca disposição para investir em maquinário de alto custo.
Fraudes no e-commerce
O comércio eletrônico brasileiro enfrenta um cenário crítico de vulnerabilidade devido à sofisticação e à mudança de estratégia das fraudes digitais, de acordo com o especialista do setor presente à reunião da ACSP. O avanço do crime online exige das empresas investimentos em tecnologia, inteligência de dados e equipes especializadas, elevando os custos operacionais e de seguros no setor. As ações criminosas saltaram de 19 milhões para 21,6 milhões, um prejuízo de R$2 bilhões em tentativas de golpe por ano, destacou.
Houve um crescimento de 11% nas fraudes. Com táticas mais criativas, os criminosos migraram suas ações para transações de menor valor unitário, focando em produtos de fácil revenda no mercado paralelo. Esse movimento pulverizou o crime, impactando diretamente os pequenos varejistas, que dependem de ferramentas de segurança limitadas e não possuem recursos para desenvolver sistemas próprios.
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