Com crises e tarifaço, dominar o processo de importação é fundamental para empresas de comex
Helber Minello, especialista em comércio exterior, detalhou as melhores práticas para importadores durante a masterclass Importação 360, promovida pela SP Chamber of Commerce da ACSP

O cenário global do comércio exterior nunca esteve tão volátil. Crises geopolíticas consecutivas, como os gargalos e tensões no Canal de Suez, no Canal do Panamá e no Estreito de Ormuz, provocaram uma verdadeira explosão nos preços dos fretes internacionais. Rotas marítimas, que antes custavam US$ 1,1 mil por container, saltaram para US$ 5,5 mil, inflacionadas por sobretaxas inesperadas, como a "taxa de risco de guerra". Como se não bastasse, a iminência de barreiras alfandegárias faz o mercado correr contra o relógio.
Ao comentar esse contexto, Helber Minello, especialista em comércio exterior, diz que uma grande marca de sandálias de borracha chegou a fretar dois aviões inteiros para escoar suas mercadorias para os Estados Unidos antes da vigência de um novo tarifaço.
Por essa razão, ele diz que, neste ambiente de incertezas, a importação deixa de ser uma mera transação de compra e passa a ser um instrumento vital de desenvolvimento empresarial e integração econômica. "Quem domina o jogo, garante maior presença de mercado, ganha competitividade e aumenta o market share. Quem negligencia os processos, quebra."
Para entender como blindar empresas e transformar o comércio exterior em lucro, Minello detalhou as melhores práticas de planejamento, viabilidade e gestão de risco durante a masterclass Importação 360, promovida pela SP Chamber of Commerce, braço de comércio exterior da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), na quarta-feira (17). Ao falar sobre os primeiros passos, o especialista diz que, antes de olhar para o mercado externo, a empresa precisa passar por um diagnóstico interno minucioso que avalie suas estruturas jurídica, financeira e operacional, pois a importação exige o cumprimento rigoroso de obrigações fiscais, cambiais, aduaneiras e regulatórias. O primeiro passo, segundo ele, é a habilitação no sistema RADAR, da Receita Federal.
"Hoje, a Receita Federal exige que a empresa esteja plenamente apta para conceder o RADAR. É preciso ter organização interna, análise regulatória, planejamento tributário e estruturação logística prévios para que as inconsistências não respinguem nos processos de comex da empresa", alerta Minello.
Ele explica que existe um mito de que a primeira importação de uma empresa nova cai inevitavelmente no Canal Vermelho (conferência física e documental), mas ele o desmistifica.
"Já faz anos que vejo empresas estreando direto pelo Canal Verde (desembaraço automático). Toda vez que você dá entrada em uma Licença de Importação (LI), a Receita Federal vai cruzando dados. Se a empresa faz a classificação fiscal (NCM) correta, a chance de dar errado é muito pequena."
No entanto, para setores regulados como vinhos, cosméticos e medicamentos, o cuidado deve ser redobrado. É obrigatório obter aprovações prévias junto aos órgãos anuentes (Anvisa, Inmetro, MAPA, Anatel) antes de iniciar qualquer negociação comercial. Minello aponta que, estatisticamente, os maiores problemas para quem começa a importar ocorrem nos dois primeiros embarques, seja por erros na confecção de documentos, falhas na origem ou problemas na chegada.
Para mitigar esse risco, o especialista sugere que a tecnologia seja uma aliada, por meio de ferramentas de inteligência comercial e relatórios de mercado, com dados públicos acessíveis, além de ser um caminho importante também para chegar a potenciais fornecedores.
Minello lembra também que a escolha do transporte certo define a agilidade e o custo da operação. O marítimo, segundo ele, mesmo com a explosão recente dos fretes, continua sendo o modal mais econômico devido ao volume transportado. “Perde-se em tempo, mas ganha-se em competitividade de escala.”
O aéreo, indicado para cargas urgentes, de altíssimo valor agregado ou para antecipar-se a mudanças repentinas de alíquotas. E o rodoviário, para quem quer começar a importar utilizando os países vizinhos (Mercosul), pois possui rotas seguras, processos aduaneiros eficazes, facilidade de comunicação e agilidade pela distância geográfica.
Pensando em custos, o especialista também diz que a negligência com os detalhes logísticos no porto de destino é um dos “maiores ralos de dinheiro” no comércio exterior. Nesse sentido, ele aponta que o controle do tempo de devolução do container ao terminal é crucial.
"Toda vez que se compram dias adicionais de free time (tempo livre de uso do container) antes do embarque, o custo é de 10 a 20 dólares por dia. Se a empresa estourar o prazo na chegada, a taxa de demurrage (sobreestadia) salta para 150 ou 200 dólares por dia. Isso come a margem e leva à perda total de competitividade", diz Minello.
A regra se aplica também aos armazéns portuários, ele lembra. Quem não negocia previamente as taxas locais acaba tendo os custos calculados pela tabela pública do porto, que é excessivamente cara. Para evitar isso, contar com prestadores de serviços essenciais e qualificados (como despachantes e agentes de carga) é como ter um contador de total confiança acompanhando a empresa por anos, diz.
Modelos de Negócio
Para avançar nessa modalidade, Minello explica que o mercado oferece diferentes formatos de operação: importação direta (para revenda, industrialização ou uso próprio) e importação por encomenda ou por conta e ordem. Além disso, ele lembra que, no Brasil, muitas trading companies se destacam ao utilizar benefícios fiscais estaduais estratégicos, como o Tratamento Tributário Diferenciado (TTD) de Santa Catarina ou os incentivos fiscais do Espírito Santo, reduzindo drasticamente o impacto do ICMS. E no momento de fechar o contrato, a escolha do Incoterm (termo internacional de comércio) dita o nível de controle sobre os custos:
- EXW (Ex Works): O fornecedor apenas disponibiliza o produto na fábrica dele. "É o melhor dos mundos para o importador, porque toda a cadeia logística fica na sua mão. Você controla de ponta a ponta: negocia o frete, o free time, escolhe a rota e o navio."
- FOB (Free on Board) ou FCA (Free Carrier): O fornecedor entrega a carga pronta no porto de origem, isentando o comprador de surpresas com taxas locais ocultas na origem.
Por outro lado, Minello alerta para modalidades em que o fornecedor assume o frete sem abrir as planilhas e só descobre o valor depois, pagando imposto em cima de um montante inflacionado quando o produto chega ao Brasil.
O cálculo do Custo Landed - que soma o valor da mercadoria (Fatura Proforma), frete, seguro, taxas portuárias e todos os impostos - é o que determina a real viabilidade comercial do projeto, ele diz. Na ponta do lápis, o empresário precisa perguntar: por quanto posso revender esse produto? Qual o potencial real desse mercado?
Em um cenário de câmbio flutuante, Minello argumenta que o planejamento exige proteção e que empresas de qualquer porte devem utilizar o hedge cambial para travar a moeda de pagamento, contando com o suporte direto de um gerente de câmbio bancário para garantir a conformidade e mitigar riscos financeiros. No campo dos impostos, Minello traz uma visão realista, especialmente diante das modernizações fiscais.
"Imposto todo mundo paga, não é um bicho de sete cabeças. Com a Reforma Tributária, o cenário de impostos vai se equalizar para todos os concorrentes. Onde vai estar o seu ganho real? Na sua capacidade de negociar o preço do produto, o valor do frete e o seguro. Você precisa fechar um câmbio melhor que o do seu concorrente e ter um despachante aduaneiro mais rápido do que o dele. Atenção para até onde dá para negociar: com o governo não dá para barganhar imposto, mas com o frete e a logística, dá."
Uma revisão tributária periódica também é recomendada pelo especialista para analisar se a base de cálculo do valor aduaneiro foi preenchida corretamente e identificar oportunidades de recuperação de créditos fiscais (como créditos sobre o valor da mercadoria, frete ou seguro), corrigindo erros frequentes que geram pagamentos indevidos.
Para as empresas que buscam atingir o nível máximo de conformidade e segurança jurídica, o especialista aponta a certificação OEA (Operador Econômico Autorizado) da Receita Federal como o maior diferencial competitivo atual. O certificado funciona como um verdadeiro “desembaraço aduaneiro sobre rodas”, já que as empresas certificadas desfrutam de uma redução drástica no percentual de inspeções (menor incidência de canais amarelos e vermelhos), prioridade total no tratamento de cargas e maior previsibilidade logística, garantindo prazos imbatíveis de liberação e blindando a operação contra os imprevistos do comércio global.
IMAGEM: Jonne Roriz/AE

